A Colonização e a Cristianização do Corpo "Selvagem": Como a Caça às Bruxas Europeia se Repetiu nas Américas e Forjou a Violência Brasileira
Introdução: Quando a Guerra Contra as Mulheres Virou
Guerra Contra os Povos
Imagine duas cenas acontecendo ao mesmo tempo, em lados
opostos do oceano Atlântico, há cerca de 500 anos.
Na primeira cena, estamos na Europa. Uma mulher é amarrada a
uma estaca. Madeira seca amontoada aos seus pés. Ao redor, uma multidão
assiste. O que essa mulher fez? Ela sabia curar doenças com ervas. Ela falava
com as plantas. Talvez fosse parteira, ajudando outras mulheres a dar à luz.
Talvez fosse viúva e morasse sozinha. Talvez tivesse um gato. Para a Igreja e
para o Estado, isso era o suficiente. Ela era uma bruxa. Era a encarnação do
mal. Precisava ser queimada.
Na segunda cena, estamos nas Américas. Um homem é amarrado a
um tronco. Suas costas estão ensanguentadas. Soldados europeus o açoitam. O que
esse homem fez? Ele nasceu aqui. Seus ancestrais viveram nestas terras por
milhares de anos. Ele cultiva milho de um jeito que os europeus nunca viram.
Ele reza para deuses que têm nome de sol, de chuva, de montanha. Para os
colonizadores, isso era o suficiente. Ele era um selvagem. Era um ser inferior,
quase um animal. Precisava ser dominado.
Pode parecer que são duas histórias diferentes. Mas a grande
estudiosa Silvia Federici, no seu livro "Calibã e a Bruxa", mostra
que é a mesma história. A mesma violência. A mesma lógica. O mesmo objetivo.
Este texto vai contar essa história. Vamos viajar no tempo e
entender como o corpo humano, o corpo da mulher europeia, do indígena
originário, do africano escravizado, se tornou o campo de batalha principal
para a construção do mundo em que vivemos hoje, o mundo capitalista.
E vamos contar essa história com um olhar especial para o
Brasil. Porque aqui, essa violência chegou de um jeito particularmente brutal e
deixou marcas que ainda estão abertas. A sociedade brasileira foi construída
sobre três pilares de violência: a violência contra os povos originários, a
violência contra os africanos sequestrados e escravizados, e a violência contra
as mulheres. Somadas a isso, temos a violência de classe, que oprime
trabalhadores de todas as cores, mas sempre com um recorte étnico muito claro.
Entender de onde vem essa violência é o primeiro passo para
conseguir refazer nossa dinâmica relacional. Porque nossa cultura foi imposta a
partir de uma lógica de dominação e sujeição. Aprendemos, durante séculos, a
nos relacionar através da força, da hierarquia, do desprezo pelas outras
pessoas. Mas se a violência foi construída na história, ela pode ser
desconstruída na história. E é sobre isso que vamos falar.
A Transição que Mudou Tudo: Quando o Mundo Virou de
Cabeça pra Baixo
Antes de tudo isso acontecer, a Europa vivia o que chamamos
de Idade Média. Não era um mar de rosas, claro. Havia fome, guerra,
desigualdade. Mas as pessoas viviam de um jeito muito diferente.
A maioria das pessoas era camponesa. Elas trabalhavam a
terra, mas não eram "donas" dela no sentido que temos hoje. Existiam
terras comuns, os "commons". Eram florestas, pastos, rios que
pertenciam à comunidade. Ali, os pobres podiam pegar lenha, pescar, deixar seus
porcos se alimentarem. As mulheres tinham um papel fundamental nessa economia.
Elas cultivavam hortas, conheciam as plantas medicinais, cuidavam dos animais,
faziam queijo, pão, cerveja. O conhecimento era passado de mãe para filha.
Aí, a partir do século XV, as coisas começaram a mudar
violentamente. Os senhores feudais e a nova classe de comerciantes queriam
mais. Queriam dinheiro. Queriam acumular riqueza. Começaram a cercar as terras
comuns. "Isso aqui agora é meu", diziam. "Vocês não podem mais
entrar."
Os camponeses foram expulsos. Milhares, milhões de pessoas
foram jogadas na estrada, sem terra, sem trabalho, sem comida. Viraram
"vagabundos" aos olhos da lei. E ser vagabundo, nessa época, era
crime. Podia ser açoitado, preso, enforcado.
Foi nesse contexto de terror, de desespero, que a caça às
bruxas explodiu na Europa. Entre os séculos XV e XVII, dezenas de milhares de
mulheres (e alguns homens) foram julgadas e executadas. Queimadas vivas.
Por quê? Por que tanta fúria contra as mulheres?
Porque elas eram a memória viva do mundo que estava sendo
destruído. Elas sabiam das ervas, sabiam fazer partos, sabiam se organizar em
comunidade. Elas controlavam a própria fertilidade (sim, existiam métodos
contraceptivos e abortivos na Idade Média). Elas representavam um poder que não
passava pelo padre, nem pelo senhor, nem pelo Estado. Um poder autônomo.
Eliminar as bruxas era eliminar a resistência. Era arrancar
pela força a ideia de que a vida podia ser vivida de outro jeito. Era dizer:
"Agora, o único jeito de viver é trabalhando para nós, ganhando salário,
obedecendo." O corpo da mulher, que gerava vida, precisava ser controlado.
Ele não podia mais ser um território livre. Tinha que virar uma máquina de
fazer trabalhadores.
Atravessando o Oceano: A Mesma Guerra em um Novo Mundo
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, um outro mundo
estava sendo "descoberto". Para os europeus, era um mundo novo. Mas
para quem vivia ali, era o mundo deles desde sempre. Eram os povos indígenas: Astecas,
Maias, Incas, Tupis, Guaranis, Yanomamis e centenas de outras nações.
Quando os europeus chegaram, trouxeram na bagagem não só
espadas e doenças, mas também essa nova mentalidade que estava sendo forjada na
Europa. A mentalidade da acumulação, da conquista, de dominação, do desprezo
por quem vive de um jeito diferente.
E o que eles viram? Viram sociedades onde a terra era de todas.
Onde as pessoas plantavam para comer, não para enriquecer. Onde existiam formas
de espiritualidade que não tinham nada a ver com a Igreja. Onde, em muitos
casos, as mulheres tinham papéis sociais importantes, como comerciantes,
sacerdotisas ou guerreiras.
Para os colonizadores, aquilo era inaceitável. Era uma
afronta. Era "selvageria". E o que se faz com o selvagem? O mesmo que
se faz com a bruxa: elimina-se, domina-se, converte-se.
A guerra contra as bruxas na Europa e a guerra contra os
povos originários nas terras que os colonizadores denominaram Américas são
irmãs gêmeas. Nascem do mesmo ventre: o ventre do capitalismo nascendo.
A Criação do "Outro": Como se Inventa um
Monstro
Para matar alguém sem culpa, você precisa primeiro convencer
a si mesma e às outras de que essa pessoa não é bem uma pessoa. Você precisa
transformá-la em monstro.
Na Europa, o monstro era a bruxa. Os manuais de caça às
bruxas, como o infame "Malleus Maleficarum" (O Martelo das Bruxas),
descreviam as mulheres como seres fracos de espírito, carnais, luxuriosos,
propensos ao mal por natureza. Diziam que elas faziam pactos com o Diabo, que
voavam à noite, que matavam crianças, que causavam tempestades.
Era uma propaganda de terror. E funcionava. O vizinho
passava a desconfiar da vizinha. O marido, da esposa. O padre, das fiéis.
Qualquer mulher que fugisse do padrão, que fosse pobre, velha, sábia, bonita,
rebelde, podia ser acusada.
Nas Américas, o mesmo processo aconteceu. Os indígenas foram
descritos como "selvagens". O que isso significava? Significava que
não tinham alma, segundo alguns debatedores da época. Que eram preguiçosos por
natureza (quando, na verdade, tinham uma relação com o trabalho muito
diferente, não baseada na exploração exaustiva). Que eram sexualmente
promíscuos (porque muitas culturas tinham costumes sexuais e de nudismo que
chocavam os europeus). Que eram canibais (o que acontecia em rituais específicos
de alguns povos, mas foi generalizado como prova de sua bestialidade).
Os africanos sequestrados e trazidos à força para as
Américas também passaram por esse processo. Foram animalizados. Comparados a
macacos. Dizia-se que eram descendentes de Cam, o filho amaldiçoado de Noé, e
que portanto sua escravização era vontade de Deus.
Veja a genialidade perversa disso: você cria uma ideologia
que justifica a violência. Não estamos matando pessoas, estamos queimando
bruxas a serviço de Deus. Não estamos escravizando pessoas, estamos civilizando
selvagens e salvando almas pagãs.
A função ideológica era clara: permitir que a exploração
mais brutal acontecesse sem que os algozes perdessem o sono. O genocídio vira
missão. A tortura vira salvação.
No Brasil, essa ideologia criou raízes profundas. Até hoje,
quando se fala em demarcação de terras indígenas, ouvimos argumentos de que
"eles têm terra demais", como se a terra fosse dos europeus que a
roubaram. Até hoje, quando se fala em cotas para afrodescendentes nas
universidades, ouvimos que "é racismo ao contrário", como se séculos
de escravização pudessem ser apagados com essa conversa. A ideia de que branco
é superior, de que afrodescendente é suspeito, de que indígena é preguiçoso, tudo
isso vem dessa máquina de fabricar monstros que os colonizadores inventaram.
O Corpo na Mira: A Violência Física como Ferramenta de
Conquista
Quando a ideologia já fez seu trabalho de desumanização, a
violência física pode agir sem freios. E agiu.
Vamos começar pelas populações indígenas. Os números são
estarrecedores. Estima-se que a população das Américas tenha caído de cerca de
60 milhões para talvez 6 milhões em apenas um século após a chegada dos
europeus. É uma das maiores catástrofes demográficas da história.
No Brasil, a história não foi diferente. Quando os
portugueses chegaram, estima-se que viviam aqui entre 2 e 4 milhões de
indígenas. Hoje, segundo o censo de 2022, são cerca de 1,7 milhão. Foram
séculos de extermínio. E não foi só no passado. A violência contra os povos
originários continua. Nos últimos anos, o garimpo ilegal em terras Yanomami
matou crianças de fome, contaminou rios com mercúrio, estuprou mulheres. A
Funai, órgão criado para proteger os indígenas, foi desmontada. A violência
física contra os povos originários é uma linha que nunca foi interrompida na
história do Brasil.
Como aconteceu essa dizimação? Guerras de extermínio,
primeiro. Os colonizadores tinham armas de fogo, cavalos, armaduras. Mas o
maior assassino foi invisível: as doenças. Os indígenas não tinham defesas
imunológicas contra sarampo, varíola, gripe. Eram doenças europeias. Corpos
inteiros de aldeias morriam. Mas isso não foi um acidente. Muitas vezes, os
colonizadores distribuíam cobertores contaminados de propósito. Era uma arma
biológica.
Depois, vinha o trabalho forçado. A escravização indígena
foi praticada em larga escala no Brasil, especialmente no início da colonização
e nas regiões mais afastadas. Os bandeirantes paulistas foram caçadores de
indígenas. Entravam no sertão, atacavam aldeias, amarravam os sobreviventes e
traziam para vender como escravizados em São Paulo e no Rio de Janeiro.
E o tráfico de escravizados africanos? Imagine a viagem de
um navio negreiro. Homens, mulheres e crianças amontoados no porão, deitados em
prateleiras, acorrentados. O espaço é tão pequeno que ninguém consegue ficar em
pé. O calor é insuportável. As pessoas vomitam, defecam, urinam umas nas
outras. Doenças se espalham. Muitos morrem durante a travessia. Os corpos são
jogados ao mar, comida de tubarão.
O Brasil foi o maior destino de africanos escravizados nas
Américas. Dos cerca de 10 milhões de africanos que sobreviveram à travessia do
Atlântico, quase 5 milhões desembarcaram aqui. É o país com a maior população
negra fora da África. E o país que mais demorou a abolir a escravização: fomos
os últimos das Américas, em 1888.
Quem sobrevivia à viagem chegava ao Brasil e era vendido
como mercadoria. No mercado de escravizados, famílias eram separadas. Mães viam
filhas serem levadas para sempre. Pais nunca mais viam seus filhos. Depois,
vinha a plantação: o sol escaldante, o chicote do feitor, o trabalho do nascer
ao pôr do sol, colhendo cana ou café para enriquecer um senhor do outro lado do
oceano.
A violência física era tão extrema que precisava ser
espetacular. Servia de exemplo. O corpo açoitado, o corpo enforcado, o corpo
queimado, eram mensagens. "Olhem o que acontece com quem resiste. Olhem o
que acontece com quem é diferente. Submetam-se."
E essa violência não ficou no passado. Ela se reproduz hoje
nos corpos afrodescendentes mortos nas periferias. No Brasil em 2025, 79% das
pessoas mortas na periferia por morte violenta intencional são afrodescendentes.
os números provam isso. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de
2024 mostram que, no Brasil, 82% das pessoas mortas pela polícia são
negras. Um jovem negro tem quase 4 vezes mais chances de ser morto pela
polícia do que um branco. E não são só os civis que morrem. Entre os policiais
assassinados em 2025, 65,4% eram negros. Ou seja, a violência do estado mata
tanto quem está na favela quanto quem é colocado na linha de frente para 'fazer
a guerra'. A violência de ontem e a de hoje têm a mesma cor. A violência física
mudou de forma, mas continua mirando os mesmos corpos: os corpos que a colônia
já considerava descartáveis.
Apagando a Memória: A Destruição dos Saberes e da Cultura
Mas não bastava destruir os corpos. Era preciso destruir as
almas, as mentes, as memórias. Era preciso apagar qualquer vestígio de que
aquele mundo tinha existido.
Na Europa, a caça às bruxas destruiu um conhecimento
milenar: o saber das parteiras e curandeiras. Durante séculos, as mulheres
foram as médicas dos pobres. Sabiam qual folha servia para febre, qual raiz
aliviava a dor, qual chá impedia a gravidez. Com a perseguição, esse
conhecimento foi demonizado. Quem procurasse uma curandeira arriscava a vida. A
medicina oficial, dos homens de universidade, dos doutores com seus livros em
latim, tomou o lugar. O parto, que era um evento feminino, passou a ser controlado
por homens.
Nas Américas, a destruição foi ainda mais sistemática. Os
espanhóis queimaram bibliotecas inteiras dos astecas. Eram livros feitos de
casca de árvore, com desenhos e símbolos que contavam a história, a ciência, a
religião daquele povo. Os padres jogaram tudo na fogueira. "É coisa do
demônio", diziam.
No Brasil, os jesuítas tiveram um papel ambíguo. Por um
lado, protegiam os indígenas da escravização mais brutal. Por outro, destruíam
sua cultura. Catequizar era, antes de tudo, fazer o indígena esquecer quem era.
Proibiam as línguas nativas, obrigavam as crianças a falar português,
substituíam os rituais pela missa, os deuses pelos santos.
Os rituais foram proibidos. As línguas nativas foram
reprimidas. As crianças eram tiradas dos pais e educadas à força na fé cristã,
em espanhol ou português. A ideia era criar uma geração que tivesse vergonha de
sua própria cultura. Que olhasse para os avós e visse "selvagens",
não sábios.
Entre os africanos escravizados, a estratégia era misturar
as etnias de propósito. Se todos os escravizados de uma plantação fossem da
mesma região, falassem a mesma língua, eles poderiam se organizar, se revoltar.
Então, os traficantes separavam deliberadamente pessoas que falavam a mesma
língua. Assim, ninguém conseguia se comunicar direito. A diversidade
linguística, que podia ser uma riqueza, foi usada como arma de desintegração.
Mas a cultura resistia. Nos porões dos navios, nas senzalas,
nos fundos dos quintais, os africanos e seus descendentes inventaram jeitos de
manter sua memória viva. Transformaram seus orixás em santos católicos para
poder continuar rezando. Criaram o samba, o candomblé, a capoeira, formas de
resistência disfarçadas de dança, de religião, de luta. A memória não morreu,
mas teve que se esconder.
Hoje, essa memória resistente está sendo resgatada. As
universidades começam a ter cotas para afrodescendentes e indígenas. A história
da África passou a ser ensinada nas escolas. O candomblé e a umbanda
conquistaram algum respeito, embora ainda sofram ataques. É uma luta contra 500
anos de apagamento.
As Mulheres na Mira Dupla: Gênero e Raça como Ferramentas
de Opressão
Agora, precisamos falar de um ponto central: a situação das
mulheres indígenas e africanas. Se ser indígena ou africano já era um crime aos
olhos do colonizador, ser mulher indígena ou africana era um crime duplo.
Vamos detalhar isso, porque é fundamental para entender o
livro de Federici e para entender o Brasil.
Exploração Reprodutiva: O Ventre a Serviço do Capital
O sistema escravista precisava de mais escravizados. Trazer
gente da África era caro, muitos morriam na viagem. Então, os senhores
descobriram que era mais "lucrativo" fazer as mulheres escravizadas
terem filhos. Esses filhos já nasciam escravizados, propriedade do senhor.
A mulher africana teve seu útero transformado em fábrica de
mercadoria humana. Seu corpo gerava nova força de trabalho para as plantações.
Engravidar, parir, amamentar, tudo isso era supervisionado, controlado,
explorado. Não havia escolha. Não havia maternidade como afeto; havia
maternidade como função econômica.
No Brasil, isso foi ainda mais perverso porque os senhores
incentivavam as "crias" da casa grande. Meninas negras eram separadas
das mães e criadas junto com as sinhazinhas, para servir. Meninos afrodescendentes
viravam moleques de recado. A miscigenação forçada produziu uma população
mestiça que até hoje carrega as marcas dessa violência.
Exploração Sexual: O Corpo como Campo de Batalha
O estupro foi uma arma de guerra e de dominação cotidiana.
Os colonizadores estupravam mulheres indígenas como forma de aterrorizar as
aldeias, de mostrar quem mandava. Estupravam mulheres africanas nas senzalas,
nos engenhos, nas casas grandes.
Dessa violência, nasciam crianças. Crianças que muitas vezes
eram rejeitadas pelo pai (o senhor branco) e pela comunidade materna (que via
ali a marca da violência). Nasceu daí uma população mestiça, que carregava no
corpo a história dessa violência original.
A sexualidade das mulheres negras e indígenas foi
hipersexualizada na imaginação colonial. Criou-se o mito da mulata sensual, da
índia dócil e disponível. Esses estereótipos serviam para justificar o abuso:
"elas é que provocam", "elas gostam". Até hoje,
infelizmente, esses estereótipos têm efeitos reais na violência que mulheres
negras e indígenas sofrem. A cada quatro minutos, uma mulher é violentada no
Brasil. As mulheres negras são as principais vítimas de violência doméstica e
de feminicídio.
Trabalho Forçado: A Dupla Jornada nasceu aqui
As mulheres escravizadas trabalhavam nas plantações junto
com os homens, sob o mesmo sol, o mesmo chicote. Mas, quando o sol se punha e
os homens podiam, em tese, descansar, o trabalho delas continuava.
Elas precisavam cozinhar para os outros escravizados, cuidar
das crianças, lavar roupa, às vezes também servir na casa grande. A dupla
jornada de trabalho, que as feministas denunciam até hoje, nasceu nesse
contexto brutal. A mulher negra escravizada nunca tinha descanso.
Hoje, as mulheres negras são a maioria das trabalhadoras
domésticas no Brasil. Uma profissão que ainda tem baixos salários, pouca
formalização e é herdeira direta do tempo da escravização. A luta das
trabalhadoras domésticas por direitos é uma luta contra 500 anos de exploração.
O Paralelo Invisível com as Mulheres Europeias
Aqui, Federici faz uma observação brilhante. Enquanto as
mulheres indígenas e africanas eram exploradas até o limite de suas forças no
trabalho braçal, o que acontecia com as mulheres brancas na Europa e no Brasil?
Acontecia um processo diferente, mas complementar. As
mulheres brancas (especialmente as de classes médias e altas) estavam sendo
confinadas ao espaço doméstico. Estavam sendo transformadas no "anjo do
lar". Sua função era ser esposa submissa, mãe dedicada, dona de casa
exemplar. Seu útero também era controlado, mas para gerar filhos legítimos que
herdariam a propriedade da família. Sua sexualidade era vigiada para garantir a
pureza da linhagem.
Ou seja, o capitalismo e o colonialismo criaram uma divisão
racial do patriarcado. As mulheres brancas foram enclausuradas num pedestal (o
pedestal da fragilidade, da pureza, da domesticidade). As mulheres não-brancas
foram jogadas na lama da exploração mais brutal.
Mas ambas tiveram seus corpos controlados. Ambas perderam
autonomia. Ambas foram vítimas de um sistema que precisava regular a reprodução
e a sexualidade feminina para funcionar. A diferença é que um grupo era
"protegido", na verdade, vigiado dentro de casa, enquanto o outro era
explorado até a morte no campo.
No Brasil, essa divisão racial do patriarcado é ainda mais
complexa porque temos uma forte presença de mulheres imigrantes europeias
pobres que vieram trabalhar como colonas nas fazendas do Sul e Sudeste. Essas
mulheres também sofriam opressão de classe, mas sua brancura lhes dava algum
status diante das mulheres negras e indígenas.
O Branqueamento da Sociedade: A Importação de
Trabalhadores Brancos Europeus
Aqui chegamos a um ponto fundamental para entender o Brasil:
o projeto de branqueamento.
Quando a escravização foi abolida, em 1888, os
ex-escravizados foram jogados à própria sorte. Não receberam terra, não
receberam indenização, não receberam educação. Foram abandonados nas cidades e
no campo, competindo por trabalhos precários.
Ao mesmo tempo, o governo brasileiro começou a incentivar a
vinda de imigrantes europeus. Italianos, alemães, espanhóis, portugueses foram
trazidos em massa para trabalhar nas fazendas de café do Sudeste e para
colonizar o Sul do país.
Por que trazer europeus se havia tanta mão de obra
disponível no país, formada por afrodescendentes libertos e seus descendentes?
A resposta é racismo puro. A elite brasileira queria
"branquear" a população. Achava que o país era atrasado porque tinha
muitos afrodescendentes e mestiços. Acreditava que, trazendo europeus, o sangue
ia se misturando e, com o tempo, o Brasil se tornaria um país branco,
civilizado, europeu.
Esses imigrantes europeus vieram em condições muito
difíceis. Muitos eram camponeses pobres que fugiam da miséria na Europa. Aqui,
enfrentaram trabalho duro, dívidas com os fazendeiros, doenças. Também eram
oprimidos pela classe dominante. Mas havia uma diferença fundamental: eles eram
brancos.
Por serem brancos, alguns tiveram acesso a terras
(especialmente no Sul, onde foram criadas colônias de imigrantes). Tiveram
acesso a empregos melhores. Podiam ascender socialmente de um jeito que afrodescendentes
e indígenas não podiam. A brancura funcionava como um capital simbólico que
abria portas.
Esse processo criou uma hierarquia racial muito clara na
sociedade brasileira: no topo, os brancos (descendentes de europeus); no meio,
os mestiços (que podiam tentar "passar por brancos"); na base, afrodescendentes
e indígenas.
E até hoje essa hierarquia se reproduz. Os afrodescendentes
são a maioria nos empregos mais precários, nas moradias mais pobres, nas
estatísticas de violência. Os brancos são a maioria nas universidades, nos
cargos de chefia, nos bairros nobres. O mito da democracia racial, que dizia
que no Brasil não há racismo, foi uma cortina de fumaça para esconder essa
triste realidade.
Os Três Pilares da Violência Brasileira: Etnia, Classe e
Patriarcado
Agora podemos juntar todas as peças e entender a
complexidade da sociedade brasileira.
Nossa sociedade foi constituída a partir de três violências
fundamentais:
1. A violência contra os povos originários
Os indígenas que viviam aqui foram expropriados de suas
terras, tiveram sua cultura destruída, foram escravizados, foram mortos por
doenças e por armas. Essa violência continua hoje com a invasão de terras
indígenas por garimpeiros, madeireiros, grileiros. Continua com a falta de
assistência à saúde que mata crianças yanomami. Continua com o preconceito que
trata o indígena como "atrasado".
2. A violência contra os africanos e seus descendentes
Quase 5 milhões de africanos foram sequestrados e trazidos à
força para o Brasil. Foram escravizados por séculos. Seus corpos foram
mercadoria, seu trabalho foi roubado, sua cultura foi perseguida. Depois da
abolição, foram abandonados e substituídos por imigrantes europeus no mercado
de trabalho. Até hoje, o racismo estrutural mantém a população negra na base da
pirâmide social.
3. A violência contra as mulheres
As mulheres indígenas, negras e brancas pobres sofreram e
sofrem violências específicas: exploração sexual, controle do corpo, dupla
jornada de trabalho, subordinação doméstica. O patriarcado é um sistema de
opressão que atravessa todas as raças e classes, embora atinja de formas
diferentes cada grupo.
E a violência de classe, que atravessa tudo
Os trabalhadores brancos europeus que vieram como imigrantes
também eram oprimidos. Eram explorados pelos fazendeiros, viviam em condições
precárias, não tinham direitos. A classe trabalhadora no Brasil sempre foi
explorada, independentemente da cor. Mas a cor definia o grau de exploração e
as chances de escapar dela.
Esses três pilares, etnia, classe e patriarcado, não
funcionam separadamente. Eles se combinam, se reforçam, criam situações
específicas. Uma mulher negra e pobre sofre uma opressão diferente de um homem
branco pobre, que sofre uma opressão diferente de uma mulher indígena, e assim
por diante.
Entender essa complexidade é fundamental para não cair em
simplificações. Não adianta lutar apenas contra o racismo sem lutar contra o
capitalismo. Não adianta lutar apenas contra o patriarcado sem lutar contra o
racismo. Também não basta lutar apenas contra o capitalismo, sem lutar contra o
racismo e o patriarcado. As opressões estão entrelaçadas, e a luta por
libertação precisa ser igualmente entrelaçada.
A Terra e o Corpo: Duas Faces da Mesma Moeda
Vamos fazer uma imagem mental. Imagine os campos da
Inglaterra no século XVI. Cercas de madeira ou pedra sendo erguidas. Onde antes
era terra comum, onde qualquer um podia entrar, agora é propriedade privada.
Quem tentar entrar, é preso. É a "cercação" dos campos.
Agora, imagine o corpo de uma mulher africana no século
XVII, no Brasil. Esse corpo não lhe pertence. Se ele sentir fome, vai comer o
que o senhor der. Se quiser ter um filho, vai ter se o senhor permitir (ou
forçar). Se quiser andar para longe, vai ser caçada como fugitiva. Esse corpo
também foi "cercado". Foi transformado em propriedade privada de
alguém.
Federici nos convida a ver essa analogia: a cerca que fecha
o campo na Europa e o chicote que marca o corpo na América são a mesma coisa.
São instrumentos da mesma violência.
No Brasil, essa analogia é ainda mais forte porque a terra
sempre foi o centro do conflito. A Lei de Terras de 1850, por exemplo, foi
feita para impedir que os ex-escravizados tivessem acesso à terra. Ela
determinou que a única forma de adquirir terra era comprando. Como os afrodescendentes
libertos não tinham dinheiro, ficaram excluídos. As terras públicas foram
vendidas a preços baixos para fazendeiros e imigrantes europeus.
Até hoje, a reforma agrária é uma das bandeiras mais
importantes no Brasil. Até hoje, latifundiários matam lideranças camponesas e
indígenas para manter suas terras.
A acumulação primitiva do capital — aquela violência que deu
partida ao sistema — aconteceu em três frentes ao mesmo tempo.
Primeiro, na terra: roubaram os campos dos camponeses,
cercaram, transformaram em propriedade particular.
Segundo, no corpo: roubaram a energia de quem trabalhava, a
capacidade reprodutiva das mulheres, transformaram seres humanos em mercadoria.
Terceiro, nos territórios colonizados: saquearam o ouro, a
prata, o pau-brasil. Arrancaram as riquezas da terra e levaram pra Europa. O
capitalismo não surgiu do nada. Ele foi construído com sangue, suor e ouro
roubado.
O corpo do escravizado é uma mercadoria. Compra-se e
vende-se como açúcar ou café. O corpo da mulher (branca ou negra) é uma máquina
de produzir a principal mercadoria de todas: a força de trabalho, ou seja, os
trabalhadores que vão gerar riqueza para o capitalista.
Quando a gente entende isso, fica claro porque o controle
dos corpos sempre foi tão central na história. Não é só uma questão de moral,
de religião, de costumes. É uma questão econômica fundamental. Quem controla os
corpos, controla a reprodução da vida. E quem controla a reprodução da vida,
controla a sociedade inteira.
Refazendo a Dinâmica Relacional: Como Podemos Transformar
Essa Sociedade
Se a violência foi construída na história, ela pode ser
desconstruída na história. Se nossa cultura foi imposta a partir de uma
dinâmica de dominação e sujeição, podemos construir uma nova dinâmica baseada na
ética, na igualdade, na liberdade.
Mas isso não vai acontecer automaticamente. Precisa de luta.
Precisa de consciência. Precisa de ação coletiva.
Primeiro passo: reconhecer a violência
A sociedade brasileira tem uma enorme dificuldade de olhar
para seu passado violento e para seu presente violento. Preferimos o mito da
democracia racial, o mito da cordialidade, o mito de que "somos todos
irmãos". Mas os números desmentem esse mito todos os dias.
Reconhecer a violência é o primeiro passo para superá-la. É
preciso dizer: sim, houve genocídio indígena. Sim, houve escravização brutal.
Sim, as mulheres sempre foram oprimidas. Sim, o racismo e o machismo existem e
matam. Sim, a desigualdade de classe é imensa. Não adianta virar o rosto.
Segundo passo: entender as origens
Este texto tentou contribuir para esse passo. Entender que a
violência contra as mulheres na Europa (a caça às bruxas) e a violência contra
os povos colonizados nas Américas são partes do mesmo processo histórico: o
nascimento do capitalismo. Entender que o Brasil foi forjado nessa violência e
que ela se reproduz até hoje em novas formas.
Entender também que as opressões se entrelaçam. Não dá para
combater o racismo sem combater o patriarcado. Não dá para combater o
patriarcado sem combater a exploração de classe. As lutas são uma só.
Mas tem uma armadilha aí. Não existe solução para a
sociedade que fique dentro desse enquadre, dessa dinâmica de dominação e
sujeição. Porque esse é o enquadre hierarquizado da sociedade de classes,
racista, patriarcal e colonizadora. A gente precisa pensar fora da caixa.
Precisamos inventar outras dinâmicas relacionais.
Não adianta — embora seja importante — colocar pessoas
negras, mulheres ou indígenas em espaços de poder se for apenas para ocupar o
mesmo lugar, com a mesma lógica, reproduzindo as mesmas violências. Incluir
oprimidos na estrutura que os oprime não transforma a estrutura.
Por outro lado, é fundamental que afrodescendentes,
mulheres, indígenas ocupem esses espaços. Porque precisamos enxergar o mundo a
partir das diversas perspectivas dos atores sociais. Quem nunca esteve na mesa
não pode construir uma nova mesa. Mas o objetivo final não é sentar na mesa do
colonizador. É construir outra mesa, com outra lógica, onde ninguém domine
ninguém.
A luta não é por um lugar no sistema. A luta é por outro
sistema.
Terceiro passo: reconstruir os laços comunitários
Federici mostra que o capitalismo destruiu as formas
comunais de vida para impor o individualismo, a competição, o isolamento. Na
Idade Média, as pessoas viviam em comunidade. Os commons eram espaços de
cooperação. As mulheres tinham redes de solidariedade.
Hoje, precisamos reconstruir esses laços. Não para voltar ao
passado, mas para construir um futuro diferente. Isso significa fortalecer os
movimentos sociais, as associações de bairro, as cooperativas, as comunidades
tradicionais. Significa aprender com os indígenas e quilombolas, que mantiveram
formas de vida baseadas na coletividade. Significa criar espaços onde as
pessoas se ajudam, onde o lucro não é o objetivo principal, onde a dignidade de
todos é respeitada.
Quarto passo: lutar por políticas públicas
Não adianta só mudar a cabeça das pessoas. É preciso mudar
as estruturas. Isso significa lutar por:
- Demarcação
das terras indígenas e quilombolas.
- Reforma
agrária para garantir terra a quem nela trabalha.
- Cotas
raciais nas universidades e no serviço público.
- Políticas
de valorização do trabalho doméstico e de cuidado.
- Creches
públicas para que as mulheres possam trabalhar fora sem culpa.
- Salário
igual para trabalho igual, independentemente de gênero ou raça.
- Proteção
às mulheres vítimas de violência.
- Fim
do genocídio da juventude negra.
- Educação
antirracista e feminista nas escolas.
Quinto passo: transformar as relações cotidianas
A revolução não acontece só nos grandes eventos. Acontece
também no dia a dia, nas pequenas relações. No homem que aprende a lavar a
louça sem ser pedido. Na mulher que não aceita mais ser interrompida nas
reuniões. No pai que cria a filha para ser livre, não para agradar. No branco
que reconhece seus privilégios e se coloca ao lado da luta negra. No rico que
luta contra a desigualdade mesmo que isso signifique perder parte do que tem.
Mudar a dinâmica relacional é isso: é aprender a se
relacionar de outro jeito. Não mais baseado na dominação e na sujeição, mas no
reconhecimento mútuo. Não mais no medo e na violência, mas na ética, no cuidado
e na solidariedade.
Por que essa história importa até hoje?
Pode parecer que falamos de coisas muito distantes, de
séculos atrás. Mas a história que Silvia Federici conta em "Calibã e a
Bruxa" é a história do presente.
Quando uma mulher é assassinada porque seu companheiro
"não aceitava o fim do relacionamento", isso tem a ver com a ideia de
que o corpo feminino é uma propriedade.
Quando uma trabalhadora doméstica ganha salário baixo e tem
seus direitos desrespeitados, isso tem a ver com a herança da escravização, que
colocou as mulheres negras no trabalho doméstico como algo "natural",
quase não reconhecido como trabalho.
Quando um indígena tem sua terra invadida por garimpeiros ou
madeireiros, isso tem a ver com a lógica colonial que nunca terminou, que ainda
vê os povos originários como obstáculos ao "progresso".
Quando um jovem afrodescendente é morto na entrada da
favela, isso tem a ver com a ideia de que corpos afrodescendentes são
descartáveis, ideia que vem direto do tempo da escravização.
Quando uma mulher tem dificuldade de acessar métodos
contraceptivos ou é julgada por fazer um aborto, isso tem a ver com a luta
histórica pelo controle do útero feminino.
Quando um trabalhador é explorado, ganha salário miserável,
não tem tempo para viver, isso tem a ver com a lógica capitalista que
transforma tudo em mercadoria, inclusive a força de trabalho.
A violência que fundou o Brasil não ficou no passado. Ela se
reproduz todos os dias, em novas roupagens, mas com a mesma essência: a
dominação de uns sobre outros, a exploração do trabalho alheio, o controle dos
corpos, a destruição das culturas diferentes.
Mas a resistência também continua. Os quilombos de hoje, as
terras indígenas demarcadas, as marchas de mulheres negras, o movimento
feminista, o movimento LGBTI+, os movimentos de luta pela terra, as ocupações
urbanas, o movimento de trabalhadores sem-teto, as greves, as manifestações, todos
eles são herdeiros daquelas mulheres queimadas nas fogueiras, daqueles
indígenas que resistiram à espada, daqueles africanos que mantiveram sua
cultura viva mesmo na senzala, daqueles imigrantes europeus que sonharam com
uma vida melhor.
A luta é a mesma: a luta para que o corpo seja território
livre. Para que a vida não seja transformada em mercadoria. Para que a
reprodução da sociedade não seja controlada por alguns em benefício próprio.
Para que as relações entre as pessoas sejam baseadas na ética, na solidariedade
e na cooperação, não na dominação e na sujeição.
Entender essa história é entender que o capitalismo não é
apenas um sistema econômico. É um sistema que molda corpos, destrói culturas,
inventa raças e gêneros hierarquizados, controla a sexualidade, regula a
reprodução. É um sistema que, para nascer, precisou queimar bruxas e escravizar
povos inteiros. E que, para se manter, continua matando, explorando, oprimindo.
E entender isso é também entender que outro mundo é
possível. Porque se o capitalismo foi feito na história, com violência e
sangue, ele pode ser desfeito na história, com luta e esperança. O corpo que
foi território de conquista pode voltar a ser território de liberdade. A
relação que foi baseada na dominação pode ser refeita baseada na cooperação. A
sociedade que foi construída sobre a violência pode ser reconstruída sobre a
paz.
Essa é a tarefa do nosso tempo. E ela começa com cada um de
nós, no nosso dia a dia, nas nossas relações, nas nossas escolhas. Mas não
termina aí. Ela precisa ser coletiva, organizada, permanente. Precisa juntar as
lutas de classe, raça e gênero numa só grande luta por libertação.
Porque, no fundo, todas essas opressões têm a mesma raiz: um
sistema que coloca o lucro acima da vida, a propriedade acima da dignidade, o
poder acima do afeto. E é contra esse sistema que precisamos lutar.
Juntas e juntos, podemos refazer a dinâmica relacional.
Podemos construir uma sociedade onde nenhuma mulher seja perseguida ou
silenciada, nenhum povo originário seja invadido ou desumanizado, e nenhuma
pessoa negra seja escravizada. Uma sociedade onde todos os corpos possam
existir em liberdade, dignidade e pertencimento.
Este texto foi baseado nos capítulos 4 e 5 do livro
"Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva", de Silvia
Federici, e adaptado para refletir a realidade brasileira. Uma obra essencial
para quem quer entender as raízes profundas da opressão de gênero, raça e
classe no mundo moderno.
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