A Parede Invisível: Como o Jeito "Manda e
Obedece" que Aprendemos Destrói a Verdadeira Comunicação
E o que podemos fazer para derrubá-la e encontrar,
finalmente, a conexão que tanto queremos.
Você já teve aquela sensação frustrante de falar, falar,
falar… e sentir que nada do que você diz realmente chegou até a outra pessoa?
Como se suas palavras fossem se espatifar contra um vidro grosso, invisível,
que separa você de quem está do outro lado.
Ou então, você está do outro lado: ouvindo alguém falar, mas
tudo o que você consegue pensar é em se defender, em se explicar, em se
proteger. A conversa vira um campo minado. Cada frase é um passo em falso. No
final, as duas pessoas saem machucadas, cansadas, e mais sozinhas do que quando
começaram.
Por que isso acontece tanto? A resposta pode não estar no
que a gente fala, mas em como a gente aprendeu a se relacionar desde
que veio ao mundo. Existe uma parede invisível dentro da gente, e ela foi
construída tijolo por tijolo por uma regra muito simples e muito antiga: a
regra do Manda e Obedece.
A Construção da Parede: Quando o "Arbitrário"
Vira "Natural"
Pense em como a maioria de nós cresceu. Em casa: "Faça
isso porque eu estou mandando". Na escola: "Fique quieta e obedeça às
regras". No trabalho: "Aqui quem manda sou eu". Desde cedo, o
mundo nos mostra uma dinâmica clara e brutal:
- Alguém
sempre DOMINA (a pessoa adulta, a chefe, a mais forte).
- Alguém
sempre SE SUBMETE (a criança, a funcionária, a pessoa
mais fraca).
É a dança do COMANDO-OBEDIÊNCIA. E ela não fica
só nas situações óbvias. Ela se infiltra, sorrateira, em nossos corpos e
mentes. Vira um hábito automático. A gente começa a achar que isso
é "natural", que os relacionamentos são assim mesmo: uma luta
silenciosa pelo poder.
Quando essa dinâmica vira nossa lente para enxergar o mundo,
qualquer interação pode virar uma batalha. Um pedido vira uma ordem. Uma
opinião diferente vira um ataque. Uma crítica vira uma declaração de guerra.
Nosso sistema de alarme interno, aquele que nos prepara para lutar ou fugir, é acionado o tempo todo, sem necessidade.
E é aí que a comunicação verdadeira morre.
A Guerra das Palavras: Por Que Ninguém Se Entende
Quando estamos nesse modo "guerra", comandados
pela velha dinâmica de dominação, nosso corpo muda por completo. Observe-se da
próxima vez que se sentir atacada em uma discussão:
- A
Respiração: Ela fica curta e rápida, presa no peito. Parece que o
ar não entra.
- Os
Músculos: O rosto fica tenso. Os ombros sobem, encolhidos perto
das orelhas. As mãos podem se fechar em punho.
- O
Coração: Ele acelera, batendo forte no peito, como um tambor de
alerta.
- A
Mente: Ela trava ou dispara. Você só consegue pensar em duas
coisas: "COMO ME DEFENDER?" ou "COMO
CONTRATACAR?".
Nesse estado, é fisicamente impossível ouvir
de verdade. O cérebro não está processando as palavras do outro para compreender
seu sentimento. Ele está vasculhando a frase atrás de armas, de falhas, de
pontos para o contra-ataque.
A comunicação vira um monólogo de surdos. Dois
discursos paralelos que nunca se encontram. Você não está tentando se conectar;
está tentando vencer. E numa guerra, o único resultado possível é
que todas saiam perdendo.
O Que Estávamos Buscando Sem Saber: A Co-Regulação
Se o modo "guerra" nos separa, o que nos une? A
neurociência e a psicologia falam de um conceito lindo: CO-REGULAÇÃO.
De novo, vamos simplificar. Pense em uma bebê chorando. A
mãe pega no colo, acaricia, faz um som calmo. Aos poucos, o choro para. O
corpinho agitado da bebê vai se acalmando, entrando no ritmo da
segurança que a mãe oferece. Isso é regulação.
A co-regulação é a versão adulta e mútua disso. É a dança
sutil entre duas pessoas que ajustam seus estados internos uma com a
outra, criando um espaço compartilhado de segurança.
Como é isso na prática? São os pequenos sinais:
- Vocês se abraçam e ocorre um relaxamento mútuo.
- Você
fala, e a outra pessoa faz um aceno com a cabeça, mostrando que está
acompanhando.
- A
voz de um está agitada, e o outro responde com um tom mais suave, como
quem diz "está tudo bem, estou aqui".
- Os
corpos estão relaxados, virados um para o outro, num ângulo aberto, não
fechado.
- Há
pausas confortáveis, não silêncios tensos.
- O
olhar é de interesse, não de julgamento.
Nessa dança, a comunicação não é sobre as palavras que
são ditas, mas sobre a intenção que está por trás delas. É
sobre comunicar: "Estou te vendo. Estou com você. Você é segura para
mim".
É o sentimento de CONEXÃO que, no fundo,
todo mundo almeja. Aquele calor no peito, a sensação de ser compreendida, de
pertencer. Essa é a verdadeira comunicação. E a dinâmica do "Manda e
Obedece" é o maior inimigo dela.
Derrubando a Parede, Tijolo a Tijolo: A Reconfiguração
Interna
Desfazer um aprendizado de uma vida inteira não é fácil. Não
acontece da noite para o dia. Mas é possível. É uma reconfiguração
interna, um treino para desativar o piloto automático da guerra e escolher
um novo caminho.
O primeiro e mais poderoso passo é a PERCEPÇÃO.
Antes de reagir, pare um milésimo de segundo para sentir:
- "Meu
corpo está tenso?"
- "Minha
respiração está presa?"
- "Estou
ouvindo para compreender, ou só para responder?"
Só esse instante de consciência já quebra o automatismo. É
você impedindo que o velho hábito assuma o controle.
No lugar da reação automática, você pode tentar uma dessas
portas novas:
- A
Porta da Curiosidade: Em vez de "Você está errado!",
tente "Me conta mais sobre isso. Por que você pensa assim?" A
curiosidade desarma o ataque.
- A
Porta da Confirmação: Em vez de se justificar, tente resumir o
que você entendeu. "Então, pelo que estou ouvindo, você está se
sentindo muito frustrado porque…" Isso mostra que você está ouvindo.
- A
Porta da Realidade: Em vez do orgulho, tente dizer o que de
fato está acontecendo no seu sistema. "Isso que você falou despertou
mágoa em mim" ou "Estou me percebendo um pouco na defensiva, quero compreender melhor". Isso convida à colaboração, não à luta.
É um exercício diário. Você vai errar. Vai cair no velho
padrão muitas vezes. Mas cada vez que você consegue parar a dança da guerra
e tentar uma nova coreografia, a parede invisível pode começar a trincar.
A Escolha de Uma Nova Dança
A comunicação verdadeira não é um dom que algumas pessoas
têm e outras não. É uma habilidade que foi soterrada sob os
escombros da dinâmica "Manda e Obedece" que nos ensinaram.
Ela floresce no solo da segurança, não no campo de batalha
do poder. Quando paramos de tentar dominar ou de nos submeter, e começamos a
tentar co-regular, a encontrar um ritmo conjunto com a outra
pessoa, algo mágico pode acontecer.
A parede de vidro que nos separa começa a rachar. Até que,
em um momento de entendimento genuíno, ela se desfaz por completo.
E aí, naquele espaço aberto, conseguimos fazer o que sempre
quisemos: não apenas trocar palavras, mas trocar presenças.
Construir, juntas, a conexão que, no fundo, era tudo o que a gente mais desejou.
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