terça-feira, 27 de janeiro de 2026

 



A Ética é um Calafrio: Quando o Corpo Reage Antes do Cérebro

 

Imagine a cena: você está andando na rua e vê uma pessoa idosa tropeçar e cair no chão. O que acontece primeiro? Um longo raciocínio filosófico sobre a solidariedade humana? Uma consulta a um manual de regras morais? Não. Primeiro, vem um susto. Um frio na barriga. Um impulso quase automático de correr e ajudar. As pernas se movem antes que a mente termine de pensar. Isso não é apenas bondade. Isso é ética no seu estado mais puro e cru.

Este texto vai falar sobre um jeito diferente de entender o que é “ser ético”. Uma visão que não fica presa em livros, debates complicados ou códigos de conduta. É uma visão que desce da cabeça e vai direto para a pele, para os ossos, para o estômago. É sobre entender que a verdadeira ética é um calafrio.

 

O Quebra-Cabeça da Mente: Quando a Empatia Vira um Problema de Lógica

Por muito tempo, filósofos tentaram entender a empatia como se fosse um quebra-cabeça da mente. Um dos mais famosos, Ludwig Wittgenstein, via a empatia como um "convencimento". Para ele, era como se você precisasse se convencer, dentro da sua cabeça, de que a outra pessoa estava sentindo dor. No senso comum empatia passou a significar “se colocar no lugar do outro”, um exercício intelectual: “Como posso imaginar uma dor que não é minha?”

Pense nisso: “Devo representar para mim mesmo, de acordo com o sofrimento que sinto, aquele que não sinto”. Soa complexo, não é? Soa frio. É como transformar o grito de dor de alguém em um problema de matemática a ser resolvido. Um código a ser decifrado.

Aqui mora um grande perigo. Quando reduzimos a dor alheia a um “exercício de imaginação”, nós criamos uma distância. Colocamos uma barreira de vidro entre nós e o sofrimento do outro. É uma forma quase invisível de nos blindarmos, de nos proteger do impacto bruto e desconfortável que a dor do outro causa. Ficamos seguros atrás das nossas teorias.

 

A Revolução do Corpo: O Calafrio que Atravessa a Pele

Contra essa ideia de uma ética só cerebral, surgiram vozes fortes que trouxeram a ética para onde ela sempre deveria ter estado: no corpo.

Pense no filósofo Max Scheler. Ele falava dos sentimentos como coisas que a gente sente fisicamente. E pense, principalmente, no teórico Theodor Adorno, um homem que viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial e entendeu que teorias bonitas não impedem atrocidades.

Adorno foi brutalmente direto. Ele disse que, no fim das contas, depois de tanta conversa bonita, a ética só sobrevive por dois motivos muito simples, muito materiais, muito físicos:

  1. Medo físico. O medo de que aquela dor, aquela tortura, possa um dia ser a nossa. O medo que faz o coração acelerar.
  2. Solidariedade com os corpos torturáveis. A conexão direta, de corpo para corpo, com qualquer ser que tenha pele que possa ser machucada, ossos que possam ser quebrados, um estômago que possa sentir fome.

Para Adorno e Scheler, o núcleo do sentimento ético não é uma ideia. É um impulso material. É algo que acontece na sua carne antes de acontecer na sua consciência.

 

O Calafrio Ético em Ação: Nosso Sistema de Alerta Primário

Vamos detalhar como esse “calafrio ético” se manifesta no dia a dia. Ele é o nosso sistema de alerta mais primitivo, herdado dos nossos ancestrais, que precisavam viver em grupo para sobreviver.

  • O Aperto no Estômago: Você está vendo uma discussão. Uma pessoa começa a gritar com a outra, humilhar, diminuir. Mesmo que você não seja o alvo, seu estômago embrulha. É uma sensação de mal-estar físico. Seu corpo está reagindo à agressão que testemunha, identificando-se com o corpo que está sob ataque verbal.
  • O Calafrio na Espinha: Você lê uma notícia sobre uma criança ferida, ou vê uma imagem de um animal abandonado sob a chuva. De repente, um arrepio corre sua coluna. Não é só tristeza. É um choque físico, uma corrente de identificação instantânea. É como se, por uma fração de segundo, você sentisse aquele frio, aquela vulnerabilidade.
  • A Vontade Imediata de Agir: Alguém derruba todos os papéis que carregava. Suas mãos se estendem para pegar os papéis antes mesmo de você “decider” ser prestativo. Seu corpo já entrou em movimento. Essa vontade de agir não é um pensamento (“devo ajudar”), é um reflexo quase motor (“vou ajudar”).

Essas reações são a identificação visceral, quase animal, com quem sofre. Elas pulam todas as barreiras da linguagem e da lógica. São um sinal de que, no fundo, reconhecemos que somos feitos da mesma matéria frágil. Que a pele do outro é tão penetrável quanto a nossa.

 

O Perigo das Teorias Vazias: Quando a Ética Perde o Chão

A crítica feroz de Adorno serve como um grito de alerta para os nossos tempos. Vivemos numa era de muitos debates, muitas opiniões nas redes sociais, muitas discussões teóricas sobre o que é certo e errado.

O perigo é enorme: o de deixarmos que a dor real, concreta e gritante se dissolva em um mar de teorias abstratas, discussões sem fim e jargões complicados. Podemos falar por horas sobre “justiça social” enquanto ignoramos o grito do nosso vizinho. Podemos debater “direitos animais” com palavras bonitas e continuar indiferentes ao cachorro amarrado sob sol na rua de baixo.

Quando a ética vira apenas um debate de ideias, nós perdemos o contato com o chão. Perdemos o contato com o cheiro, o grito, o tremor, a lágrima. A teoria, sozinha, pode nos deixar cegos e insensíveis.

 

A Empatia como Ato de Resistência: O Corpo que se Rebela

Por isso, a empatia genuína, a que começa com um calafrio, é muito mais do que um sentimento bom. Ela é um ato de resistência.

É a rebeldia do seu corpo inteiro contra a frieza do mundo. É o seu estômago se contraindo e dizendo “Não!” a uma injustiça, antes que a sua mente encontre uma desculpa para se calar. É a sua pele arrepiada se solidarizando com outra pele, criando um laço invisível e poderoso de proteção.

É sentir, na própria pele, o que as palavras nunca vão conseguir explicar totalmente. A linguagem é lenta e cheia de falhas. O corpo é imediato e verdadeiro.

 

A Verdadeira Ética

A verdadeira ética, portanto, não nasce em congressos ou em livros de regras. Não nasce de um cálculo de vantagens (“se eu ajudar, serei recompensado”).

A verdadeira ética nasce no susto compartilhado.
Nasce no frio na barriga que é espelho do frio na barriga do outro.
Nasce na vontade imediata e física de agir, de estender a mão, de se colocar entre o golpe e o alvo.

Ela é um calafrio. Um calafrio que nos lembra, de forma bruta e bela, que somos comunidade. Que a fronteira entre o “eu” e o “outro” é muito mais fina do que imaginamos. É na carne que a moral encontra sua força mais pura e sua verdade mais difícil de ignorar.

Da próxima vez que sentir aquele arrepio, aquele aperto, preste atenção. Não o ignore como um simples nervosismo. Pode ser a sua humanidade mais profunda, saindo do seu corpo e gritando. Pode ser a ética, viva e pulsante, batendo à sua porta.


domingo, 25 de janeiro de 2026

 



Do Choque ao Encontro: Como Transformar Desentendimentos em Conhecimento

 

A vida é cheia de desentendimentos. Aprender a navegar por eles, em vez de fugir, é o segredo para relacionamentos mais fortes, seja no amor, na família, nas amizades ou no trabalho. Eis uma possibilidade de um caminho: a escuta que reconstrói.

 

Você já saiu de uma discussão sentindo que perdeu parte de si? Que o ar ficou pesado, o coração apertado, e uma distância enorme foi criada onde antes havia proximidade? É uma sensação física, como se algo tivesse sido quebrado.

Agora, reflita: você já saiu de um desentendimento sentindo que entendeu algo profundo? Sobre a outra pessoa, sobre você mesmo, sobre como vocês funcionam juntas? Como se, apesar do desconforto, um novo nível de confiança e clareza tivesse nascido?

Se a primeira cena é mais familiar, você não está sozinha. Nossa reação cultural ao conflito é tratá-lo como uma bomba. Algo a ser desarmado com urgência, evitado a todo custo ou, pior, detonado na cara do outro para "vencer" a disputa. Nos preparamos para a guerra. Fechamos o rosto, cruzamos os braços, e nossa mente começa a formular as próximas acusações enquanto fingimos ouvir.

Mas e se eu te disser que estamos olhando para isso de forma completamente distorcida?

E se o conflito não for uma bomba, mas um sinal de alerta brilhante e barulhento? E se, mais do que um alerta, ele for uma fonte preciosa de saber sobre a outra pessoa e sobre nós mesmas?

A verdadeira habilidade não é evitar o conflito. É aprender a passar por ele de um jeito que construa, em vez de destruir. Essa habilidade se chama Escuta Ativa, e ela é menos um dom místico e mais um conjunto de gestos concretos, quase manuais, que qualquer pessoa pode desenvolver.

Vamos destrinchar isso, passo a passo.

 

Os Dois Tipos de Desentendimento: A Encruzilhada

Em qualquer discussão, chegamos a uma encruzilhada invisível. O caminho que escolhemos define tudo.

  • O Caminho do Confronto (que destrói): Aqui, o objetivo é único: ter razão. É uma batalha campal. A palavra do outro não é um ponto de vista, é uma ameaça. Interrompemos, invalidamos ("Isso é bobagem"), atacamos com julgamento ("Você sempre foi egoísta"), e usamos o passado como arma. No final, pode até parecer que "ganhamos", mas o saldo é de terra arrasada: mágoa, ressentimento e um muro mais alto entre as pessoas.
  • O Caminho do Conflito Construtor (que ensina): Aqui, o objetivo é compreender. É um encontro. Partimos do pressuposto de que duas verdades podem coexistir. Que o "erro" do outro, muitas vezes, é apenas a expressão de uma necessidade não atendida, de um medo não dito, de um jeito diferente de ver o mundo. Este caminho é trabalhoso, exige coragem para baixar a as defesas, mas seu fruto é a reconexão.

A grande virada acontece quando trocamos a pergunta "Quem está certo?" pela pergunta "O que está acontecendo aqui?".

 

A Anatomia da Escuta que Reconstrói: Um Guia de 5 Passos

A escuta ativa é a ferramenta prática para seguir o caminho do conflito construtor. Não é sobre ser passivo ou concordar com tudo. É sobre uma postura curiosa, em vez de defensiva. Trata-se de abrir seu coração para acolher a outra pessoa.

Cenário Comum: Seu parceiro(a) chega em casa estourado(a) e diz: "Você nunca me escuta! Está sempre no celular!"

Reação Automática (Caminho do Confronto): "Nunca? Sempre? Que exagero! Eu cheguei cansado do trabalho, você não vê? E você, então, que vive criticando?" (A bomba está armada. A batalha começou).

Reação com Escuta Ativa (Caminho do Encontro):

  1. Pausa e Presença: Antes de reagir, respire fundo. Coloque o celular de lado, vire-se completamente para a pessoa e olhe nos olhos. Esse simples gesto corporal manda a primeira mensagem: "Você tem toda a minha atenção agora."
  2. Repita com Suas Palavras (o Espelho): Não interprete, não julgue. Apenas devolva o que ouviu, como um espelho. "Então, pelo que estou entendendo, você está se sentindo ignorado(a) e acha que o celular é uma barreira entre a gente." Isso não significa que você concorda. Significa: "Estou me esforçando para captar sua mensagem." Mágica: isso obriga você a realmente ouvir e dá chance para a pessoa corrigir seu entendimento.
  3. Valide o Sentimento (a Ponte Emocional): Este é o passo mais poderoso e negligenciado. Validar NÃO é concordar com o fato, é reconhecer a legitimidade do SENTIMENTO"Faz total sentido você se sentir assim. Se eu visse a pessoa que amo distraída com uma tela, eu também me sentiria deixado de lado." Esta frase pode reduzir as hostilidades. Ela diz: "Seu mundo interno é real para mim."
  4. Fale do Seu Lugar (desarme suas defesas): Agora é a sua vez. Mas não para contra-atacar. Para compartilhar seu universo interno. Use frases que começam com "EU""Quando você diz isso, eu fico confuso, porque eu tinha a impressão de que estávamos bem. E eu posso não ter captado bem o que está acontecendo. Eu preciso entender melhor o que você está sentindo." Note: você deixou de ser um adversário para se tornar um aliado contra o mal-entendido.
  5. Busque a Necessidade (a Raiz do Problema): Por trás de toda crítica há um desejo ou uma necessidade não expressa. Faça a pergunta-chave: "O que você está precisando agora que não está tendo?" Ou, direto ao ponto: "Você está precisando de mais tempo de qualidade, de mais conversa olho no olho?" Frequentemente, a discussão superficial (o celular) desaba, revelando a verdadeira sede: por conexão, por importância, por presença.

 

O Conflito como Fonte de Saber: O Que Você Realmente Ganha

Quando você adota essa postura, algo extraordinário pode acontecer, ou, é mais provável que aconteça. O conflito para de ser um ruído e vira informação valiosa. Ele se torna um diagnóstico relacional.

  • Ele Atualiza seu Mapa do Outro: Você descobre que seu colega de trabalho não é "chato por querer tudo perfeito", mas teme o fracasso porque já foi humilhado no passado. Você entende que a irritação da sua mãe não é com você, mas com a solidão que ela sente. Você atualiza o arquivo interno que tem sobre aquela pessoa, trocando o rótulo pela história.
  • Ele Revela Seus Pontos Cegos: Você percebe, pelo feedback da outra pessoa, que tem o hábito de interromper quando está ansioso. Ou que usa um tom sarcástico que fere, sem nem notar. O conflito é o espelho mais honesto que existe, mostrando o impacto que você causa nas outras pessoas.
  • Ele Expõe as Falhas no "Sistema": Em um time, um conflito constante sobre prazos pode revelar um processo de comunicação falho, e não a "incompetência" de alguém. Num casamento, uma briga recorrente sobre dinheiro quase nunca é sobre o dinheiro em si, mas sobre valores, segurança ou liberdade. O conflito aponta, com uma seta brilhante, onde a estrutura precisa ser ajustada.

 

O Vento Forte que Fortalece as Raízes

Pense em uma árvore grande e frondosa. Anos de tranquilidade a fizeram crescer, mas é nos períodos de vento forte que algo importante acontece: seus galhos podem até quebrar, folhas podem voar, mas, sob a terra, as raízes são forçadas a se agarrar com mais força, a se aprofundar para buscar mais estabilidade.

O conflito bem resolvido é esse vento forte. É desconfortável, assustador, bagunça a copa das nossas certezas. Mas, no processo, força as raízes da relação a se entranharem mais fundo no solo da confiança, do respeito mútuo e da verdade.

Na próxima vez que a tensão subir, antes de engatilhar sua defesa, respire. Faça a si mesmo as duas perguntas sagradas:

  1. "O que ele(a) realmente está precisando agora que não conseguiu dizer de forma clara?"
  2. "O que EU realmente estou precisando e não estou conseguindo expressar sem atacar?"

Escute o silêncio entre as palavras. Fale a partir do seu coração, não do seu orgulho.

É difícil? Extremamente. Exige treino, paciência e desarmar uma vida de condicionamentos.

Vale a pena? Absolutamente sempre. Porque cada conflito transformado em encontro não é um problema resolvido. É o vínculo mais fortalecido. É uma intimidade conquistada. É a prova mais tangível de que, juntas, vocês são capazes de passar pelo fogo e sair do outro lado não com cicatrizes, mas com uma liga mais forte, mais flexível e infinitamente mais verdadeira.

O conflito, tratado com cuidado, não afasta. Ele pode aproximar. Ele não quebra, ele pode reconstruir.

Comece hoje. A próxima discussão não ser uma ameaça. É sua próxima grande oportunidade.

 

#EscutaQueCura #ConflitoConstrutor #ComunicaçãoLibertadora #RelacionamentosSaudáveis #PolíticaSolidária


domingo, 18 de janeiro de 2026


 

Como a Liberdade de Cada Pessoa Precisa do Grupo para Existir de Verdade: Uma Ideia Revolucionária Simples

Pense numa coisa que parece simples: o que é ser livre? No mundo de hoje, nos dizem que liberdade é cada uma fazer o que quer, sozinha, sem ninguém atrapalhar. Do outro lado, quando falamos em melhorar o mundo, parece que a solução é sempre pensar só no grupo, e a pessoa tem que ser anulada.

Um livro profundo sobre Karl Marx, de Zhi Li, mostra que essas duas ideias estão erradas. E o futuro de uma sociedade mais justa depende de integrá-las. O livro mergulha fundo no pensamento de Marx para mostrar uma ideia que pode mudar tudo.

 

A ideia central é essa: a nossa liberdade individual só fica forte quando estamos num coletivo solidário. E um coletivo só vale a pena se ele servir para libertar cada pessoa dentro dele.

Parece confuso, mas é simples.

1. A Liberdade Sozinha é Fraca e Falsa
Sozinha, uma pessoa é fraca. Por mais que ela queira, suas escolhas são limitadas. Zhi Li explica que Marx chamava isso de "liberdade abstrata". É a liberdade no papel, mas não na vida real, é uma ilusão, uma fantasia. Sozinha, você não pode, garantir uma boa educação para si, uma saúde de qualidade, um trabalho digno sem exploração. Você fica presa na luta diária pela sobrevivência. A sua "liberdade" vira apenas a liberdade de escolher entre opções ruins dadas por outras pessoas. É como ter liberdade para escolher qualquer prato num restaurante, mas só se você tiver dinheiro para pagar. Quem não tem, não escolhe nada.

 

2. O Grupo Constrói o Palco da Liberdade
Agora, pense num grupo unido, onde as pessoas se ajudam de verdade. Juntas, elas podem criar coisas que sozinhas nunca fariam: reivindicar e conseguir uma escola pública, um hospital que atenda a todas as pessoas, um sistema de transporte bom, uma cooperativa de trabalho onde todas decidem juntas. O livro mostra que Marx enxergava isso. Ele não via o coletivo como um chefe que manda. Ele via o coletivo como um construtor. É o grupo que cria o palco – as condições materiais da vida – onde a liberdade da pessoa pode acontecer de verdade.

Zhi Li explica que Marx via isso claramente. A verdadeira liberdade não é você começar livre. É você se tornar livre, e você só consegue isso com a ajuda das outras pessoas. É como querer ser uma ótima nadadora. Você até pode ter o talento, mas sem uma piscina pública, um treinador acessível e um tempo que não seja todo consumido por um trabalho cansativo, seu talento nunca se desenvolve. Quem constrói a piscina pública? O poder público que atua conectado com nossas lutas coletivas.

 

3. O Objetivo do Grupo é a Liberdade da Pessoa
Aqui está o ponto que o livro destaca: o objetivo do grupo NÃO é controlar a vida de ninguém. O objetivo do grupo é justamente o oposto: garantir que cada pessoa dentro dele tenha o apoio e os recursos para viver sua vida do jeito que quer, desenvolvendo seus talentos, sem passar necessidade.

Um coletivo que esmaga as pessoas, que faz todas pensarem e agirem igual, é um coletivo falido. O sucesso de uma sociedade, na visão que Zhi Li explora de Marx, se mede pela felicidade e realização das pessoas que vivem nela, não por números de produção.

 

Imagina uma orquestra.
Cada instrumentista domina seu instrumento. Ela estudou anos para isso (isso é a liberdade individual, o talento da pessoa). Mas a música mais linda só acontece quando todas tocam juntas, se escutando, entrando no ritmo certo uma da outra (isso é a solidariedade coletiva). A música que elas fazem juntas é muito maior do que cada uma tocando separadamente. Uma não atrapalha a outra. Uma melhora a outra. A liberdade da flautista de fazer um solo lindo só faz sentido porque o resto da orquestra está sustentando a melodia para ela.

 

Imagina um time de futebol.
Cada atleta tem sua habilidade única. Quem está no ataque é ágil, quem está defendendo o gol, tem reflexo apurado. Mas o gol só sai quando o time se organiza, passa a bola, se entende. A estrela brilha por causa do time, não apesar dele. O time existe para que o talento de cada pessoa possa resultar em vitórias e jogadas bonitas.

 

4. A Crítica ao Mundo de Hoje
O livro de Zhi Li usa essas ideias de Marx para criticar como a nossa sociedade está organizada. No capitalismo, o "grupo" muitas vezes é na verdade uma competição disfarçada. É cada uma por si. Isso não cria um palco para a liberdade; cria uma armadilha. A solidariedade vira caridade, não uma base da sociedade.

A proposta é outra: uma sociedade onde a cooperação seja a base de tudo. Onde o trabalho de todas as pessoas não sirva apenas para dar lucro a algumas, mas para construir, para todas, esse "palco" público e comum de liberdade: boas escolas, saúde, cultura, lazer, moradia e muito mais.

 

É isso que significa "eu" por meio do "nós".

O socialismo, então, não é sobre abrir mão de quem você é. É exatamente o contrário. É sobre construir um mundo onde, através da união e da ajuda mútua consciente, todas as pessoas tenham a chance real de se tornar quem são, de verdade, sem medo e sem falta do básico.

Não é "eu" contra "nós". É entender que o "nós" forte, unido e solidário é a única forma de fazer o "eu" de cada pessoa valer a pena, crescer e ser livre de fato. O caminho é construir juntas. O livro de Zhi Li nos lembra que essa não é uma utopia distante, mas uma necessidade prática para um futuro onde todas possam viver com dignidade.


terça-feira, 6 de janeiro de 2026


 O Gangsterismo Global: Como os EUA Trocaram o Terno pelo Coldre

Durante décadas, eles foram os gentlemen do caos. Agiam nos corredores tapetados de organismos internacionais, em golpes de Estado encobertos, em sanções econômicas letais mas silenciosas. A política externa dos Estados Unidos vestiu, por muito tempo, um terno bem cortado de legalidade internacional, mesmo quando suas mãos sujavam-se de petróleo, sangue e soberania alheia. Era um gangsterismo de alto nível, sofisticado, velado.

A era Trump rasgou o terno.

O que antes era sussurrado em gabinetes ou executado por proxies agora é gritado no Twitter, transformado em ameaça televisiva, declarado com a crueza de um ultimato no faroeste. A mudança não é de essência, mas de método. A máscara caiu. O império abandonou a retórica e adotou a linguagem direta da extorsão.

O caso recente é um retrato nítido desta nova (des)roupação. A vice-presidenta da Venezuela, Delcy Rodríguez, foi alvo de uma ameaça pública e grosseira do ex-presidente Donald Trump. A mensagem, em resumo, era um clássico da máfia: "Se não se alinhar com os nossos interesses, você vai pagar mais caro." Não há diplomacia aqui. Não há respeito ao direito internacional ou à soberania de uma nação. Há apenas a postura do pistoleiro que chega à cidade e diz como as coisas vão ser. Só que Trump não é o xerife. Nunca foi. Ele é o bandido que mente descaradamente, que desrespeita qualquer lei que o incomode, que faz da chantagem e da intimidação sua principal ferramenta de negócio. Ele é a face explícita de uma lógica que sempre existiu: a dos EUA como o fora-da-lei global que dita as regras que só ele ou seus vassalos podem quebrar.

Este momento de brutalidade franca, no entanto, é também uma oportunidade histórica. A máscara caída deixa visível, para todos os povos, o rosto do poder hegemônico. Já não é possível fingir que se trata de "promoção da democracia" ou "intervenção humanitária". É poder bruto, nua e cruamente.

Por isso, a resposta não pode ser mais a mesma. É necessária uma postura firme, corajosa e coordenada dos países verdadeiramente soberanos, daqueles cujos governos estão comprometidos com o desenvolvimento nacional e não com a submissão a uma potência estrangeira. São atitudes concretas, coletivas, que causem constrangimento real aos Estados Unidos. Chegou a hora de nomear os crimes, de isolar os criminosos no palco mundial.

Chegou a hora, por exemplo, de enfrentar com união inabalável o genocídio em Gaza – um projeto tornado possível pelo apoio incondicional estadunidense. Chegou a hora de trazer a julgamento, no tribunal da opinião pública mundial, todos os crimes cometidos pelos EUA contra a soberania de países do Vietnã ao Iraque, da Líbia à América Latina.

Esta batalha, porém, não se vence apenas no campo da força. Deve-se vencer no campo das ideias. Como lembra o ensaísta Domenico Losurdo, a sociedade mundial um dia aboliu o duelo como método de resolver conflitos entre indivíduos, entendendo-o como bárbaro e irracional. Por que, então, ainda aceitamos a guerra – o duelo entre nações – como algo inevitável?

A partir desta reflexão, urge organizar um movimento mundial, um pacto civilizatório. As nações dos BRICS, um bloco já construído na lógica da multipolaridade e do respeito soberano, têm a força e o dever ético de dar o primeiro passo. Devem liderar uma condenação formal, explícita e incessante para suprimir a guerra como meio de solução de conflitos. Devem erguer a busca pela paz negociada, pela mediação e pelo direito internacional como únicas vias legítimas.

O objetivo é claro: É preciso constranger e transformar os Estados Unidos – em estreita aliança com Israel, que já se consolidou como um pária internacional – em párias diplomáticos globais. Isolá-los não movido por ódio, mas por uma necessidade urgente de sobrevivência coletiva. É imperativo torná-los incapazes de, com um único gesto, incinerar uma região inteira ou desestabilizar governos soberanos.

Vivemos o fim de uma era. A de um gangsterismo discreto. E o início de outra: a do banditismo desavergonhado. A resposta a isso não pode ser o medo. Deve ser a coragem coletiva de declarar, em uníssono, que este faroeste global acabou. Que a humanidade, finalmente, cresceu. Que estamos prontos para enterrar as armas e construir, por fim, uma era onde os conflitos se resolvam com palavras, leis e justiça – não com ameaças, bombas e gangsteres.

O Gangsterismo Global: Como os EUA Trocaram o Terno pelo Coldre

Durante décadas, eles foram os gentlemen do caos. Agiam nos corredores tapetados de organismos internacionais, em golpes de Estado encobertos, em sanções econômicas letais mas silenciosas. A política externa dos Estados Unidos vestiu, por muito tempo, um terno bem cortado de legalidade internacional, mesmo quando suas mãos sujavam-se de petróleo, sangue e soberania alheia. Era um gangsterismo de alto nível, sofisticado, velado.

A era Trump rasgou o terno.

O que antes era sussurrado em gabinetes ou executado por proxies agora é gritado no Twitter, transformado em ameaça televisiva, declarado com a crueza de um ultimato no faroeste. A mudança não é de essência, mas de método. A máscara caiu. O império abandonou a retórica e adotou a linguagem direta da extorsão.

O caso recente é um retrato nítido desta nova (des)roupação. A vice-presidenta da Venezuela, Delcy Rodríguez, foi alvo de uma ameaça pública e grosseira do ex-presidente Donald Trump. A mensagem, em resumo, era um clássico da máfia: "Se não se alinhar com os nossos interesses, você vai pagar mais caro." Não há diplomacia aqui. Não há respeito ao direito internacional ou à soberania de uma nação. Há apenas a postura do pistoleiro que chega à cidade e diz como as coisas vão ser. Só que Trump não é o xerife. Nunca foi. Ele é o bandido que mente descaradamente, que desrespeita qualquer lei que o incomode, que faz da chantagem e da intimidação sua principal ferramenta de negócio. Ele é a face explícita de uma lógica que sempre existiu: a dos EUA como o fora-da-lei global que dita as regras que só ele ou seus vassalos podem quebrar.

Este momento de brutalidade franca, no entanto, é também uma oportunidade histórica. A máscara caída deixa visível, para todos os povos, o rosto do poder hegemônico. Já não é possível fingir que se trata de "promoção da democracia" ou "intervenção humanitária". É poder bruto, nua e cruamente.

Por isso, a resposta não pode ser mais a mesma. É necessária uma postura firme, corajosa e coordenada dos países verdadeiramente soberanos, daqueles cujos governos estão comprometidos com o desenvolvimento nacional e não com a submissão a uma potência estrangeira. São atitudes concretas, coletivas, que causem constrangimento real aos Estados Unidos. Chegou a hora de nomear os crimes, de isolar os criminosos no palco mundial.

Chegou a hora, por exemplo, de enfrentar com união inabalável o genocídio em Gaza – um projeto tornado possível pelo apoio incondicional estadunidense. Chegou a hora de trazer a julgamento, no tribunal da opinião pública mundial, todos os crimes cometidos pelos EUA contra a soberania de países do Vietnã ao Iraque, da Líbia à América Latina.

Esta batalha, porém, não se vence apenas no campo da força. Deve-se vencer no campo das ideias. Como lembra o ensaísta Domenico Losurdo, a sociedade mundial um dia aboliu o duelo como método de resolver conflitos entre indivíduos, entendendo-o como bárbaro e irracional. Por que, então, ainda aceitamos a guerra – o duelo entre nações – como algo inevitável?

A partir desta reflexão, urge organizar um movimento mundial, um pacto civilizatório. As nações dos BRICS, um bloco já construído na lógica da multipolaridade e do respeito soberano, têm a força e o dever ético de dar o primeiro passo. Devem liderar uma condenação formal, explícita e incessante para suprimir a guerra como meio de solução de conflitos. Devem erguer a busca pela paz negociada, pela mediação e pelo direito internacional como únicas vias legítimas.

O objetivo é claro: É preciso constranger e transformar os Estados Unidos – em estreita aliança com Israel, que já se consolidou como um pária internacional – em párias diplomáticos globais. Isolá-los não movido por ódio, mas por uma necessidade urgente de sobrevivência coletiva. É imperativo torná-los incapazes de, com um único gesto, incinerar uma região inteira ou desestabilizar governos soberanos.

Vivemos o fim de uma era. A de um gangsterismo discreto. E o início de outra: a do banditismo desavergonhado. A resposta a isso não pode ser o medo. Deve ser a coragem coletiva de declarar, em uníssono, que este faroeste global acabou. Que a humanidade, finalmente, cresceu. Que estamos prontos para enterrar as armas e construir, por fim, uma era onde os conflitos se resolvam com palavras, leis e justiça – não com ameaças, bombas e gangsteres.