domingo, 22 de fevereiro de 2026


 


O Trono Não Estava Vago: Descartes, o Capitalismo e a Invenção do "Eu" Moderno

 

A História Que Contaram Para a Gente

Senta que lá vem história.

Na escola, no cursinho, na faculdade, a gente aprendeu mais ou menos assim: Descartes era um gênio solitário, um filósofo trancado num quarto quente (dizem que ele gostava de pensar de manhã, na cama, preguiçoso como um gato), que um dia olhou para o mundo, duvidou de tudo e chegou a uma conclusão brilhante: "Penso, logo existo."

Fim da história. Filósofo pensa, mundo muda. Certo?

Errado. Muito errado.

Descartes não estava num vácuo. Ele não flutuava acima da sociedade, num plano espiritual onde só as ideias puras importam. Descartes estava com os pés no chão da Holanda do século XVII. E esse chão estava tremendo. Não por causa de terremoto. Por causa de dinheiro.

O Mundo Que Descartes Via Pela Janela

Vamos fazer um exercício de imaginação. Feche os olhos e tente ver o que Descartes via quando olhava pela janela.

Ele estava na Holanda, um dos lugares mais movimentados da Europa na época. Não era mais aquele mundo medieval de castelos, servos e terras imóveis. Era um mundo de navios chegando e partindo, de mercadores carregando sacos de especiarias, de tecidos vindos da Índia, de prata das Américas.

Os portos holandeses fervilhavam. Amsterdã se tornava o centro do comércio mundial. Homens que antes eram nada, filhos de artesãos, comerciantes sem sangue azul, acumulavam fortunas num piscar de olhos. Eles compravam, vendiam, especulavam, arriscavam. E ganhavam.

Descartes via isso. Via a ascensão de uma nova classe. Gente que não herdava o poder do pai ou do avô. Gente que construía o próprio destino com as próprias mãos, ou melhor, com os próprios negócios.

E esses homens tinham uma mentalidade completamente diferente da nobreza feudal.

O Mundo Que Estava Morrendo

Para entender a revolução que Descartes fez, e não foi sem querer, foi de caso pensado, a gente precisa entender o mundo que estava morrendo.

O mundo feudal era um mundo parado. Não no sentido de que nada acontecia, mas no sentido de que seu lugar na vida era definido antes de você nascer.

Seu pai era servo? Você seria servo.
Seu pai era nobre? Você seria nobre.
Seu pai era padre? Bom, aí era mais complicado, mas você entendeu.

Deus tinha um plano. E o plano de Deus incluía cada pessoa num lugar específico. Você não escolhia. Você aceitava. A Igreja explicava, o rei governava, e todo mundo sabia seu lugar. Confortável? Não. Previsível? Sim.

A riqueza vinha da terra. E a terra não se move. Não se multiplica. É o que é. O nobre tinha terra porque o avô teve, porque Deus quis assim. Ponto.

Nesse mundo, o "eu" não importava muito. O que importava era seu lugar na ordem divina. Você era parte de um corpo maior, a cristandade, o reino, a família, a aldeia. Sozinho, você não era nada. Juntinho dos outros, você existia.

A Classe Que Olhava para Frente

Aí chegam os comerciantes. Os capitalistas, como a gente chama hoje.

Esses caras eram diferentes. Eles não aceitavam o lugar que Deus (ou a tradição) tinha dado para eles. Eles queriam mais. E descobriram que dava para ter mais.

Como? Agindo. Fazendo. Arriscando.

O comerciante não esperava a colheita do próximo ano. Ele comprava barato aqui, vendia caro ali. Ele emprestava dinheiro com juros (pecado mortal para a Igreja, aliás). Ele montava sociedade com desconhecidos. Ele enviava navios para lugares que nem no mapa existiam direito.

E funcionava. Ele ficava rico. Mais rico que muito nobre de sangue azul.

Mas aí vem o problema: como justificar essa riqueza? Se Deus determinou tudo, se seu lugar no mundo já estava escrito, por que você tem mais do que deveria?

A resposta dos comerciantes foi simples e revolucionária: porque eu fiz. Porque eu pensei, planejei, arrisquei, trabalhei, venci. A riqueza não vem de Deus. Vem de mim. Da minha ação. Do meu pensamento.

O Giro de Copérnico... na Filosofia

E é aí que entra Descartes. Mas não como um gênio isolado. Como um tradutor. Um tradutor de sentimentos, de desejos, de uma nova forma de estar no mundo que já estava fervendo na sociedade.

Os comerciantes precisavam de uma filosofia que dissesse: "O indivíduo importa. A consciência individual importa. O que você pensa e faz importa mais do que a tradição, mais do que a Igreja, mais do que o sangue herdado."

Descartes deu a eles essa filosofia.

Quando ele disse "Penso, logo existo", ele não estava só fazendo uma descoberta abstrata. Ele estava dando voz a uma classe inteira que dizia: "Eu penso o mundo, eu organizo o mundo, eu transformo o mundo. O mundo não vem pronto de Deus. O mundo é o que eu faço dele."

Não foi sem querer. Foi vendo os navios chegando no porto. Foi conversando com mercadores. Foi sentindo o ar da nova economia. Descartes percebeu que o centro de gravidade do mundo estava mudando. Estava saindo de Deus e indo para o homem. Mas não para qualquer homem. Para o homem que age. Que pensa. Que calcula. Que comercializa. Para o capitalista!

Deus Sai de Cena, o Eu Entra em Campo (Será?)

No mundo feudal, Deus era o grande protagonista. Ele escrevia o roteiro, dirigia as cenas, escolhia os atores. Os humanos só representavam. Mas não era só fé que mantinha esse roteiro de pé. A nobreza, classe dominante da época, tinha seus mecanismos de força: espadas, exércitos, castelos. A ideologia andava de mãos dadas com a coerção.

No novo mundo capitalista, o protagonista muda de nome. Sai Deus de cena. Entra o "eu". O indivíduo. Você, com sua capacidade de pensar, planejar, executar.

Descartes só fez formalizar isso. Ele tirou Deus do centro e colocou o "eu" no lugar. Mas não por maldade. Era o que a nova sociedade, a classe capitalista emergente, precisava ouvir.

Aqui mora uma armadilha: O capitalista toma o lugar de Deus na narrativa, mas a classe trabalhadora continua passiva na cena. A ideologia quer fazer o trabalhador acreditar que ele é protagonista, que "se ele quiser, pode". Mas as estruturas de dominação, as mesmas que antes eram espadas, hoje são contratos, jornadas, salários que não fecham, não permitem que ele seja ativo de verdade.

Pensa comigo: se Deus determina tudo, por que eu vou investir num negócio arriscado? Se Deus já decidiu quem ganha e quem perde, por que eu vou conquistar outras terras? Se meu lugar no mundo está escrito nas estrelas, por que vou tentar mudar?

O capitalismo precisa de gente que acredite que pode mudar o próprio destino. Precisa de gente que olhe para o futuro e pense: "Depende de mim." Precisa de gente que arrisque, invista, empreenda.

Mas a verdade é que nem todo mundo pode. O sistema cria a ilusão de que todos são protagonistas, mas mantém a maioria como figurante. O "eu" no trono é, para muitos, uma promessa que nunca se realiza. Uma fantasia que mantém a máquina girando.

Penso, Logo Faço. Faço, Logo Tenho.

Olha que interessante: a frase de Descartes poderia ser traduzida para a linguagem dos comerciantes como "Penso, logo faço."

Porque para eles, pensar não era um exercício abstrato. Pensar era planejar a viagem, calcular o lucro, avaliar o risco, decidir o investimento. Pensar era ação. Pensar era produzir resultados concretos. Pensar era fazer dinheiro.

E o resultado dessa ação? Propriedade. Riqueza. Coisas que você pode chamar de "minhas".

Aí você começa a entender por que o mundo ocidental ficou tão obcecado com esse tal de "eu". Porque o "eu" é a base de tudo que a gente construiu nos últimos 400 anos.

Meu negócio. Minha propriedade. Meu dinheiro. Meu sucesso. Minha carreira. Minha casa. Meu carro. Minha roupa. Meu corpo. Minha opinião. Meu direito.

Tudo começa com "eu" e "meu". Não é à toa. É a filosofia de Descartes traduzida para a vida prática.

Mas tem um segredo sujo nessa história: Esse "eu" que pensa, faz e tem só existe porque tem muita gente trabalhando junto. O capitalista se apropria da cooperação das pessoas que ele contrata. Elas trabalham juntas, produzem juntas, mas ele embolsa sozinho o resultado. Ele não paga a cooperação. Ele paga um salário, mas fica com a mais-valia – aquela parte do trabalho que não foi paga.

Aí o "eu" do capitalista acumula. Cresce. Vira império. Enquanto os "eus" dos trabalhadores mal conseguem sobreviver.

Foi só com Marx, lá no século XIX, que alguém colocou em xeque essa ilusão. Marx disse: olha, esse "eu" todo-poderoso é uma mentira. Sozinho, o trabalhador não é nada. É junto, é no coletivo, é no "nós" que a classe trabalhadora pode, de fato, ser protagonista.

A ilusão do eu é o eu da classe dominante. É a máscara que faz o rico acreditar que merece tudo sozinho. Mas para a classe dominada, para quem vive do trabalho, a única alternativa real é o "nós". É a união. É a cooperação de verdade – não aquela que o patrão rouba, mas aquela que a classe constrói por si mesma.

Por isso que o sistema insiste tanto no "eu". Porque o "nós" é perigoso. O "nós" organizado, consciente, unido,  isso sim ameaça o trono.

O Preço do Trono

Mas todo trono tem um preço. E o preço desse "eu" no centro do mundo foi alto.

Primeiro, veio a solidão. Se o eu é o centro, se minha consciência é a única coisa que posso provar que existe, o resto vira suspeito. As outras pessoas? Será que existem mesmo? Será que não são robôs, ilusões, fantasmas da minha mente? Descartes mesmo se perguntou isso. E a gente, até hoje, vive essa solidão existencial.

Segundo, veio a competição. Se o mundo é uma grande arena onde cada eu luta pelo seu espaço, pelo seu lucro, pelo seu sucesso, então os outros não são parceiros. São concorrentes. São obstáculos. São meios para meus fins. A colaboração vira estratégia, não valor. O outro vira recurso, não irmão.

Terceiro, veio a ansiedade. Se tudo depende de mim, se sou eu o centro, o responsável, o protagonista, então o fracasso é inteiramente meu. Se eu fracasso, não foi Deus, não foi o destino, não foi o sistema. Fui eu. Minha mente não pensou direito. Minha ação foi errada. O peso é todo meu.

Quarto, veio a exploração. Porque se o eu é o centro, se minha liberdade de pensar e agir é o valor máximo, então posso usar o mundo, e as pessoas, como eu quiser. Desde que dê certo para mim. Desde que meu negócio cresça. Desde que meu lucro aumente.

O Comerciante e o Filósofo: Uma Aliança Silenciosa

Não foi uma reunião secreta. Não foi uma conspiração. Foi algo mais sutil, mais profundo.

Os comerciantes viviam uma nova realidade. Eles precisavam de palavras para explicar essa realidade. Precisavam de conceitos que justificassem seu lugar no mundo, sua riqueza, seu poder. Precisavam de uma filosofia que dissesse: "O que você está fazendo é certo. É humano. É natural."

Descartes forneceu essas palavras, esses conceitos, essa filosofia. Não porque fosse pago por eles (até onde se sabe, não era). Mas porque ele respirava o mesmo ar. Via as mesmas mudanças. Sentia o mesmo mundo novo se formando.

Quando ele disse que o pensamento é a base de tudo, que o eu é o ponto de partida, que a consciência individual é a fonte da verdade, ele estava dando aos comerciantes exatamente o que eles precisavam: uma justificativa filosófica para virar o jogo.

Se o pensamento é a base, então quem pensa o mundo, organiza o mundo. E quem estava pensando o mundo, organizando o mundo, naquele momento? Os comerciantes. Os capitalistas. Os homens que calculavam riscos, traçavam rotas, acumulavam capitais.

Deus estava cada vez mais longe. O "eu" estava cada vez mais perto. O trono não ficou vazio. Foi ocupado por uma nova realeza: a realeza do indivíduo que pensa, age, produz, acumula. O indivíduo capitalista!

A Ironia da História

A ironia é que esse "eu" que Descartes colocou no trono, esse "eu" que os comerciantes adotaram como bandeira, é o mesmo "eu" que hoje nos faz sofrer.

A gente vive a era do "eu" máximo. Redes sociais onde a gente exibe o "eu" 24 horas por dia. Carreiras onde a gente constrói o "eu" como marca. Relacionamentos onde a gente defende o "eu" como fortaleza.

E no fim, a gente descobre que esse "eu" é escorregadio. Que ele muda. Que ele se contradiz. Que ele não cabe em nenhuma definição. Que quanto mais a gente tenta agarrá-lo, mais ele escorre pelos dedos.

Os budistas já sabiam disso há 2.500 anos. Mas o Ocidente preferiu Descartes. Preferiu acreditar num "eu" sólido, permanente, centro do universo. Porque esse "eu" era útil. Servia aos negócios. Servia à acumulação. Servia ao capital.

Superar o Trono: Lições dos Que Vivem Sem Ele

Mas aqui precisamos ir além. Não basta "rearrumar os móveis da sala". Precisamos superar a própria ideia de que alguém, ou algum "eu", deve estar sentado num trono.

Porque o problema não é apenas quem ocupa o trono. O problema é o trono em si.

O "eu" no centro, o "eu" que tudo explica, o "eu" que tudo justifica, esse "eu" se torna um problema quando vira poder sem controle. Quando acredita que pode tudo, que merece tudo, que tudo lhe é devido. O "eu" sem limites vira tirano. Vira explorador. Vira aquele que usa os outros como degraus.

E poder sem controle é sempre perigoso. Sempre. Não importa se é o poder de um rei, de um patrão, de um pai, ou do nosso próprio "eu" sobre nossa vida e sobre os outros.

A história já nos mostrou isso muitas vezes. Mas também nos mostrou alternativas.

A Sabedoria dos Iroqueses

Os Iroqueses, povos indígenas da América do Norte, construíram algo impressionante séculos atrás. Cinco nações – Mohawk, Oneida, Onondaga, Cayuga e Seneca – que antes viviam em guerra constante, decidiram se unir sob a "Grande Lei da Paz".

E o que eles criaram? Um conselho com 50 chefes, onde ninguém mandava sozinho. As decisões eram tomadas por unanimidade. Qualquer nação podia vetar qualquer decisão. Os chefes podiam ser destituídos se abusassem do poder. As reuniões eram públicas. Qualquer pessoa podia falar.

Eles criaram uma federação sem coerção. Uma união sem chefe executivo. Uma paz sem opressão.

Como disse Engels, estudando os Iroqueses a partir do trabalho de Morgan: "Temos aqui a oportunidade de estudar a organização de uma sociedade que ainda não conhece o Estado. O Estado pressupõe um poder público de coerção."

Os Iroqueses não tinham esse poder de coerção. E mesmo assim funcionava.

Pierre Clastres, o antropólogo que estudou os Yanomami e cunhou a expressão "sociedade contra o Estado", se conhecesse os Iroqueses, provavelmente diria: "Eis aí outra forma de sociedade contra o Estado, mas não pela guerra, mas pela engenharia política”.

O Que Isso Tem a Ver com Descartes?

Tudo.

Porque Descartes, sem querer ou querendo, colocou o "eu" num trono. E esse trono virou modelo. Virou padrão. Virou a única forma de ser humano que a gente conhece.

Mas os Iroqueses nos lembram que existem outras formas. Formas onde o poder não se concentra. Formas onde a decisão é coletiva. Formas onde ninguém manda sozinho.

O "eu" no trono, o indivíduo soberano, o pensador solitário, essa é uma invenção ocidental, capitalista, moderna. Não é a única. Não é a melhor. É apenas uma.

E talvez a gente precise aprender com quem viveu, e vive, de outro jeito.

Superar o Trono, Não Apenas Rearrumá-lo

Por isso, não se trata de destruir o trono. Destruir é fácil. O difícil é superar. É construir algo novo. É aprender a viver sem a necessidade de um centro. Sem a obsessão por um "eu" que tudo explica e tudo justifica.

Superar o trono significa:

  • Aprender a compartilhar decisões, não apenas delegar
  • Construir coletivos onde ninguém manda sozinho
  • Criar círculos, não pirâmides
  • Entender que o poder precisa de controle, sempre
  • Valorizar o "nós" sem apagar os "eus"

Não é fácil. Nossos corpos vêm sendo adestrados por 400 anos para pensar, sentir e agir diferente. Mas é possível. Os Iroqueses mostraram que é. Outros povos, em outros tempos e lugares, mostram que é.

O "eu" no trono não precisa ser um tirano. Mas enquanto ele estiver lá, sozinho, centralizando, corremos o risco de que ele se torne um. Porque poder sem controle corrompe. Sempre.

A solução não é trocar de tirano. É desmontar o trono. É aprender a viver em círculo, onde todas as pessoas se veem, onde todas falam, onde todas decidem. Onde ninguém está acima, nem abaixo. Apenas junto.

Uma Última Palavra

Quando você acordar amanhã e pensar "eu", lembre-se: esse "eu" tem história. Tem dono. Tem endereço. Nasceu na Holanda do século XVII, filho do comércio e da filosofia ocidental.

Mas ele não precisa ser seu único jeito de existir. Você pode ser "eu" e também "nós". Pode ser centro e também periferia. Pode ser protagonista e também coadjuvante.

Pode, quem sabe, aprender a viver sem trono. Em círculo. Com os outros. Como os Iroqueses. Como a gente ainda pode aprender a ser.

 

Referências:

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. 1884.

MORGAN, Lewis Henry. League of the Ho-dé-no-sau-nee, or Iroquois. Rochester: Sage & Brother, 1851.

DESCARTES, René. Discurso do Método. 1637.

 

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026


 A Colonização e a Cristianização do Corpo "Selvagem": Como a Caça às Bruxas Europeia se Repetiu nas Américas e Forjou a Violência Brasileira

Introdução: Quando a Guerra Contra as Mulheres Virou Guerra Contra os Povos

Imagine duas cenas acontecendo ao mesmo tempo, em lados opostos do oceano Atlântico, há cerca de 500 anos.

Na primeira cena, estamos na Europa. Uma mulher é amarrada a uma estaca. Madeira seca amontoada aos seus pés. Ao redor, uma multidão assiste. O que essa mulher fez? Ela sabia curar doenças com ervas. Ela falava com as plantas. Talvez fosse parteira, ajudando outras mulheres a dar à luz. Talvez fosse viúva e morasse sozinha. Talvez tivesse um gato. Para a Igreja e para o Estado, isso era o suficiente. Ela era uma bruxa. Era a encarnação do mal. Precisava ser queimada.

Na segunda cena, estamos nas Américas. Um homem é amarrado a um tronco. Suas costas estão ensanguentadas. Soldados europeus o açoitam. O que esse homem fez? Ele nasceu aqui. Seus ancestrais viveram nestas terras por milhares de anos. Ele cultiva milho de um jeito que os europeus nunca viram. Ele reza para deuses que têm nome de sol, de chuva, de montanha. Para os colonizadores, isso era o suficiente. Ele era um selvagem. Era um ser inferior, quase um animal. Precisava ser dominado.

Pode parecer que são duas histórias diferentes. Mas a grande estudiosa Silvia Federici, no seu livro "Calibã e a Bruxa", mostra que é a mesma história. A mesma violência. A mesma lógica. O mesmo objetivo.

Este texto vai contar essa história. Vamos viajar no tempo e entender como o corpo humano, o corpo da mulher europeia, do indígena originário, do africano escravizado, se tornou o campo de batalha principal para a construção do mundo em que vivemos hoje, o mundo capitalista.

E vamos contar essa história com um olhar especial para o Brasil. Porque aqui, essa violência chegou de um jeito particularmente brutal e deixou marcas que ainda estão abertas. A sociedade brasileira foi construída sobre três pilares de violência: a violência contra os povos originários, a violência contra os africanos sequestrados e escravizados, e a violência contra as mulheres. Somadas a isso, temos a violência de classe, que oprime trabalhadores de todas as cores, mas sempre com um recorte étnico muito claro.

Entender de onde vem essa violência é o primeiro passo para conseguir refazer nossa dinâmica relacional. Porque nossa cultura foi imposta a partir de uma lógica de dominação e sujeição. Aprendemos, durante séculos, a nos relacionar através da força, da hierarquia, do desprezo pelas outras pessoas. Mas se a violência foi construída na história, ela pode ser desconstruída na história. E é sobre isso que vamos falar.

 

A Transição que Mudou Tudo: Quando o Mundo Virou de Cabeça pra Baixo

Antes de tudo isso acontecer, a Europa vivia o que chamamos de Idade Média. Não era um mar de rosas, claro. Havia fome, guerra, desigualdade. Mas as pessoas viviam de um jeito muito diferente.

A maioria das pessoas era camponesa. Elas trabalhavam a terra, mas não eram "donas" dela no sentido que temos hoje. Existiam terras comuns, os "commons". Eram florestas, pastos, rios que pertenciam à comunidade. Ali, os pobres podiam pegar lenha, pescar, deixar seus porcos se alimentarem. As mulheres tinham um papel fundamental nessa economia. Elas cultivavam hortas, conheciam as plantas medicinais, cuidavam dos animais, faziam queijo, pão, cerveja. O conhecimento era passado de mãe para filha.

Aí, a partir do século XV, as coisas começaram a mudar violentamente. Os senhores feudais e a nova classe de comerciantes queriam mais. Queriam dinheiro. Queriam acumular riqueza. Começaram a cercar as terras comuns. "Isso aqui agora é meu", diziam. "Vocês não podem mais entrar."

Os camponeses foram expulsos. Milhares, milhões de pessoas foram jogadas na estrada, sem terra, sem trabalho, sem comida. Viraram "vagabundos" aos olhos da lei. E ser vagabundo, nessa época, era crime. Podia ser açoitado, preso, enforcado.

Foi nesse contexto de terror, de desespero, que a caça às bruxas explodiu na Europa. Entre os séculos XV e XVII, dezenas de milhares de mulheres (e alguns homens) foram julgadas e executadas. Queimadas vivas.

Por quê? Por que tanta fúria contra as mulheres?

Porque elas eram a memória viva do mundo que estava sendo destruído. Elas sabiam das ervas, sabiam fazer partos, sabiam se organizar em comunidade. Elas controlavam a própria fertilidade (sim, existiam métodos contraceptivos e abortivos na Idade Média). Elas representavam um poder que não passava pelo padre, nem pelo senhor, nem pelo Estado. Um poder autônomo.

Eliminar as bruxas era eliminar a resistência. Era arrancar pela força a ideia de que a vida podia ser vivida de outro jeito. Era dizer: "Agora, o único jeito de viver é trabalhando para nós, ganhando salário, obedecendo." O corpo da mulher, que gerava vida, precisava ser controlado. Ele não podia mais ser um território livre. Tinha que virar uma máquina de fazer trabalhadores.

 

Atravessando o Oceano: A Mesma Guerra em um Novo Mundo

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, um outro mundo estava sendo "descoberto". Para os europeus, era um mundo novo. Mas para quem vivia ali, era o mundo deles desde sempre. Eram os povos indígenas: Astecas, Maias, Incas, Tupis, Guaranis, Yanomamis e centenas de outras nações.

Quando os europeus chegaram, trouxeram na bagagem não só espadas e doenças, mas também essa nova mentalidade que estava sendo forjada na Europa. A mentalidade da acumulação, da conquista, de dominação, do desprezo por quem vive de um jeito diferente.

E o que eles viram? Viram sociedades onde a terra era de todas. Onde as pessoas plantavam para comer, não para enriquecer. Onde existiam formas de espiritualidade que não tinham nada a ver com a Igreja. Onde, em muitos casos, as mulheres tinham papéis sociais importantes, como comerciantes, sacerdotisas ou guerreiras.

Para os colonizadores, aquilo era inaceitável. Era uma afronta. Era "selvageria". E o que se faz com o selvagem? O mesmo que se faz com a bruxa: elimina-se, domina-se, converte-se.

A guerra contra as bruxas na Europa e a guerra contra os povos originários nas terras que os colonizadores denominaram Américas são irmãs gêmeas. Nascem do mesmo ventre: o ventre do capitalismo nascendo.

 

A Criação do "Outro": Como se Inventa um Monstro

Para matar alguém sem culpa, você precisa primeiro convencer a si mesma e às outras de que essa pessoa não é bem uma pessoa. Você precisa transformá-la em monstro.

Na Europa, o monstro era a bruxa. Os manuais de caça às bruxas, como o infame "Malleus Maleficarum" (O Martelo das Bruxas), descreviam as mulheres como seres fracos de espírito, carnais, luxuriosos, propensos ao mal por natureza. Diziam que elas faziam pactos com o Diabo, que voavam à noite, que matavam crianças, que causavam tempestades.

Era uma propaganda de terror. E funcionava. O vizinho passava a desconfiar da vizinha. O marido, da esposa. O padre, das fiéis. Qualquer mulher que fugisse do padrão, que fosse pobre, velha, sábia, bonita, rebelde, podia ser acusada.

Nas Américas, o mesmo processo aconteceu. Os indígenas foram descritos como "selvagens". O que isso significava? Significava que não tinham alma, segundo alguns debatedores da época. Que eram preguiçosos por natureza (quando, na verdade, tinham uma relação com o trabalho muito diferente, não baseada na exploração exaustiva). Que eram sexualmente promíscuos (porque muitas culturas tinham costumes sexuais e de nudismo que chocavam os europeus). Que eram canibais (o que acontecia em rituais específicos de alguns povos, mas foi generalizado como prova de sua bestialidade).

Os africanos sequestrados e trazidos à força para as Américas também passaram por esse processo. Foram animalizados. Comparados a macacos. Dizia-se que eram descendentes de Cam, o filho amaldiçoado de Noé, e que portanto sua escravização era vontade de Deus.

Veja a genialidade perversa disso: você cria uma ideologia que justifica a violência. Não estamos matando pessoas, estamos queimando bruxas a serviço de Deus. Não estamos escravizando pessoas, estamos civilizando selvagens e salvando almas pagãs.

A função ideológica era clara: permitir que a exploração mais brutal acontecesse sem que os algozes perdessem o sono. O genocídio vira missão. A tortura vira salvação.

No Brasil, essa ideologia criou raízes profundas. Até hoje, quando se fala em demarcação de terras indígenas, ouvimos argumentos de que "eles têm terra demais", como se a terra fosse dos europeus que a roubaram. Até hoje, quando se fala em cotas para afrodescendentes nas universidades, ouvimos que "é racismo ao contrário", como se séculos de escravização pudessem ser apagados com essa conversa. A ideia de que branco é superior, de que afrodescendente é suspeito, de que indígena é preguiçoso, tudo isso vem dessa máquina de fabricar monstros que os colonizadores inventaram.

 

O Corpo na Mira: A Violência Física como Ferramenta de Conquista

Quando a ideologia já fez seu trabalho de desumanização, a violência física pode agir sem freios. E agiu.

Vamos começar pelas populações indígenas. Os números são estarrecedores. Estima-se que a população das Américas tenha caído de cerca de 60 milhões para talvez 6 milhões em apenas um século após a chegada dos europeus. É uma das maiores catástrofes demográficas da história.

No Brasil, a história não foi diferente. Quando os portugueses chegaram, estima-se que viviam aqui entre 2 e 4 milhões de indígenas. Hoje, segundo o censo de 2022, são cerca de 1,7 milhão. Foram séculos de extermínio. E não foi só no passado. A violência contra os povos originários continua. Nos últimos anos, o garimpo ilegal em terras Yanomami matou crianças de fome, contaminou rios com mercúrio, estuprou mulheres. A Funai, órgão criado para proteger os indígenas, foi desmontada. A violência física contra os povos originários é uma linha que nunca foi interrompida na história do Brasil.

Como aconteceu essa dizimação? Guerras de extermínio, primeiro. Os colonizadores tinham armas de fogo, cavalos, armaduras. Mas o maior assassino foi invisível: as doenças. Os indígenas não tinham defesas imunológicas contra sarampo, varíola, gripe. Eram doenças europeias. Corpos inteiros de aldeias morriam. Mas isso não foi um acidente. Muitas vezes, os colonizadores distribuíam cobertores contaminados de propósito. Era uma arma biológica.

Depois, vinha o trabalho forçado. A escravização indígena foi praticada em larga escala no Brasil, especialmente no início da colonização e nas regiões mais afastadas. Os bandeirantes paulistas foram caçadores de indígenas. Entravam no sertão, atacavam aldeias, amarravam os sobreviventes e traziam para vender como escravizados em São Paulo e no Rio de Janeiro.

E o tráfico de escravizados africanos? Imagine a viagem de um navio negreiro. Homens, mulheres e crianças amontoados no porão, deitados em prateleiras, acorrentados. O espaço é tão pequeno que ninguém consegue ficar em pé. O calor é insuportável. As pessoas vomitam, defecam, urinam umas nas outras. Doenças se espalham. Muitos morrem durante a travessia. Os corpos são jogados ao mar, comida de tubarão.

O Brasil foi o maior destino de africanos escravizados nas Américas. Dos cerca de 10 milhões de africanos que sobreviveram à travessia do Atlântico, quase 5 milhões desembarcaram aqui. É o país com a maior população negra fora da África. E o país que mais demorou a abolir a escravização: fomos os últimos das Américas, em 1888.

Quem sobrevivia à viagem chegava ao Brasil e era vendido como mercadoria. No mercado de escravizados, famílias eram separadas. Mães viam filhas serem levadas para sempre. Pais nunca mais viam seus filhos. Depois, vinha a plantação: o sol escaldante, o chicote do feitor, o trabalho do nascer ao pôr do sol, colhendo cana ou café para enriquecer um senhor do outro lado do oceano.

A violência física era tão extrema que precisava ser espetacular. Servia de exemplo. O corpo açoitado, o corpo enforcado, o corpo queimado, eram mensagens. "Olhem o que acontece com quem resiste. Olhem o que acontece com quem é diferente. Submetam-se."

E essa violência não ficou no passado. Ela se reproduz hoje nos corpos afrodescendentes mortos nas periferias. No Brasil em 2025, 79% das pessoas mortas na periferia por morte violenta intencional são afrodescendentes. os números provam isso. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 mostram que, no Brasil, 82% das pessoas mortas pela polícia são negras. Um jovem negro tem quase 4 vezes mais chances de ser morto pela polícia do que um branco. E não são só os civis que morrem. Entre os policiais assassinados em 2025, 65,4% eram negros. Ou seja, a violência do estado mata tanto quem está na favela quanto quem é colocado na linha de frente para 'fazer a guerra'. A violência de ontem e a de hoje têm a mesma cor. A violência física mudou de forma, mas continua mirando os mesmos corpos: os corpos que a colônia já considerava descartáveis.

 

Apagando a Memória: A Destruição dos Saberes e da Cultura

Mas não bastava destruir os corpos. Era preciso destruir as almas, as mentes, as memórias. Era preciso apagar qualquer vestígio de que aquele mundo tinha existido.

Na Europa, a caça às bruxas destruiu um conhecimento milenar: o saber das parteiras e curandeiras. Durante séculos, as mulheres foram as médicas dos pobres. Sabiam qual folha servia para febre, qual raiz aliviava a dor, qual chá impedia a gravidez. Com a perseguição, esse conhecimento foi demonizado. Quem procurasse uma curandeira arriscava a vida. A medicina oficial, dos homens de universidade, dos doutores com seus livros em latim, tomou o lugar. O parto, que era um evento feminino, passou a ser controlado por homens.

Nas Américas, a destruição foi ainda mais sistemática. Os espanhóis queimaram bibliotecas inteiras dos astecas. Eram livros feitos de casca de árvore, com desenhos e símbolos que contavam a história, a ciência, a religião daquele povo. Os padres jogaram tudo na fogueira. "É coisa do demônio", diziam.

No Brasil, os jesuítas tiveram um papel ambíguo. Por um lado, protegiam os indígenas da escravização mais brutal. Por outro, destruíam sua cultura. Catequizar era, antes de tudo, fazer o indígena esquecer quem era. Proibiam as línguas nativas, obrigavam as crianças a falar português, substituíam os rituais pela missa, os deuses pelos santos.

Os rituais foram proibidos. As línguas nativas foram reprimidas. As crianças eram tiradas dos pais e educadas à força na fé cristã, em espanhol ou português. A ideia era criar uma geração que tivesse vergonha de sua própria cultura. Que olhasse para os avós e visse "selvagens", não sábios.

Entre os africanos escravizados, a estratégia era misturar as etnias de propósito. Se todos os escravizados de uma plantação fossem da mesma região, falassem a mesma língua, eles poderiam se organizar, se revoltar. Então, os traficantes separavam deliberadamente pessoas que falavam a mesma língua. Assim, ninguém conseguia se comunicar direito. A diversidade linguística, que podia ser uma riqueza, foi usada como arma de desintegração.

Mas a cultura resistia. Nos porões dos navios, nas senzalas, nos fundos dos quintais, os africanos e seus descendentes inventaram jeitos de manter sua memória viva. Transformaram seus orixás em santos católicos para poder continuar rezando. Criaram o samba, o candomblé, a capoeira, formas de resistência disfarçadas de dança, de religião, de luta. A memória não morreu, mas teve que se esconder.

Hoje, essa memória resistente está sendo resgatada. As universidades começam a ter cotas para afrodescendentes e indígenas. A história da África passou a ser ensinada nas escolas. O candomblé e a umbanda conquistaram algum respeito, embora ainda sofram ataques. É uma luta contra 500 anos de apagamento.

 

As Mulheres na Mira Dupla: Gênero e Raça como Ferramentas de Opressão

Agora, precisamos falar de um ponto central: a situação das mulheres indígenas e africanas. Se ser indígena ou africano já era um crime aos olhos do colonizador, ser mulher indígena ou africana era um crime duplo.

Vamos detalhar isso, porque é fundamental para entender o livro de Federici e para entender o Brasil.

 

Exploração Reprodutiva: O Ventre a Serviço do Capital

O sistema escravista precisava de mais escravizados. Trazer gente da África era caro, muitos morriam na viagem. Então, os senhores descobriram que era mais "lucrativo" fazer as mulheres escravizadas terem filhos. Esses filhos já nasciam escravizados, propriedade do senhor.

A mulher africana teve seu útero transformado em fábrica de mercadoria humana. Seu corpo gerava nova força de trabalho para as plantações. Engravidar, parir, amamentar, tudo isso era supervisionado, controlado, explorado. Não havia escolha. Não havia maternidade como afeto; havia maternidade como função econômica.

No Brasil, isso foi ainda mais perverso porque os senhores incentivavam as "crias" da casa grande. Meninas negras eram separadas das mães e criadas junto com as sinhazinhas, para servir. Meninos afrodescendentes viravam moleques de recado. A miscigenação forçada produziu uma população mestiça que até hoje carrega as marcas dessa violência.

 

Exploração Sexual: O Corpo como Campo de Batalha

O estupro foi uma arma de guerra e de dominação cotidiana. Os colonizadores estupravam mulheres indígenas como forma de aterrorizar as aldeias, de mostrar quem mandava. Estupravam mulheres africanas nas senzalas, nos engenhos, nas casas grandes.

Dessa violência, nasciam crianças. Crianças que muitas vezes eram rejeitadas pelo pai (o senhor branco) e pela comunidade materna (que via ali a marca da violência). Nasceu daí uma população mestiça, que carregava no corpo a história dessa violência original.

A sexualidade das mulheres negras e indígenas foi hipersexualizada na imaginação colonial. Criou-se o mito da mulata sensual, da índia dócil e disponível. Esses estereótipos serviam para justificar o abuso: "elas é que provocam", "elas gostam". Até hoje, infelizmente, esses estereótipos têm efeitos reais na violência que mulheres negras e indígenas sofrem. A cada quatro minutos, uma mulher é violentada no Brasil. As mulheres negras são as principais vítimas de violência doméstica e de feminicídio.

 

Trabalho Forçado: A Dupla Jornada nasceu aqui

As mulheres escravizadas trabalhavam nas plantações junto com os homens, sob o mesmo sol, o mesmo chicote. Mas, quando o sol se punha e os homens podiam, em tese, descansar, o trabalho delas continuava.

Elas precisavam cozinhar para os outros escravizados, cuidar das crianças, lavar roupa, às vezes também servir na casa grande. A dupla jornada de trabalho, que as feministas denunciam até hoje, nasceu nesse contexto brutal. A mulher negra escravizada nunca tinha descanso.

Hoje, as mulheres negras são a maioria das trabalhadoras domésticas no Brasil. Uma profissão que ainda tem baixos salários, pouca formalização e é herdeira direta do tempo da escravização. A luta das trabalhadoras domésticas por direitos é uma luta contra 500 anos de exploração.

 

O Paralelo Invisível com as Mulheres Europeias

Aqui, Federici faz uma observação brilhante. Enquanto as mulheres indígenas e africanas eram exploradas até o limite de suas forças no trabalho braçal, o que acontecia com as mulheres brancas na Europa e no Brasil?

Acontecia um processo diferente, mas complementar. As mulheres brancas (especialmente as de classes médias e altas) estavam sendo confinadas ao espaço doméstico. Estavam sendo transformadas no "anjo do lar". Sua função era ser esposa submissa, mãe dedicada, dona de casa exemplar. Seu útero também era controlado, mas para gerar filhos legítimos que herdariam a propriedade da família. Sua sexualidade era vigiada para garantir a pureza da linhagem.

Ou seja, o capitalismo e o colonialismo criaram uma divisão racial do patriarcado. As mulheres brancas foram enclausuradas num pedestal (o pedestal da fragilidade, da pureza, da domesticidade). As mulheres não-brancas foram jogadas na lama da exploração mais brutal.

Mas ambas tiveram seus corpos controlados. Ambas perderam autonomia. Ambas foram vítimas de um sistema que precisava regular a reprodução e a sexualidade feminina para funcionar. A diferença é que um grupo era "protegido", na verdade, vigiado dentro de casa, enquanto o outro era explorado até a morte no campo.

No Brasil, essa divisão racial do patriarcado é ainda mais complexa porque temos uma forte presença de mulheres imigrantes europeias pobres que vieram trabalhar como colonas nas fazendas do Sul e Sudeste. Essas mulheres também sofriam opressão de classe, mas sua brancura lhes dava algum status diante das mulheres negras e indígenas.

 

O Branqueamento da Sociedade: A Importação de Trabalhadores Brancos Europeus

Aqui chegamos a um ponto fundamental para entender o Brasil: o projeto de branqueamento.

Quando a escravização foi abolida, em 1888, os ex-escravizados foram jogados à própria sorte. Não receberam terra, não receberam indenização, não receberam educação. Foram abandonados nas cidades e no campo, competindo por trabalhos precários.

Ao mesmo tempo, o governo brasileiro começou a incentivar a vinda de imigrantes europeus. Italianos, alemães, espanhóis, portugueses foram trazidos em massa para trabalhar nas fazendas de café do Sudeste e para colonizar o Sul do país.

Por que trazer europeus se havia tanta mão de obra disponível no país, formada por afrodescendentes libertos e seus descendentes?

A resposta é racismo puro. A elite brasileira queria "branquear" a população. Achava que o país era atrasado porque tinha muitos afrodescendentes e mestiços. Acreditava que, trazendo europeus, o sangue ia se misturando e, com o tempo, o Brasil se tornaria um país branco, civilizado, europeu.

Esses imigrantes europeus vieram em condições muito difíceis. Muitos eram camponeses pobres que fugiam da miséria na Europa. Aqui, enfrentaram trabalho duro, dívidas com os fazendeiros, doenças. Também eram oprimidos pela classe dominante. Mas havia uma diferença fundamental: eles eram brancos.

Por serem brancos, alguns tiveram acesso a terras (especialmente no Sul, onde foram criadas colônias de imigrantes). Tiveram acesso a empregos melhores. Podiam ascender socialmente de um jeito que afrodescendentes e indígenas não podiam. A brancura funcionava como um capital simbólico que abria portas.

Esse processo criou uma hierarquia racial muito clara na sociedade brasileira: no topo, os brancos (descendentes de europeus); no meio, os mestiços (que podiam tentar "passar por brancos"); na base, afrodescendentes e indígenas.

E até hoje essa hierarquia se reproduz. Os afrodescendentes são a maioria nos empregos mais precários, nas moradias mais pobres, nas estatísticas de violência. Os brancos são a maioria nas universidades, nos cargos de chefia, nos bairros nobres. O mito da democracia racial, que dizia que no Brasil não há racismo, foi uma cortina de fumaça para esconder essa triste realidade.

 

Os Três Pilares da Violência Brasileira: Etnia, Classe e Patriarcado

Agora podemos juntar todas as peças e entender a complexidade da sociedade brasileira.

Nossa sociedade foi constituída a partir de três violências fundamentais:

1. A violência contra os povos originários

Os indígenas que viviam aqui foram expropriados de suas terras, tiveram sua cultura destruída, foram escravizados, foram mortos por doenças e por armas. Essa violência continua hoje com a invasão de terras indígenas por garimpeiros, madeireiros, grileiros. Continua com a falta de assistência à saúde que mata crianças yanomami. Continua com o preconceito que trata o indígena como "atrasado".

2. A violência contra os africanos e seus descendentes

Quase 5 milhões de africanos foram sequestrados e trazidos à força para o Brasil. Foram escravizados por séculos. Seus corpos foram mercadoria, seu trabalho foi roubado, sua cultura foi perseguida. Depois da abolição, foram abandonados e substituídos por imigrantes europeus no mercado de trabalho. Até hoje, o racismo estrutural mantém a população negra na base da pirâmide social.

3. A violência contra as mulheres

As mulheres indígenas, negras e brancas pobres sofreram e sofrem violências específicas: exploração sexual, controle do corpo, dupla jornada de trabalho, subordinação doméstica. O patriarcado é um sistema de opressão que atravessa todas as raças e classes, embora atinja de formas diferentes cada grupo.

E a violência de classe, que atravessa tudo

Os trabalhadores brancos europeus que vieram como imigrantes também eram oprimidos. Eram explorados pelos fazendeiros, viviam em condições precárias, não tinham direitos. A classe trabalhadora no Brasil sempre foi explorada, independentemente da cor. Mas a cor definia o grau de exploração e as chances de escapar dela.

Esses três pilares, etnia, classe e patriarcado, não funcionam separadamente. Eles se combinam, se reforçam, criam situações específicas. Uma mulher negra e pobre sofre uma opressão diferente de um homem branco pobre, que sofre uma opressão diferente de uma mulher indígena, e assim por diante.

Entender essa complexidade é fundamental para não cair em simplificações. Não adianta lutar apenas contra o racismo sem lutar contra o capitalismo. Não adianta lutar apenas contra o patriarcado sem lutar contra o racismo. Também não basta lutar apenas contra o capitalismo, sem lutar contra o racismo e o patriarcado. As opressões estão entrelaçadas, e a luta por libertação precisa ser igualmente entrelaçada.

 

A Terra e o Corpo: Duas Faces da Mesma Moeda

Vamos fazer uma imagem mental. Imagine os campos da Inglaterra no século XVI. Cercas de madeira ou pedra sendo erguidas. Onde antes era terra comum, onde qualquer um podia entrar, agora é propriedade privada. Quem tentar entrar, é preso. É a "cercação" dos campos.

Agora, imagine o corpo de uma mulher africana no século XVII, no Brasil. Esse corpo não lhe pertence. Se ele sentir fome, vai comer o que o senhor der. Se quiser ter um filho, vai ter se o senhor permitir (ou forçar). Se quiser andar para longe, vai ser caçada como fugitiva. Esse corpo também foi "cercado". Foi transformado em propriedade privada de alguém.

Federici nos convida a ver essa analogia: a cerca que fecha o campo na Europa e o chicote que marca o corpo na América são a mesma coisa. São instrumentos da mesma violência.

No Brasil, essa analogia é ainda mais forte porque a terra sempre foi o centro do conflito. A Lei de Terras de 1850, por exemplo, foi feita para impedir que os ex-escravizados tivessem acesso à terra. Ela determinou que a única forma de adquirir terra era comprando. Como os afrodescendentes libertos não tinham dinheiro, ficaram excluídos. As terras públicas foram vendidas a preços baixos para fazendeiros e imigrantes europeus.

Até hoje, a reforma agrária é uma das bandeiras mais importantes no Brasil. Até hoje, latifundiários matam lideranças camponesas e indígenas para manter suas terras.

A acumulação primitiva do capital — aquela violência que deu partida ao sistema — aconteceu em três frentes ao mesmo tempo.

Primeiro, na terra: roubaram os campos dos camponeses, cercaram, transformaram em propriedade particular.

Segundo, no corpo: roubaram a energia de quem trabalhava, a capacidade reprodutiva das mulheres, transformaram seres humanos em mercadoria.

Terceiro, nos territórios colonizados: saquearam o ouro, a prata, o pau-brasil. Arrancaram as riquezas da terra e levaram pra Europa. O capitalismo não surgiu do nada. Ele foi construído com sangue, suor e ouro roubado.

O corpo do escravizado é uma mercadoria. Compra-se e vende-se como açúcar ou café. O corpo da mulher (branca ou negra) é uma máquina de produzir a principal mercadoria de todas: a força de trabalho, ou seja, os trabalhadores que vão gerar riqueza para o capitalista.

Quando a gente entende isso, fica claro porque o controle dos corpos sempre foi tão central na história. Não é só uma questão de moral, de religião, de costumes. É uma questão econômica fundamental. Quem controla os corpos, controla a reprodução da vida. E quem controla a reprodução da vida, controla a sociedade inteira.

 

Refazendo a Dinâmica Relacional: Como Podemos Transformar Essa Sociedade

Se a violência foi construída na história, ela pode ser desconstruída na história. Se nossa cultura foi imposta a partir de uma dinâmica de dominação e sujeição, podemos construir uma nova dinâmica baseada na ética, na igualdade, na liberdade.

Mas isso não vai acontecer automaticamente. Precisa de luta. Precisa de consciência. Precisa de ação coletiva.

 

Primeiro passo: reconhecer a violência

A sociedade brasileira tem uma enorme dificuldade de olhar para seu passado violento e para seu presente violento. Preferimos o mito da democracia racial, o mito da cordialidade, o mito de que "somos todos irmãos". Mas os números desmentem esse mito todos os dias.

Reconhecer a violência é o primeiro passo para superá-la. É preciso dizer: sim, houve genocídio indígena. Sim, houve escravização brutal. Sim, as mulheres sempre foram oprimidas. Sim, o racismo e o machismo existem e matam. Sim, a desigualdade de classe é imensa. Não adianta virar o rosto.

 

Segundo passo: entender as origens

Este texto tentou contribuir para esse passo. Entender que a violência contra as mulheres na Europa (a caça às bruxas) e a violência contra os povos colonizados nas Américas são partes do mesmo processo histórico: o nascimento do capitalismo. Entender que o Brasil foi forjado nessa violência e que ela se reproduz até hoje em novas formas.

Entender também que as opressões se entrelaçam. Não dá para combater o racismo sem combater o patriarcado. Não dá para combater o patriarcado sem combater a exploração de classe. As lutas são uma só.

Mas tem uma armadilha aí. Não existe solução para a sociedade que fique dentro desse enquadre, dessa dinâmica de dominação e sujeição. Porque esse é o enquadre hierarquizado da sociedade de classes, racista, patriarcal e colonizadora. A gente precisa pensar fora da caixa. Precisamos inventar outras dinâmicas relacionais.

Não adianta — embora seja importante — colocar pessoas negras, mulheres ou indígenas em espaços de poder se for apenas para ocupar o mesmo lugar, com a mesma lógica, reproduzindo as mesmas violências. Incluir oprimidos na estrutura que os oprime não transforma a estrutura.

Por outro lado, é fundamental que afrodescendentes, mulheres, indígenas ocupem esses espaços. Porque precisamos enxergar o mundo a partir das diversas perspectivas dos atores sociais. Quem nunca esteve na mesa não pode construir uma nova mesa. Mas o objetivo final não é sentar na mesa do colonizador. É construir outra mesa, com outra lógica, onde ninguém domine ninguém.

A luta não é por um lugar no sistema. A luta é por outro sistema.

 

Terceiro passo: reconstruir os laços comunitários

Federici mostra que o capitalismo destruiu as formas comunais de vida para impor o individualismo, a competição, o isolamento. Na Idade Média, as pessoas viviam em comunidade. Os commons eram espaços de cooperação. As mulheres tinham redes de solidariedade.

Hoje, precisamos reconstruir esses laços. Não para voltar ao passado, mas para construir um futuro diferente. Isso significa fortalecer os movimentos sociais, as associações de bairro, as cooperativas, as comunidades tradicionais. Significa aprender com os indígenas e quilombolas, que mantiveram formas de vida baseadas na coletividade. Significa criar espaços onde as pessoas se ajudam, onde o lucro não é o objetivo principal, onde a dignidade de todos é respeitada.

 

Quarto passo: lutar por políticas públicas

Não adianta só mudar a cabeça das pessoas. É preciso mudar as estruturas. Isso significa lutar por:

  • Demarcação das terras indígenas e quilombolas.
  • Reforma agrária para garantir terra a quem nela trabalha.
  • Cotas raciais nas universidades e no serviço público.
  • Políticas de valorização do trabalho doméstico e de cuidado.
  • Creches públicas para que as mulheres possam trabalhar fora sem culpa.
  • Salário igual para trabalho igual, independentemente de gênero ou raça.
  • Proteção às mulheres vítimas de violência.
  • Fim do genocídio da juventude negra.
  • Educação antirracista e feminista nas escolas.

 

Quinto passo: transformar as relações cotidianas

A revolução não acontece só nos grandes eventos. Acontece também no dia a dia, nas pequenas relações. No homem que aprende a lavar a louça sem ser pedido. Na mulher que não aceita mais ser interrompida nas reuniões. No pai que cria a filha para ser livre, não para agradar. No branco que reconhece seus privilégios e se coloca ao lado da luta negra. No rico que luta contra a desigualdade mesmo que isso signifique perder parte do que tem.

Mudar a dinâmica relacional é isso: é aprender a se relacionar de outro jeito. Não mais baseado na dominação e na sujeição, mas no reconhecimento mútuo. Não mais no medo e na violência, mas na ética, no cuidado e na solidariedade.

 

Por que essa história importa até hoje?

Pode parecer que falamos de coisas muito distantes, de séculos atrás. Mas a história que Silvia Federici conta em "Calibã e a Bruxa" é a história do presente.

Quando uma mulher é assassinada porque seu companheiro "não aceitava o fim do relacionamento", isso tem a ver com a ideia de que o corpo feminino é uma propriedade.

Quando uma trabalhadora doméstica ganha salário baixo e tem seus direitos desrespeitados, isso tem a ver com a herança da escravização, que colocou as mulheres negras no trabalho doméstico como algo "natural", quase não reconhecido como trabalho.

Quando um indígena tem sua terra invadida por garimpeiros ou madeireiros, isso tem a ver com a lógica colonial que nunca terminou, que ainda vê os povos originários como obstáculos ao "progresso".

Quando um jovem afrodescendente é morto na entrada da favela, isso tem a ver com a ideia de que corpos afrodescendentes são descartáveis, ideia que vem direto do tempo da escravização.

Quando uma mulher tem dificuldade de acessar métodos contraceptivos ou é julgada por fazer um aborto, isso tem a ver com a luta histórica pelo controle do útero feminino.

Quando um trabalhador é explorado, ganha salário miserável, não tem tempo para viver, isso tem a ver com a lógica capitalista que transforma tudo em mercadoria, inclusive a força de trabalho.

A violência que fundou o Brasil não ficou no passado. Ela se reproduz todos os dias, em novas roupagens, mas com a mesma essência: a dominação de uns sobre outros, a exploração do trabalho alheio, o controle dos corpos, a destruição das culturas diferentes.

Mas a resistência também continua. Os quilombos de hoje, as terras indígenas demarcadas, as marchas de mulheres negras, o movimento feminista, o movimento LGBTI+, os movimentos de luta pela terra, as ocupações urbanas, o movimento de trabalhadores sem-teto, as greves, as manifestações, todos eles são herdeiros daquelas mulheres queimadas nas fogueiras, daqueles indígenas que resistiram à espada, daqueles africanos que mantiveram sua cultura viva mesmo na senzala, daqueles imigrantes europeus que sonharam com uma vida melhor.

A luta é a mesma: a luta para que o corpo seja território livre. Para que a vida não seja transformada em mercadoria. Para que a reprodução da sociedade não seja controlada por alguns em benefício próprio. Para que as relações entre as pessoas sejam baseadas na ética, na solidariedade e na cooperação, não na dominação e na sujeição.

Entender essa história é entender que o capitalismo não é apenas um sistema econômico. É um sistema que molda corpos, destrói culturas, inventa raças e gêneros hierarquizados, controla a sexualidade, regula a reprodução. É um sistema que, para nascer, precisou queimar bruxas e escravizar povos inteiros. E que, para se manter, continua matando, explorando, oprimindo.

E entender isso é também entender que outro mundo é possível. Porque se o capitalismo foi feito na história, com violência e sangue, ele pode ser desfeito na história, com luta e esperança. O corpo que foi território de conquista pode voltar a ser território de liberdade. A relação que foi baseada na dominação pode ser refeita baseada na cooperação. A sociedade que foi construída sobre a violência pode ser reconstruída sobre a paz.

Essa é a tarefa do nosso tempo. E ela começa com cada um de nós, no nosso dia a dia, nas nossas relações, nas nossas escolhas. Mas não termina aí. Ela precisa ser coletiva, organizada, permanente. Precisa juntar as lutas de classe, raça e gênero numa só grande luta por libertação.

Porque, no fundo, todas essas opressões têm a mesma raiz: um sistema que coloca o lucro acima da vida, a propriedade acima da dignidade, o poder acima do afeto. E é contra esse sistema que precisamos lutar.

Juntas e juntos, podemos refazer a dinâmica relacional. Podemos construir uma sociedade onde nenhuma mulher seja perseguida ou silenciada, nenhum povo originário seja invadido ou desumanizado, e nenhuma pessoa negra seja escravizada. Uma sociedade onde todos os corpos possam existir em liberdade, dignidade e pertencimento.

 

 

Este texto foi baseado nos capítulos 4 e 5 do livro "Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva", de Silvia Federici, e adaptado para refletir a realidade brasileira. Uma obra essencial para quem quer entender as raízes profundas da opressão de gênero, raça e classe no mundo moderno.

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026


 


O Que Nos Conecta com Nossa Humanidade?

 

Uma Jornada Pelas Três Necessidades que Curam a Alma e Libertam o Coração

 

Por que você acordou hoje?

Pare um segundo. Antes de responder “porque o despertador tocou” ou “porque tinha conta para pagar”, tente ir mais fundo.

Você acordou porque alguém te esperava? Por que tinha uma ideia na cabeça que precisava sair? Por que sentia que sua opinião importava em algum lugar?

Nós passamos a vida correndo atrás de coisas que acreditamos ser “sucesso”: dinheiro, status, a casa própria, o carro do ano. E quando chegamos lá, muitas vezes o que encontramos não é felicidade. É cansaço. É um vazio estranho, daqueles que a gente tenta preencher com mais coisas, mais trabalho, mais distração.

Manfred Max-Neef, um economista chileno que ousou pensar fora da caixa, passou a vida tentando entender o que realmente importa. Ele descobriu algo simples e ao mesmo tempo revolucionário: nós não precisamos apenas de coisas. Nós precisamos que necessidades humanas fundamentais sejam atendidas.

E três dessas necessidades, Afeto, Compreensão e Participação, são a chave para uma vida que vale a pena ser vivida. Elas não são “supérfluas”. Elas não são “frescura”. Elas são o que nos separa de máquinas que apenas produzem e consomem.

Vamos mergulhar nelas. Devagar. Como quem bebe água depois de um longo dia no deserto.

 

Afeto – A Necessidade de Existir no Coração do Outro

Vamos começar com uma pergunta delicada: quando foi a última vez que você se sentiu verdadeiramente abraçada?

Não estou falando daquele abraço rápido, com as mãos nas costas e o olhar já na porta. Estou falando do abraço que segura. Que diz, sem palavras: “você pode desabar agora, eu estou aqui”.

Max-Neef chama isso de Afeto. E ele não está falando apenas de romance, de namoro ou casamento. Afeto é muito mais que isso.

Afeto é a avó que faz a sua comida preferida sem você pedir. É o amigo que manda mensagem “só para saber se você chegou bem”. É o cachorro que se deita aos seus pés enquanto você trabalha. É a vizinha que rega suas plantas quando você viaja. É o colega de trabalho que percebe que você está estranha e pergunta: “tudo bem?”

Afeto é a certeza silenciosa de que, se o chão faltar, existe uma rede, mesmo que pequena, para te segurar.

E quando essa necessidade não é atendida, o que acontece?

Solidão.

Não a solidão de estar sozinha. Essa, às vezes, é necessária. É a solidão de estar acompanhada e ainda assim se sentir invisível. É o silêncio que grita dentro de um apartamento lotado de coisas, mas vazio de presença. É olhar para o lado na cama e sentir mais distância do que se estivesse a mil quilômetros.

Max-Neef é duro aqui: a pobreza não é apenas não ter comida. Pobreza é também não ter afeto. E essa é uma das pobrezas mais devastadoras, porque ela não aparece em estatísticas. Não tem fila no posto de saúde. Não tem medição no IBGE. Mas corrói por dentro como doença silenciosa.

 

Compreensão – A Necessidade de Fazer Sentido

Agora, outra pergunta: você já sentiu que está no escuro?

Não escuro físico. Escuro da alma. Aquela sensação de que você está fazendo as coisas, cumprindo as tarefas, pagando as contas, mas não entende para quê.

Max-Neef chama isso de privação de Compreensão.

Compreensão não é apenas “saber as coisas”. Não é acumular diploma, fazer curso, decorar data de guerra ou nome de osso do corpo humano. Isso é informação. Compreensão é outra história.

Compreensão é a capacidade de dar sentido. É olhar para sua vida e conseguir enxergar um fio condutor. É entender por que você sente o que sente, age como age, escolhe o que escolhe. É conectar os pontos.

Uma criança que pergunta “por que o céu é azul?” não quer uma aula de física. Ela quer que alguém valide sua curiosidade. Ela quer que alguém diga: “que pergunta linda, vamos descobrir juntas”.

Um jovem que questiona a profissão que escolheu não está sendo ingrato. Ele está tentando entender se aquilo faz sentido para quem ele é, ou se ele está apenas repetindo um roteiro que não escreveu.

Uma idosa que conta a mesma história várias vezes não está sendo repetitiva. Ela está organizando sua existência, tentando extrair significado do que viveu.

Quando a compreensão é violada, a gente adoece.

Adoece porque vive no automático. Adoece porque engole dogmas sem mastigar. Adoece porque tem medo de perguntar. Adoece porque acreditam que “pensar demais” é problema, quando na verdade não pensar é que é a verdadeira doença.

O mundo contemporâneo é muito eficiente em nos dar respostas. Mas é péssimo em nos deixar fazer perguntas.

 

Participação – A Necessidade de Fazer Parte

Última pergunta (prometo): quando foi a última vez que você sentiu que sua opinião realmente importou?

Não importou para o chefe. Importou para o coletivo. Para o grupo. Para a comunidade.

Max-Neef chama isso de Participação. E aqui está talvez a necessidade mais subestimada do nosso tempo.

Nós confundimos participação com “estar presente”. Você está na reunião? Está. Você está em casa? Está. Você está no grupo da família? Está.

Mas você participa? Você decide? Você é ouvida? O que você fala é levado em consideração ou é apenas tolerado?

Participação é o oposto de exclusão. É o oposto de ser tratada como número, como estatística, como massa de manobra. É poder dizer “eu acho que deveria ser diferente” e ver essa fala gerar movimento.

Quando uma criança pode opinar sobre a decoração do próprio quarto, isso é participação.
Quando um funcionário sugere uma mudança no processo e é ouvido, isso é participação.
Quando uma comunidade decide onde será construída a praça, isso é participação.
Quando um país elege suas representantes com consciência e informação, isso é participação.

Quando a participação é violada, a gente encolhe.

A gente aprende que falar não adianta. Que é melhor ficar quieta. Que “as coisas são assim mesmo”. Que política é coisa de corrupto. Que reunião é perda de tempo. Que voto não muda nada.

A gente vira espectadora da própria vida.

 

O Grande Encontro: Spinoza, Rosenberg e a Liberdade que Só Existe no Nós

Agora vamos juntar as pontas. Porque esses três fios, Afeto, Compreensão e Participação, não estão soltos. Eles formam um tecido.

E dois pensadores nos ajudam a entender por quê.

Spinoza, o filósofo holandês do século XVII, tinha uma ideia revolucionária. Ele dizia: o bem não é uma lista de regras. O bem é aquilo que nos afeta positivamente. O mal é aquilo que nos afeta negativamente.

Simples assim.

Se algo aumenta sua potência de agir, sua alegria, sua vontade de viver, isso é bom. Se algo diminui a sua potência, isso é mau.

Mas Spinoza vai além. Ele diz que o sumo bem, a maior felicidade possível, não é algo que se alcança sozinha. O sumo bem é viver com outras pessoas. É formar um grupo, uma comunidade, uma sociedade onde todas possam, juntas, evitar o que afeta negativamente e buscar o que afeta positivamente.

Percebe a ponte?

Afeto é isso. Compreensão é isso. Participação é isso.

Nós não nos realizamos sozinhas. Nós nos realizamos entre.

 

E então entra Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não-Violenta, mais de 300 anos depois.

Rosenberg percebeu que a maioria de nós vive o que ele chamou de escravidão emocional.

O que é isso?

É quando você acredita que é responsável pelos sentimentos dos outros.

“Se minha mãe está triste, a culpa é minha.”
“Se minha mulher está irritada, eu fiz algo errado.”
“Se meu amigo não fala comigo, eu devo ter falhado.”

“Se eu estou irritada, alguém me desrespeitou”

Essa fase é um pesadelo. Você vive se dobrando, se anulando, tentando controlar o incontrolável. Você pensa que é amor, mas é medo.

Depois, algumas pessoas descobrem que não são responsáveis pelos sentimentos alheios, nem as outras pessoas são responsáveis pelos nossos. E aí caem na segunda fase: a fase ranzinza.

“Ah, não sou responsável? Então que se dane. O problema é seu. Lide com isso.”

É a fase do individualismo radical. É o “cada um por si”. É a pessoa que confunde liberdade com indiferença.

Mas Rosenberg diz que há uma terceira fase. A fase da verdadeira liberdade.

E essa fase não é “não me importar”. É cuidar sem carregar.

É entender que eu não sou responsável pelos seus sentimentos, mas me importo com eles. E você não é responsável pelos meus, mas se importa com eles.

E juntas, a gente constrói um jeito de viver onde minhas necessidades e suas necessidades podem ser atendidas mutuamente.

Isso é liberdade.

 

O Momento em Que Tudo Se Encontra

Olhe de novo para as três necessidades.

Afeto é a base. É onde a gente aprende que o outro importa. É onde a gente descobre que não dá para ser feliz sozinha. É a escola do cuidado mútuo.

Compreensão é a ferramenta. É onde a gente aprende a perguntar, a escutar, a interpretar. É onde a gente descobre que a outra pessoa não é ameaça, é mistério. E que mistérios não se combatem, se acolhem.

Participação é o resultado. É onde tudo isso vira prática. É onde a gente se senta junta, olha para o que afeta negativamente o grupo e diz: “como vamos mudar isso?” E olha para o que afeta positivamente e diz: “como vamos cultivar isso?”

Spinoza diria: isso é Ética.
Rosenberg diria: isso é Comunicação Não-Violenta.
Max-Neef diria: isso é Desenvolvimento à Escala Humana.

Eu, modestamente, chamo de vida que vale a pena.

 

E Agora?

Você pode estar lendo isso e pensando: “tudo muito bonito, mas o mundo não funciona assim”.

E eu te pergunto: e se a gente fizer funcionar?

Não no mundo inteiro. Não de uma vez. Não em escala global.

Mas no nosso mundo.
No nosso círculo.
Na nossa casa.
No nosso trabalho.
No grupo de amigas.
Na nossa rua.

Que tal, hoje, você:

  • Perguntar a alguém como ela realmente está, e ficar em silêncio para ouvir a resposta?
  • Compartilhar uma dúvida que você tem, em vez de fingir que sabe tudo?
  • Convidar alguém para opinar sobre uma decisão que normalmente você tomaria sozinha?

Isso é afeto. Isso é compreensão. Isso é participação.

Isso é colocar o humano de volta no centro.

O mundo está cheio de gente que acumula coisas. Está faltando gente que constrói sentido.

Que tal a gente começar hoje?

 

Este texto foi escrito com a certeza de que você, que chegou até aqui, sente falta de algo. E que esse algo não está na prateleira. Está nas pessoas. Está nos vínculos. Está na coragem de perguntar, de se importar e de incluir.

 

Vamos juntas?


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026


 


A Engrenagem Invisível: Como o Poder Real Molda o Mundo nas Sombras

 

Quem realmente manda no mundo? Não são apenas os presidentes, reis ou primeiros-ministros que vemos na TV. Existe uma engrenagem muito mais complexa trabalhando nos bastidores, uma máquina de influência tão poderosa que consegue subjugar nações inteiras sem disparar um único tiro.

Esta é a história não contada sobre como um sistema quase perfeito de dominação foi construído ao longo de um século. Não se trata de teorias da conspiração, mas de conexões documentadas que mostram como o capital, a política e a cultura se entrelaçam para criar o que chamamos de "ordem mundial".

 

A Grande Virada: Quando os Bancos Viraram Generais

Imagine a Europa em 1914. As grandes potências , Alemanha, França, Inglaterra , se preparavam para uma guerra que todos pensavam seria rápida. Mas havia um detalhe fundamental: nenhum país tinha dinheiro suficiente para bancar anos de combate.

Foi quando surgiu o salvador inesperado: os banqueiros de Wall Street, em Nova York.

Enquanto o presidente estadunidense Woodrow Wilson fazia discursos sobre neutralidade, algo muito diferente acontecia nos bastidores. Bancos como o J.P. Morgan começaram a emprestar quantias astronômicas para França e Inglaterra. Empresas estadunidenses como a DuPont (produtora de explosivos) e a United Steel (fabricante de armas) viram suas vendas explodirem.

O jogo era simples: a Europa lutava, a América emprestava e lucrava.

Mas em 1917, os banqueiros perceberam o perigo: e se a guerra acabasse sem que seus empréstimos fossem pagos? Foi então que a "neutralidade" americana evaporou. O mesmo presidente que prometeu não entrar na guerra agora a defendia como necessária. Os soldados estadunidenses desembarcaram na Europa quando os exércitos europeus já estavam exaustos.

Resultado: os EUA apareceram como heróis que "salvaram" a Europa, enquanto Wall Street garantia que seus investimentos estariam seguros.

 

A Armadilha da Dívida: Como Criar uma Nação Refém

Terminada a guerra, veio a conta. No Tratado de Versalhes de 1919, a Alemanha foi declarada única responsável pelo conflito e condenada a pagar uma fortuna em reparações, o equivalente a trilhões de dólares atuais.

Aqui vem o golpe de mestre: a Alemanha, destruída, não tinha como pagar. Então quem apareceu oferecendo empréstimos? Os mesmos bancos estadunidenses.

Foi criado o "Plano Dawes" em 1924 , um pacote de resgate financeiro com uma condição escondida: a Alemanha tinha que abrir completamente sua economia para empresas estadunidenses.

O resultado foi uma invasão silenciosa. Em menos de dez anos:

  • A General Motors e a Ford compraram ou criaram fábricas de carros
  • A Coca,Cola estabeleceu sua primeira fábrica europeia
  • A ITT (comunicações) e a International Harvester (máquinas agrícolas) se instalaram
  • Bancos de Wall Street abriram filiais em Frankfurt e Berlim

A Alemanha ficou presa num ciclo vicioso: pegava empréstimos estadunidenses para pagar dívidas... para os estadunidenses. E cada empréstimo vinha com mais condições, mais abertura, mais controle externo.

 

A Máquina que Sobreviveu a Hitler

Aqui vem a parte mais chocante da história. Mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, quando soldados estadunidenses morriam combatendo a Alemanha nazista, o sistema financeiro que ligava os dois países... continuou funcionando.

No centro desta história está o Banco de Compensações Internacionais (BIS), criado em 1930 na Suíça. Seu propósito oficial era administrar as dívidas de guerra alemãs. Mas seu verdadeiro papel era muito mais sinistro.

Durante toda a guerra, o BIS, dirigido por Thomas McKittrick, um banqueiro estadunidense de Wall Street, serviu como canal financeiro secreto. Através dele:

  • O ouro roubado pela Alemanha nazista de países ocupados era "lavado" e transformado em moeda utilizável
  • Transações comerciais internacionais continuavam fluindo
  • Os interesses financeiros eram preservados, independentemente de quem estivesse ganhando a guerra

Ou seja: enquanto jovens estadunidenses e alemães se matavam nos campos de batalha, o sistema financeiro de ambos os países cooperava nos bastidores. O capital não tinha pátria, apenas lucro.

 

O Plano Marshall: A "Ajuda" que Aprisionou

Após 1945, a Europa estava em ruínas. E os EUA apareceram com uma solução magnânima: o Plano Marshall. Bilhões de dólares para reconstruir o continente.

Mas a realidade era mais complexa. O dinheiro do Plano Marshall não era simplesmente dado. Ele funcionava assim:

  1. Os EUA aprovavam um empréstimo para a França comprar trigo
  2. O dinheiro nunca saía dos EUA, era pago diretamente a empresas estadunidenses exportadoras
  3. A França recebia o trigo, mas ficava com a dívida
  4. Para pagar a dívida, a França tinha que abrir seu mercado para outros produtos estadunidenses

Era um ciclo perfeito: o dinheiro estadunidense financiava empresas estadunidenses para vender para a Europa, que ficava devendo aos EUA. O general George Marshall, que dava nome ao plano, foi claro: "Nosso objetivo é criar dependentes".

A Alemanha Ocidental, recém, criada, ficou sob controle direto estadunidense por anos. Não tinha ministério das relações exteriores próprio, quem mandava era o "Alto Comissário Estadunidense", John McCloy, ex-presidente do Banco Mundial.

Até o serviço secreto alemão (BND) começou como um departamento da CIA. Os alemães só ganharam controle sobre sua própria espionagem em 1956.

 

A Fusão Final: Quando Políticos Viraram Empresários

Nos anos recentes, o sistema se sofisticou ainda mais. Hoje não se trata mais apenas de empresas abrindo filiais, trata-se de uma fusão completa entre a classe política e o capital financeiro.

O caso alemão é emblemático. Friedrich Merz, um dos políticos mais poderosos da Alemanha, tem um currículo revelador:

  • Primeiro foi político do partido conservador (CDU)
  • Depois virou sócio do escritório de advocacia estadunidense Mayer Brown, assessorando empresas dos EUA que queriam comprar empresas alemãs
  • Em seguida, tornou-se chefe da BlackRock na Alemanha, a maior gestora de investimentos do mundo
  • Agora voltou à política como chanceler da Alemanha

Merz não é exceção. É a regra. Uma rede invisível conecta políticos, ex-políticos, consultores e banqueiros numa dança de portas giratórias. Eles alternam entre cargos públicos e posições em empresas que se beneficiam das políticas que ajudaram a criar.

 

A Estrutura de Poder Real: Os Quatro Pilares

Para entender como essa máquina funciona, precisamos olhar para seus quatro pilares interconectados:

1. O Pilar Financeiro: O Dinheiro que Amarra

  • Bancos centrais coordenados através do BIS
  • Fundos de investimento como BlackRock e Vanguard que controlam trilhões em ativos
  • Agências de classificação de risco que ditam quem pode ou não pegar empréstimos
  • O dólar como moeda mundial, dando aos EUA poder único

2. O Pilar Corporativo: As Empresas que Conquistam

  • Multinacionais que operam em dezenas de países
  • Firmas de consultoria (McKinsey, Boston Consulting) que moldam políticas públicas
  • Escritórios de advocacia globais que escrevem as leis do comércio internacional
  • Fusões e aquisições que diluem fronteiras nacionais

3. O Pilar Político-Militar: A Força que Garante

  • A OTAN como braço armado da influência ocidental
  • Bases militares estadunidenses espalhadas pelo globo
  • Acordos de "livre" comércio que na verdade protegem interesses específicos
  • Sanções econômicas como arma política

4. O Pilar Cultural: As Ideias que Convencem

  • Hollywood e a indústria do entretenimento
  • Redes sociais e tecnologia americana
  • Universidades de elite que formam as próximas gerações de líderes
  • A língua inglesa como idioma global dos negócios

Juntos, esses quatro pilares criam o que os teóricos chamam de "hegemonia", um domínio tão completo que nem parece dominação. As pessoas aceitam as regras do jogo porque as internalizaram como naturais, inevitáveis e, em alguns casos, até desejáveis.

 

O Jogo das Elites Globais: A Verdadeira Classe Dominante

Aqui está o segredo mais bem guardado: os verdadeiros donos do jogo não são "os estadunidenses" contra os outros países. São membros de uma classe capitalista transnacional que usa nações como ferramentas.

Essa classe inclui:

  • Mega-investidores como Larry Fink (CEO da BlackRock)
  • Donos de fundos de hedge que apostam contra economias nacionais
  • CEOs de multinacionais que têm mais poder que os governos
  • Políticos que, após deixarem o cargo, vão trabalhar para essas empresas

Eles estudam nas mesmas universidades (Harvard, Yale, Oxford), frequentam os mesmos fóruns (Davos, Bilderberg), e compartilham os mesmos interesses: manter o sistema funcionando para seu benefício.

A Europa não foi "conquistada" no sentido tradicional. Suas elites foram cooptadas, integradas a esta rede global. Um político alemão ou francês que chega ao topo sabe que, após o governo, terá portas abertas em bancos de investimento ou conselhos administrativos de multinacionais.

 

O Exemplo Atual: A Ucrânia e a Reconstrução que Antecipa o Fim da Guerra

Observe o conflito na Ucrânia com estes olhos. Enquanto os noticiários focam nas batalhas e nos discursos políticos, nos bastidores acontece algo revelador.

A BlackRock já está trabalhando com o governo ucraniano para criar um fundo de reconstrução do país. Larry Fink, seu CEO, se reuniu com o presidente Zelensky. Eles estão planejando como reconstruir a Ucrânia... antes mesmo da guerra terminar.

O que isso significa? Que enquanto os soldados lutam, o capital, que está lucrando muito com a venda de armas para a guerra, já está planejando também como lucrar com a paz. E não são apenas empresas estadunidenses, são conglomerados globais que verão na reconstrução uma oportunidade de negócios de centenas de bilhões.

 

A Resistência Silenciosa: Quando o Sistema Mostra Suas Rachaduras

Este sistema quase perfeito, no entanto, começa a mostrar fissuras:

  1. A ascensão da China: Pela primeira vez em décadas, há um país grande o suficiente para criar um sistema paralelo.
  2. Muitos países estão buscando independência e soberania
  3. As crises financeiras: 2008 mostrou que o sistema pode colapsar sob seu próprio peso
  4. Movimentos por todo o mundo questionam o sistema

Mas mesmo essas crises são frequentemente absorvidas pelo sistema. Após 2008, os mesmos bancos que causaram o problema foram resgatados com dinheiro público. E muitos políticos que se autodenominam de esquerda na europa, uma vez no poder, acabam fazendo acordos com as mesmas forças que criticavam.

 

Estamos Todos no Mesmo Barco... Mas em Classes Diferentes

A história que contamos aqui não é sobre "vilões" estadunidenses contra "vítimas" europeias. É sobre como um sistema de poder foi construído ao longo de um século, tão intrincado que mesmo aqueles que o criticam muitas vezes acabam servindo a ele.

A "amizade fatal" entre EUA e Europa é, na verdade, um casamento de conveniência entre elites que descobriram que é mais lucrativo cooperar do que competir. E o resto de nós? Somos passageiros num navio cujo rumo não controlamos.

Mas compreender este sistema é o primeiro passo para questioná-lo. Quando você vir um político defender políticas de "abertura de mercados" ou "integração global", pergunte, se: integração para quem? Abertura para quê?

O poder real hoje não está nos palácios presidenciais, mas nos arranha-céus de Wall Street, nas salas de reunião de gestoras de fundos, nos fóruns fechados onde se decidem as regras do jogo econômico global.

Conhecer esta engrenagem invisível não é sobre promover teorias conspiratórias. É sobre iluminar as conexões reais que moldam nosso mundo. Porque só quando entendemos como o poder realmente funciona, podemos começar a imaginar como construir algo diferente.

A pergunta que fica é: se um sistema tão complexo e poderoso foi construído ao longo de um século, que sistema poderíamos construir no próximo? A resposta começa com mais pessoas entendendo o jogo que está sendo jogado, muitas vezes com nossas vidas como fichas.

 

Fonte Principal Consultada 📚

Uma das bases mais sólidas para entender esta análise é o livro "Fatal Friendship: First Phase: From World War I to II" do pesquisador alemão Werner Rügemer (edição de novembro de 2025).

Rügemer documenta meticulosamente como:
• A rede financeira transatlântica foi tecida entre Wall Street e a Europa a partir de 1914
• O "Plano Dawes" (1924) estabeleceu o modelo de dominação via endividamento
• O Banco de Compensações Internacionais (BIS) funcionou como o coração financeiro do sistema, operando inclusive durante a Segunda Guerra Mundial
• As mesmas estruturas criadas no período entre-guerras foram aperfeiçoadas no pós-1945

Seu trabalho oferece a documentação histórica que comprova como o poder financeiro construiu, passo a passo, a arquitetura de dependência que ainda hoje define as relações transatlânticas.

O livro está disponível em inglês e serve como um marco acadêmico para quem quer ir além das narrativas superficiais sobre o poder global.