quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026


 

O Berço do Poder: Como a Teoria do Apego Revela a Instalação do Controle Social desde a Primeira Infância

Uma análise aprofundada sobre como as relações de apego na infância moldam não apenas nossa psicologia individual, mas também nossa relação com a autoridade, a obediência e as estruturas de poder ao longo da vida.

 

A Política Começa no Colo

Quando pensamos em "poder" e "controle social", geralmente imaginamos instituições: o Estado, a polícia, as leis, o sistema econômico, o chefe autoritário. Imaginamos forças externas que nos pressionam, nos regulam e nos moldam. Raramente olhamos para dentro. Raramente consideramos que o poder mais duradouro talvez seja aquele que se instala em nós antes mesmo que tenhamos consciência de nós mesmos.

A teoria do apego, desenvolvida pelo psiquiatra e psicanalista britânico John Bowlby entre as décadas de 1950 e 1970, é conhecida principalmente como uma teoria sobre o desenvolvimento emocional infantil. Mas suas implicações vão muito além da psicologia clínica. Quando examinada à luz da filosofia política e da crítica social, a teoria do apego revela-se uma descrição precisa de como o poder e o controle se instalam na subjetividade humana desde o berço, um verdadeiro "manual de instruções" da servidão voluntária em sua fase mais inicial e profunda.

Este artigo propõe uma jornada por essa interseção entre psicologia do desenvolvimento, teoria crítica e filosofia política, buscando compreender como as primeiras relações de cuidado moldam não apenas seres humanos, mas cidadãos, súditos e sujeitos.

 

A Arquitetura do Apego: Sobrevivência Como Primeira Lição de Poder

1.1 O Imperativo Biológico da Conexão

Para compreender a dimensão política do apego, é preciso primeiro entender sua base biológica. Bowlby, influenciado pela etologia e pela teoria evolucionista, propôs que os seres humanos nascem com um sistema comportamental inato destinado a manter proximidade com figuras de cuidado. Este sistema, que ele chamou de sistema de apego, foi selecionado evolutivamente porque aumentar as chances de sobrevivência da prole em ambientes ancestrais hostis.

Em termos simples: um bebê humano, ao contrário de muitos outros mamíferos, é completamente dependente por um longo período. Sem a proteção e o cuidado de adultos, sua sobrevivência é impossível. A natureza, então, dotou o bebê de mecanismos para garantir essa proteção: choro, sorriso, busca de contato, protesto diante da separação. São comportamentos automáticos, não escolhidos, destinados a uma única finalidade: manter o cuidador por perto quando for necessário atender a alguma necessidade básica.

O que parece uma descrição puramente biológica já carrega uma primeira implicação política fundamental: a sobrevivência depende da conexão, e a conexão depende da resposta da outra pessoa. O bebê não tem escolha. Ele precisa da pessoa cuidadora, e fará o que for necessário para manter esse vínculo.

 

1.2 A Natureza Incondicional do Apego

Uma das descobertas mais perturbadoras de Bowlby é que a criança desenvolve apego à pessoa cuidadora mesmo quando essa cuidadora é negligente, insensível ou abusiva. O apego não é seletivo no sentido de escolher a "melhor" pessoa cuidadora; ele é um imperativo. A criança se apega à figura disponível porque, do ponto de vista da sobrevivência, qualquer vínculo é melhor que nenhum vínculo.

A filósofa Judith Butler, em seus trabalhos sobre precariedade e vida psíquica do poder, oferece uma leitura iluminadora desse fenômeno. Butler observa que o bebê pode buscar conforto justamente na figura que lhe causa medo, uma situação complexa porque a pessoa que deveria proteger a gente é a mesma que nos machuca, mas é comum em contextos de cuidado ambivalente ou abusivo. Ela escreve sobre a "vinculação apaixonada à subordinação", um conceito que ajuda a entender como podemos nos tornar dependentes exatamente daqueles que nos subordinam.

Essa dinâmica, observada no berço, é a matriz de fenômenos políticos posteriores. A subordinação a líderes autoritários, a lealdade a instituições que nos exploram, a dificuldade de romper com vínculos destrutivos, tudo isso encontra um protótipo na relação inicial de apego.

 

1.3 A "Situação Estranha" e os Estilos de Apego

A psicóloga Mary Ainsworth, colaboradora de Bowlby, desenvolveu um procedimento experimental chamado "Situação Estranha" que revolucionou o estudo do apego. O experimento consiste em observar a resposta de bebês (entre 12 e 18 meses) a uma série de separações e reencontros com a mãe em um ambiente desconhecido.

A partir dessas observações, Ainsworth identificou três padrões principais de apego, posteriormente ampliados para quatro. Cada um deles representa uma estratégia diferente de lidar com a disponibilidade, ou indisponibilidade, da figura de cuidado. E cada um deles carrega implicações profundas para a formação da subjetividade política.

 

Os Estilos de Apego Como Matrizes da Relação com a Autoridade

2.1 Apego Seguro: A Confiança Como Fundamento da Autonomia

No apego seguro, a criança utiliza a pessoa cuidadora como "base segura" para explorar o ambiente. Quando a cuidadora se ausenta, a criança pode mostrar desconforto, mas se acalma rapidamente ao reencontrá-la e retoma a exploração. Esse padrão ocorre quando a cuidadora é consistentemente sensível e responsiva às necessidades da criança.

A mensagem internalizada pela criança é: "Quando preciso, você está disponível. Minhas necessidades são legítimas. Posso buscar conforto sem medo de rejeição. Posso explorar o mundo porque sei que tenho um porto seguro para onde voltar."

Em termos políticos, o apego seguro pode ser visto como a base para uma relação saudável com a autoridade e com a coletividade. A pessoa que desenvolveu apego seguro tende a:

  • Confiar nos outros sem perder a autonomia.
  • Buscar ajuda quando necessária, sem sentir-se humilhada ou dependente.
  • Estabelecer limites claros em relacionamentos.
  • Questionar autoridades quando necessário, sem medo paralisante de retaliação.
  • Participar de coletivos mantendo sua individualidade.

É o modelo do ser humano crítico – alguém capaz de cooperar sem se submeter, de atender um pedido quando justo e não atender quando necessário.

2.2 Apego Inseguro-Evitativo: A Autonomia Como Defesa

No apego evitativo, a criança parece indiferente à presença ou ausência da mãe. Não busca contato, não demonstra preferência. Nos reencontros, pode ignorar ativamente a figura de cuidado. Esse padrão emerge quando o cuidador consistentemente rejeita ou se afasta diante das demonstrações de necessidade da criança.

Estudos fisiológicos revelam o paradoxo do apego evitativo: embora a criança pareça calma por fora, sua frequência cardíaca está acelerada e seus níveis de cortisol (hormônio do estresse) estão elevados. A aparente indiferença é, na verdade, uma defesa contra a dor da rejeição. A criança aprendeu que expressar necessidade leva à frustração, então suprime a expressão, mas o corpo continua sofrendo.

A mensagem internalizada é: "Não posso confiar que minhas necessidades serão atendidas. É melhor não precisar. É melhor não sentir. Eu dou conta sozinho."

Em termos políticos, o apego evitativo prepara o terreno para:

  • Dificuldade de pedir ajuda, mesmo quando necessário.
  • Isolamento e pseudoindependência.
  • Incapacidade de reconhecer a interdependência como condição humana.
  • Submissão silenciosa a condições adversas, sem protesto.
  • Dificuldade de formar vínculos coletivos genuínos.

É o modelo do ser humano isolado – aquele que enfrenta sozinho as adversidades do sistema, sem reclamar, sem se organizar, sem acreditar que a coletividade possa fazer diferença.

 

2.3 Apego Inseguro-Resistente (Ambivalente): A Ansiedade Como Moeda de Troca

No apego resistente, a criança mostra intenso desconforto na separação, mas no reencontro alterna entre busca de contato e resistência raivosa. Não consegue se acalmar nem retomar a exploração. Esse padrão ocorre quando o cuidador é inconsistente, às vezes responsivo, às vezes intrusivo ou negligente.

A mensagem internalizada é complexa e contraditória: "Não sei se posso contar com você. Preciso manter você perto, mas não confio que ficará. Minhas necessidades só são atendidas se eu me agarrar a você com força."

Em termos políticos, o apego resistente pode levar a:

  • Relações de dependência ambivalente com figuras de autoridade.
  • Oscilação entre idealização e desvalorização de líderes ou instituições.
  • Ansiedade constante em relação à aceitação e pertencimento.
  • Dificuldade de encontrar posição equilibrada entre submissão e rebeldia.
  • Atração por líderes que alternam promessas de salvação e ameaças de abandono.

É o modelo do ser humano ansioso – aquele que oscila entre a adesão fervorosa e a desconfiança paranoica, preso em uma relação de dependência emocional com o poder.

 

2.4 Apego Desorganizado: O Terror Sem Saída

Posteriormente, pesquisadores identificaram um quarto padrão: o apego desorganizado. Nessas crianças, observam-se comportamentos contraditórios, congelamento, movimentos desconexos. É o padrão associado a situações de trauma, abuso ou medo intenso. A figura de cuidado é, ao mesmo tempo, a fonte de segurança e a fonte de ameaça, uma contradição insolúvel para o sistema de apego.

A mensagem internalizada é devastadora: "A pessoa que deveria me proteger é a mesma que me ameaça. Não há saída. Não há estratégia que funcione."

Em termos políticos, o apego desorganizado pode estar na raiz de:

  • Paralisia diante de situações de opressão.
  • Dificuldade extrema de confiar em qualquer autoridade ou instituição.
  • Reprodução inconsciente de dinâmicas abusivas.
  • Suscetibilidade a discursos que prometem ordem a qualquer custo.
  • Dificuldade de construir narrativas coerentes sobre si e sobre o mundo.

É o modelo do ser humano traumatizado – aquele para quem o poder é sempre uma experiência de terror, e para quem a política pode ser tanto uma promessa de redenção quanto uma ameaça de repetição do trauma.

 

A Internalização do Controle – Como o Poder se Torna Desejo

3.1 Para Além da Obediência: A Incorporação das Regras

O psicanalista francês Jacques Lacan, contemporâneo de Bowlby, desenvolveu uma teoria sobre como a lei e a autoridade são internalizadas na psique. Para Lacan, a entrada na ordem simbólica, a aquisição da linguagem e da cultura, implica necessariamente uma subordinação à "lei do pai" ou à "função paterna", que representa as regras e proibições fundamentais da sociedade patriarcal que vivemos.

Mas o que a teoria do apego acrescenta a essa compreensão é a dimensão pré-simbólicacorporalafetiva dessa internalização. Antes que a criança compreenda qualquer regra verbalmente, ela já aprendeu, no corpo, que:

  • Certas expressões de necessidade são aceitas, outras são rejeitadas.
  • A disponibilidade do outro depende de seu próprio comportamento.
  • O amor e a segurança têm condições implícitas.
  • A conexão exige sacrifício da espontaneidade.

Essas lições não são ensinadas por palavras. São gravadas diretamente no sistema nervoso, nas respostas emocionais, nos padrões de ativação e relaxamento. São, para usar uma expressão do filósofo Gilles Deleuze, "afetos incorporados", disposições que se tornam parte da própria textura do ser.

3.2 A Contribuição de Lukács: Reificação e Subjetividade

O filósofo húngaro György Lukács, em sua obra seminal História e Consciência de Classe (1923), desenvolveu o conceito de reificação para descrever como as relações sociais no capitalismo assumem a forma de relações entre coisas. Lukács argumentava que a mercadoria não é apenas um objeto econômico, mas uma forma que penetra toda a consciência, transformando a percepção que temos de nós mesmos e dos outros.

O que a teoria do apego permite enxergar é que a reificação começa muito antes da consciência adulta. Ela começa quando o bebê aprende a se ver através dos olhos do cuidador, a se moldar para ser visto, a se controlar para ser aceito. A criança pequena, em sua busca por sobrevivência afetiva, já está experimentando uma forma primitiva de coisificação de si mesma: ela aprende a se apresentar como ela considera objeto adequado ao desejo do outro, a suprimir aspectos de si que ela acha que não se encaixam no que o cuidador pode acolher.

Essa dinâmica, repetida milhões de vezes em milhões de berços, cria uma população de adultos para quem a adaptação ao outro é uma segunda natureza, anterior à própria linguagem. Para quem a obediência às expectativas alheias é tão automática quanto respirar. Para quem o conflito e a divergência são vividos como ameaças de aniquilação, porque ecoam aquela ameaça primordial de perda do amor e da segurança.

 

3.3 O Conceito de "Otimismo Cruel" em Lauren Berlant

A teórica cultural Lauren Berlant cunhou uma expressão que ilumina essa dinâmica de forma brilhante: "otimismo cruel" (cruel optimism). Berlant descreve situações em que aquilo que desejamos está intrinsicamente ligado à fonte de nosso sofrimento, situações em que a própria relação que nos promete realização é a mesma que nos mantém presos em condições de opressão.

O vínculo de apego, especialmente quando inseguro, é o protótipo do otimismo cruel. A criança deseja o amor e a segurança do cuidador, mas esse mesmo cuidador pode ser a fonte de ansiedade, rejeição ou medo. No entanto, porque o vínculo é necessário para a sobrevivência, a criança não pode simplesmente abandoná-lo. Ela precisa manter a esperança, precisa continuar desejando, precisa se adaptar, mesmo que isso signifique sacrificar partes fundamentais de si mesma.

Na vida adulta, esse padrão se repete em múltiplos contextos: relações amorosas abusivas, empregos que adoecem, vínculos com líderes autoritários, lealdade a instituições que exploram. Em todos esses casos, há um elemento de "otimismo cruel": a promessa de realização está justamente no que nos destrói, e a dificuldade de romper vem da impossibilidade de imaginar outra forma de existir.

 

A Família Como Primeira Instituição de Poder

4.1 Foucault e o Poder Disciplinar

O filósofo Michel Foucault revolucionou a teoria do poder ao mostrar que as sociedades modernas não funcionam principalmente pela repressão violenta, mas pela disciplina – pela formação de corpos e almas que internalizam as regras e se autovigiam. Em obras como Vigiar e Punir (1975) e História da Sexualidade (1976), Foucault analisa como instituições como a escola, o exército, a fábrica e a prisão produzem "corpos dóceis", sujeitos que obedecem não por medo do castigo, mas por terem incorporado a vigilância como parte de si mesmos.

Mas onde começa essa produção de corpos dóceis? Foucault aponta para a família como uma "ilha de poder soberano" dentro do arquipélago disciplinar. Em seus cursos sobre o poder psiquiátrico, ele descreve a família como uma instituição híbrida, que combina elementos do poder soberano (a autoridade incontestável do pai) com funções disciplinares (a normalização dos comportamentos).

A teoria do apego permite enxergar com precisão como essa primeira disciplina opera. Não através de regras explícitas ou castigos formais, mas através da gestão da disponibilidade afetiva. A criança aprende que certos comportamentos atraem proximidade, outros atraem distanciamento. Aprende a modular sua expressão para maximizar o contato e minimizar a rejeição. Aprende que o amor é contingente, que o pertencimento exige conformidade.

 

4.2 Controle Psicológico e Autonomia

A pesquisa contemporânea em psicologia do desenvolvimento distingue duas formas de controle parental:

controle comportamental envolve regras, limites e supervisão, elementos necessários para a segurança e socialização da criança, especialmente quando aplicados de forma consistente e razoável. Trata-se da ética do cuidado, da liberdade sem permissividade e limites sem sujeição.

controle psicológico, por outro lado, envolve a manipulação do mundo emocional da criança: retirada de amor, indução de culpa, constrangimento, invasão da privacidade, desrespeito à individualidade. É uma forma de poder que age diretamente sobre a subjetividade, moldando não apenas o comportamento, mas os sentimentos, pensamentos e desejos. Trata-se de um relacionamento fundado no medo, na culpa e na vergonha.

Estudos longitudinais, como os conduzidos por Barbara Oudekerk e colaboradores na Universidade da Virgínia, mostram que o controle psicológico na adolescência está associado a dificuldades significativas nos relacionamentos adultos, menor capacidade de assertividade, maior dependência emocional, dificuldade de estabelecer intimidade genuína.

O que esses estudos revelam é que o poder exercido nas relações íntimas de cuidado tem efeitos duradouros sobre a capacidade de autonomia relacional, justamente a capacidade necessária para uma participação política crítica e independente.

 

Servidão Voluntária – A Antiga Pergunta, Nova Resposta

5.1 O Problema de La Boétie

Em meados do século XVI, o filósofo francês Étienne de La Boétie, com apenas 18 anos, escreveu um pequeno texto que se tornaria um clássico do pensamento político: o Discurso da Servidão Voluntária. Nele, La Boétie formula uma pergunta que atravessa os séculos:

"Por que os povos aceitam a tirania? Por que tantos se submetem a um único homem, quando poderiam simplesmente recusar-se a obedecer?"

A resposta de La Boétie é complexa e antecipa muitas análises posteriores. Ele fala do costume, do hábito, da educação que nos acostuma à submissão desde a infância. Fala do fascínio que o poder exerce sobre os súditos. Fala da cadeia de interesses que liga os oprimidos aos opressores.

Mas falta a La Boétie – como faltou a tantos pensadores políticos até o século XX – uma compreensão detalhada dos mecanismos psíquicos dessa servidão. Como exatamente o hábito da obediência se forma? Como a submissão se torna desejável?

5.2 A Resposta da Teoria do Apego

A teoria do apego oferece uma resposta precisa a essas perguntas. A servidão voluntária começa quando a criança aprende que:

  • O amor e a segurança não são incondicionais, mas dependem de seu comportamento.
  • A expressão espontânea de necessidades e desejos pode ser perigosa.
  • A adaptação ao outro é a estratégia mais segura para sobreviver emocionalmente.
  • A própria identidade deve ser moldada para caber no que o outro pode aceitar.

Essas lições, repetidas milhares de vezes nos primeiros anos de vida, criam uma disposição profunda para a subordinação, uma tendência a buscar segurança na adequação às expectativas alheias, a evitar conflitos a qualquer custo, a sentir-se ansioso diante da própria autonomia.

Quando, mais tarde, esse indivíduo se depara com figuras de autoridade – líderes políticos, chefes, instituições – seu sistema de apego é ativado. As mesmas dinâmicas que organizaram suas primeiras relações são reencenadas: busca de aprovação, medo de rejeição, dificuldade de discordar, tendência a se submeter.

O poder político, assim, encontra terreno fértil em subjetividades já preparadas para a obediência. Não precisa recorrer constantemente à força bruta, embora possa fazê-lo. Basta ativar os padrões de apego, prometer segurança em troca de submissão, oferecer pertencimento em troca de conformidade.

5.3 A Contribuição de Deleuze e Guattari: Desejo e Fascismo

Gilles Deleuze e Félix Guattari, em O Anti-Édipo (1972), propuseram uma tese radical: o desejo pode desejar sua própria repressão. Para eles, o fascismo não é apenas um fenômeno político externo, mas uma possibilidade inscrita no próprio desejo, uma tendência a buscar a própria servidão, a encontrar satisfação na submissão, a desejar a própria morte.

Essa tese, que chocou muitos leitores, torna-se compreensível à luz da teoria do apego. Se, nos primeiros anos, a criança aprende que a segurança está na submissão ao cuidador, mesmo quando esse cuidador é fonte de medo, então o desejo realmente se estrutura em torno da servidão. A obediência torna-se não apenas uma estratégia, mas uma necessidade afetiva, uma fonte contraditória de conforto.

O desafio político, para Deleuze e Guattari, é liberar o desejo dessa captura, criar condições para que o desejo possa fluir em direção à vida, à criação, à liberdade, em vez de se coagular em torno da submissão e da morte.

 

Parte VI: A Liberdade Possível – Descolonizar a Subjetividade

6.1 Consciência Como Primeiro Passo

Se o poder se instala em nós tão cedo e tão profundamente, a liberdade não pode ser apenas uma conquista externa. Ela exige um trabalho interno, um processo de tomada de consciência e transformação da própria subjetividade.

Esse trabalho começa com a percepção de que muitos dos nossos medos, dificuldades e padrões de relacionamento não são "naturais" nem "defeitos pessoais". São respostas aprendidas, estratégias que desenvolvemos para sobreviver emocionalmente em ambientes que nem sempre puderam nos acolher plenamente.

Reconhecer isso não é culpar os cuidadores. A maioria dos pais faz o melhor que pode com os recursos que tem, repetindo muitas vezes padrões que eles próprios aprenderam. Trata-se, antes, de compreender as origens de nossos padrões para podermos, conscientemente, escolher se queremos mantê-los ou transformá-los.

6.2 A Cartografia de Suely Rolnik: Mapear para Libertar

A psicanalista e filósofa brasileira Suely Rolnik desenvolveu, em diálogo com Félix Guattari, o método da cartografia, uma prática de mapeamento dos territórios existenciais, das zonas de captura e das linhas de fuga do desejo.

Para Rolnik, a descolonização da subjetividade exige que possamos:

  • Identificar as vozes internas que repetem discursos de controle.
  • Reconhecer os afetos que nos paralisam ou nos impulsionam.
  • Mapear as relações que nos diminuem e aquelas que nos fortalecem.
  • Experimentar novos modos de existência, mesmo que em pequena escala.

A cartografia não é um método para "consertar" a subjetividade, mas para explorar suas possibilidades, para abrir espaço para que o novo possa emergir.

6.3 Comunidades de Apego Seguro

Se o apego inseguro produz subjetividades dóceis, o apego seguro, ou sua reparação, pode produzir subjetividades críticas e criativas. A boa notícia é que os padrões de apego não são imutáveis. Relações significativas na vida adulta, parcerias amorosas, amizades profundas, comunidades de apoio, terapia, podem oferecer experiências corretivas que gradualmente transformam nossos modelos internos de relação.

Isso tem implicações políticas profundas. Construir comunidades baseadas na confiança, no cuidado mútuo e na aceitação incondicional não é apenas um projeto pessoal, é um projeto político. É criar ambientes onde as pessoas possam experimentar formas de relação que não reproduzam as dinâmicas de poder e controle aprendidas na infância. É oferecer experiências de apego seguro em escala coletiva, desfazendo os nós da servidão voluntária.

6.4 A Criança Como Sujeito Político

Por fim, pensar a teoria do apego em sua dimensão política nos convida a reconsiderar o lugar da criança na sociedade. Se as primeiras relações são tão fundamentais para a formação de subjetividades livres ou submissas, então o cuidado com a infância é uma questão central de justiça social e democracia.

Isso significa:

  • Valorizar socialmente o trabalho de cuidado.
  • Garantir condições para que cuidadores possam oferecer presença sensível e consistente.
  • Repensar instituições que separam precocemente crianças de suas redes de apoio.
  • Criar espaços coletivos de cuidado que distribuam a responsabilidade pelo desenvolvimento infantil.
  • Reconhecer que a luta por uma sociedade mais justa passa também pela transformação das relações nos primeiros anos de vida.

 

Do Berço à Revolução

A teoria do apego, quando lida em sua profundidade política, revela-se uma ferramenta indispensável para compreender não apenas o desenvolvimento individual, mas a própria reprodução das estruturas de poder. Ela nos mostra que o poder não é apenas algo que enfrentamos lá fora, nas instituições e nas leis. É algo que carregamos dentro de nós, nos padrões mais íntimos de nosso desejo e de nossa maneira de nos relacionarmos.

O berço é o primeiro palco da política. É ali que aprendemos as coreografias básicas da obediência e da resistência. É ali que se escreve, sem palavras, o primeiro rascunho de nossa relação com a autoridade, com o pertencimento, com a liberdade.

Mas se esse rascunho foi escrito, ele pode ser reescrito. Se as coreografias foram aprendidas, novos passos podem ser ensaiados. A revolução mais profunda, aquela que pode sustentar todas as outras, é a que acontece quando olhamos para dentro e decidimos desmontar, peça por peça, as estruturas de controle que habitam nosso próprio coração.

A servidão voluntária pode começar no berço. Mas a liberdade também pode começar ali, no momento em que compreendemos nossa história e decidimos, consciente e coletivamente, escrever um novo futuro.

Não se trata de culpar o passado, mas de compreendê-lo para superá-lo. Não se trata de buscar um "apego perfeito" que nos imunize contra o poder, mas de construir relações, pessoais e políticas, que possam sustentar nossa autonomia sem nos isolar, nossa conexão sem nos submeter.

A pergunta que La Boétie fez há quase cinco séculos continua viva: por que tantos aceitam a servidão? A teoria do apego nos dá parte da resposta: porque aprendemos, muito cedo, que a sobrevivência exige submissão. Mas também nos dá parte da saída: porque podemos aprender, ao longo da vida, que a verdadeira segurança está na capacidade de nos relacionarmos sem nos perdermos, de pertencermos sem nos anularmos.

Essa é a revolução mais íntima e, talvez por isso mesmo, a mais duradoura. Uma revolução que começa em cada berço e se estende a cada relação, a cada comunidade, a cada sociedade que ousamos construir.


domingo, 22 de fevereiro de 2026


 


O Trono Não Estava Vago: Descartes, o Capitalismo e a Invenção do "Eu" Moderno

 

A História Que Contaram Para a Gente

Senta que lá vem história.

Na escola, no cursinho, na faculdade, a gente aprendeu mais ou menos assim: Descartes era um gênio solitário, um filósofo trancado num quarto quente (dizem que ele gostava de pensar de manhã, na cama, preguiçoso como um gato), que um dia olhou para o mundo, duvidou de tudo e chegou a uma conclusão brilhante: "Penso, logo existo."

Fim da história. Filósofo pensa, mundo muda. Certo?

Errado. Muito errado.

Descartes não estava num vácuo. Ele não flutuava acima da sociedade, num plano espiritual onde só as ideias puras importam. Descartes estava com os pés no chão da Holanda do século XVII. E esse chão estava tremendo. Não por causa de terremoto. Por causa de dinheiro.

O Mundo Que Descartes Via Pela Janela

Vamos fazer um exercício de imaginação. Feche os olhos e tente ver o que Descartes via quando olhava pela janela.

Ele estava na Holanda, um dos lugares mais movimentados da Europa na época. Não era mais aquele mundo medieval de castelos, servos e terras imóveis. Era um mundo de navios chegando e partindo, de mercadores carregando sacos de especiarias, de tecidos vindos da Índia, de prata das Américas.

Os portos holandeses fervilhavam. Amsterdã se tornava o centro do comércio mundial. Homens que antes eram nada, filhos de artesãos, comerciantes sem sangue azul, acumulavam fortunas num piscar de olhos. Eles compravam, vendiam, especulavam, arriscavam. E ganhavam.

Descartes via isso. Via a ascensão de uma nova classe. Gente que não herdava o poder do pai ou do avô. Gente que construía o próprio destino com as próprias mãos, ou melhor, com os próprios negócios.

E esses homens tinham uma mentalidade completamente diferente da nobreza feudal.

O Mundo Que Estava Morrendo

Para entender a revolução que Descartes fez, e não foi sem querer, foi de caso pensado, a gente precisa entender o mundo que estava morrendo.

O mundo feudal era um mundo parado. Não no sentido de que nada acontecia, mas no sentido de que seu lugar na vida era definido antes de você nascer.

Seu pai era servo? Você seria servo.
Seu pai era nobre? Você seria nobre.
Seu pai era padre? Bom, aí era mais complicado, mas você entendeu.

Deus tinha um plano. E o plano de Deus incluía cada pessoa num lugar específico. Você não escolhia. Você aceitava. A Igreja explicava, o rei governava, e todo mundo sabia seu lugar. Confortável? Não. Previsível? Sim.

A riqueza vinha da terra. E a terra não se move. Não se multiplica. É o que é. O nobre tinha terra porque o avô teve, porque Deus quis assim. Ponto.

Nesse mundo, o "eu" não importava muito. O que importava era seu lugar na ordem divina. Você era parte de um corpo maior, a cristandade, o reino, a família, a aldeia. Sozinho, você não era nada. Juntinho dos outros, você existia.

A Classe Que Olhava para Frente

Aí chegam os comerciantes. Os capitalistas, como a gente chama hoje.

Esses caras eram diferentes. Eles não aceitavam o lugar que Deus (ou a tradição) tinha dado para eles. Eles queriam mais. E descobriram que dava para ter mais.

Como? Agindo. Fazendo. Arriscando.

O comerciante não esperava a colheita do próximo ano. Ele comprava barato aqui, vendia caro ali. Ele emprestava dinheiro com juros (pecado mortal para a Igreja, aliás). Ele montava sociedade com desconhecidos. Ele enviava navios para lugares que nem no mapa existiam direito.

E funcionava. Ele ficava rico. Mais rico que muito nobre de sangue azul.

Mas aí vem o problema: como justificar essa riqueza? Se Deus determinou tudo, se seu lugar no mundo já estava escrito, por que você tem mais do que deveria?

A resposta dos comerciantes foi simples e revolucionária: porque eu fiz. Porque eu pensei, planejei, arrisquei, trabalhei, venci. A riqueza não vem de Deus. Vem de mim. Da minha ação. Do meu pensamento.

O Giro de Copérnico... na Filosofia

E é aí que entra Descartes. Mas não como um gênio isolado. Como um tradutor. Um tradutor de sentimentos, de desejos, de uma nova forma de estar no mundo que já estava fervendo na sociedade.

Os comerciantes precisavam de uma filosofia que dissesse: "O indivíduo importa. A consciência individual importa. O que você pensa e faz importa mais do que a tradição, mais do que a Igreja, mais do que o sangue herdado."

Descartes deu a eles essa filosofia.

Quando ele disse "Penso, logo existo", ele não estava só fazendo uma descoberta abstrata. Ele estava dando voz a uma classe inteira que dizia: "Eu penso o mundo, eu organizo o mundo, eu transformo o mundo. O mundo não vem pronto de Deus. O mundo é o que eu faço dele."

Não foi sem querer. Foi vendo os navios chegando no porto. Foi conversando com mercadores. Foi sentindo o ar da nova economia. Descartes percebeu que o centro de gravidade do mundo estava mudando. Estava saindo de Deus e indo para o homem. Mas não para qualquer homem. Para o homem que age. Que pensa. Que calcula. Que comercializa. Para o capitalista!

Deus Sai de Cena, o Eu Entra em Campo (Será?)

No mundo feudal, Deus era o grande protagonista. Ele escrevia o roteiro, dirigia as cenas, escolhia os atores. Os humanos só representavam. Mas não era só fé que mantinha esse roteiro de pé. A nobreza, classe dominante da época, tinha seus mecanismos de força: espadas, exércitos, castelos. A ideologia andava de mãos dadas com a coerção.

No novo mundo capitalista, o protagonista muda de nome. Sai Deus de cena. Entra o "eu". O indivíduo. Você, com sua capacidade de pensar, planejar, executar.

Descartes só fez formalizar isso. Ele tirou Deus do centro e colocou o "eu" no lugar. Mas não por maldade. Era o que a nova sociedade, a classe capitalista emergente, precisava ouvir.

Aqui mora uma armadilha: O capitalista toma o lugar de Deus na narrativa, mas a classe trabalhadora continua passiva na cena. A ideologia quer fazer o trabalhador acreditar que ele é protagonista, que "se ele quiser, pode". Mas as estruturas de dominação, as mesmas que antes eram espadas, hoje são contratos, jornadas, salários que não fecham, não permitem que ele seja ativo de verdade.

Pensa comigo: se Deus determina tudo, por que eu vou investir num negócio arriscado? Se Deus já decidiu quem ganha e quem perde, por que eu vou conquistar outras terras? Se meu lugar no mundo está escrito nas estrelas, por que vou tentar mudar?

O capitalismo precisa de gente que acredite que pode mudar o próprio destino. Precisa de gente que olhe para o futuro e pense: "Depende de mim." Precisa de gente que arrisque, invista, empreenda.

Mas a verdade é que nem todo mundo pode. O sistema cria a ilusão de que todos são protagonistas, mas mantém a maioria como figurante. O "eu" no trono é, para muitos, uma promessa que nunca se realiza. Uma fantasia que mantém a máquina girando.

Penso, Logo Faço. Faço, Logo Tenho.

Olha que interessante: a frase de Descartes poderia ser traduzida para a linguagem dos comerciantes como "Penso, logo faço."

Porque para eles, pensar não era um exercício abstrato. Pensar era planejar a viagem, calcular o lucro, avaliar o risco, decidir o investimento. Pensar era ação. Pensar era produzir resultados concretos. Pensar era fazer dinheiro.

E o resultado dessa ação? Propriedade. Riqueza. Coisas que você pode chamar de "minhas".

Aí você começa a entender por que o mundo ocidental ficou tão obcecado com esse tal de "eu". Porque o "eu" é a base de tudo que a gente construiu nos últimos 400 anos.

Meu negócio. Minha propriedade. Meu dinheiro. Meu sucesso. Minha carreira. Minha casa. Meu carro. Minha roupa. Meu corpo. Minha opinião. Meu direito.

Tudo começa com "eu" e "meu". Não é à toa. É a filosofia de Descartes traduzida para a vida prática.

Mas tem um segredo sujo nessa história: Esse "eu" que pensa, faz e tem só existe porque tem muita gente trabalhando junto. O capitalista se apropria da cooperação das pessoas que ele contrata. Elas trabalham juntas, produzem juntas, mas ele embolsa sozinho o resultado. Ele não paga a cooperação. Ele paga um salário, mas fica com a mais-valia – aquela parte do trabalho que não foi paga.

Aí o "eu" do capitalista acumula. Cresce. Vira império. Enquanto os "eus" dos trabalhadores mal conseguem sobreviver.

Foi só com Marx, lá no século XIX, que alguém colocou em xeque essa ilusão. Marx disse: olha, esse "eu" todo-poderoso é uma mentira. Sozinho, o trabalhador não é nada. É junto, é no coletivo, é no "nós" que a classe trabalhadora pode, de fato, ser protagonista.

A ilusão do eu é o eu da classe dominante. É a máscara que faz o rico acreditar que merece tudo sozinho. Mas para a classe dominada, para quem vive do trabalho, a única alternativa real é o "nós". É a união. É a cooperação de verdade – não aquela que o patrão rouba, mas aquela que a classe constrói por si mesma.

Por isso que o sistema insiste tanto no "eu". Porque o "nós" é perigoso. O "nós" organizado, consciente, unido,  isso sim ameaça o trono.

O Preço do Trono

Mas todo trono tem um preço. E o preço desse "eu" no centro do mundo foi alto.

Primeiro, veio a solidão. Se o eu é o centro, se minha consciência é a única coisa que posso provar que existe, o resto vira suspeito. As outras pessoas? Será que existem mesmo? Será que não são robôs, ilusões, fantasmas da minha mente? Descartes mesmo se perguntou isso. E a gente, até hoje, vive essa solidão existencial.

Segundo, veio a competição. Se o mundo é uma grande arena onde cada eu luta pelo seu espaço, pelo seu lucro, pelo seu sucesso, então os outros não são parceiros. São concorrentes. São obstáculos. São meios para meus fins. A colaboração vira estratégia, não valor. O outro vira recurso, não irmão.

Terceiro, veio a ansiedade. Se tudo depende de mim, se sou eu o centro, o responsável, o protagonista, então o fracasso é inteiramente meu. Se eu fracasso, não foi Deus, não foi o destino, não foi o sistema. Fui eu. Minha mente não pensou direito. Minha ação foi errada. O peso é todo meu.

Quarto, veio a exploração. Porque se o eu é o centro, se minha liberdade de pensar e agir é o valor máximo, então posso usar o mundo, e as pessoas, como eu quiser. Desde que dê certo para mim. Desde que meu negócio cresça. Desde que meu lucro aumente.

O Comerciante e o Filósofo: Uma Aliança Silenciosa

Não foi uma reunião secreta. Não foi uma conspiração. Foi algo mais sutil, mais profundo.

Os comerciantes viviam uma nova realidade. Eles precisavam de palavras para explicar essa realidade. Precisavam de conceitos que justificassem seu lugar no mundo, sua riqueza, seu poder. Precisavam de uma filosofia que dissesse: "O que você está fazendo é certo. É humano. É natural."

Descartes forneceu essas palavras, esses conceitos, essa filosofia. Não porque fosse pago por eles (até onde se sabe, não era). Mas porque ele respirava o mesmo ar. Via as mesmas mudanças. Sentia o mesmo mundo novo se formando.

Quando ele disse que o pensamento é a base de tudo, que o eu é o ponto de partida, que a consciência individual é a fonte da verdade, ele estava dando aos comerciantes exatamente o que eles precisavam: uma justificativa filosófica para virar o jogo.

Se o pensamento é a base, então quem pensa o mundo, organiza o mundo. E quem estava pensando o mundo, organizando o mundo, naquele momento? Os comerciantes. Os capitalistas. Os homens que calculavam riscos, traçavam rotas, acumulavam capitais.

Deus estava cada vez mais longe. O "eu" estava cada vez mais perto. O trono não ficou vazio. Foi ocupado por uma nova realeza: a realeza do indivíduo que pensa, age, produz, acumula. O indivíduo capitalista!

A Ironia da História

A ironia é que esse "eu" que Descartes colocou no trono, esse "eu" que os comerciantes adotaram como bandeira, é o mesmo "eu" que hoje nos faz sofrer.

A gente vive a era do "eu" máximo. Redes sociais onde a gente exibe o "eu" 24 horas por dia. Carreiras onde a gente constrói o "eu" como marca. Relacionamentos onde a gente defende o "eu" como fortaleza.

E no fim, a gente descobre que esse "eu" é escorregadio. Que ele muda. Que ele se contradiz. Que ele não cabe em nenhuma definição. Que quanto mais a gente tenta agarrá-lo, mais ele escorre pelos dedos.

Os budistas já sabiam disso há 2.500 anos. Mas o Ocidente preferiu Descartes. Preferiu acreditar num "eu" sólido, permanente, centro do universo. Porque esse "eu" era útil. Servia aos negócios. Servia à acumulação. Servia ao capital.

Superar o Trono: Lições dos Que Vivem Sem Ele

Mas aqui precisamos ir além. Não basta "rearrumar os móveis da sala". Precisamos superar a própria ideia de que alguém, ou algum "eu", deve estar sentado num trono.

Porque o problema não é apenas quem ocupa o trono. O problema é o trono em si.

O "eu" no centro, o "eu" que tudo explica, o "eu" que tudo justifica, esse "eu" se torna um problema quando vira poder sem controle. Quando acredita que pode tudo, que merece tudo, que tudo lhe é devido. O "eu" sem limites vira tirano. Vira explorador. Vira aquele que usa os outros como degraus.

E poder sem controle é sempre perigoso. Sempre. Não importa se é o poder de um rei, de um patrão, de um pai, ou do nosso próprio "eu" sobre nossa vida e sobre os outros.

A história já nos mostrou isso muitas vezes. Mas também nos mostrou alternativas.

A Sabedoria dos Iroqueses

Os Iroqueses, povos indígenas da América do Norte, construíram algo impressionante séculos atrás. Cinco nações – Mohawk, Oneida, Onondaga, Cayuga e Seneca – que antes viviam em guerra constante, decidiram se unir sob a "Grande Lei da Paz".

E o que eles criaram? Um conselho com 50 chefes, onde ninguém mandava sozinho. As decisões eram tomadas por unanimidade. Qualquer nação podia vetar qualquer decisão. Os chefes podiam ser destituídos se abusassem do poder. As reuniões eram públicas. Qualquer pessoa podia falar.

Eles criaram uma federação sem coerção. Uma união sem chefe executivo. Uma paz sem opressão.

Como disse Engels, estudando os Iroqueses a partir do trabalho de Morgan: "Temos aqui a oportunidade de estudar a organização de uma sociedade que ainda não conhece o Estado. O Estado pressupõe um poder público de coerção."

Os Iroqueses não tinham esse poder de coerção. E mesmo assim funcionava.

Pierre Clastres, o antropólogo que estudou os Yanomami e cunhou a expressão "sociedade contra o Estado", se conhecesse os Iroqueses, provavelmente diria: "Eis aí outra forma de sociedade contra o Estado, mas não pela guerra, mas pela engenharia política”.

O Que Isso Tem a Ver com Descartes?

Tudo.

Porque Descartes, sem querer ou querendo, colocou o "eu" num trono. E esse trono virou modelo. Virou padrão. Virou a única forma de ser humano que a gente conhece.

Mas os Iroqueses nos lembram que existem outras formas. Formas onde o poder não se concentra. Formas onde a decisão é coletiva. Formas onde ninguém manda sozinho.

O "eu" no trono, o indivíduo soberano, o pensador solitário, essa é uma invenção ocidental, capitalista, moderna. Não é a única. Não é a melhor. É apenas uma.

E talvez a gente precise aprender com quem viveu, e vive, de outro jeito.

Superar o Trono, Não Apenas Rearrumá-lo

Por isso, não se trata de destruir o trono. Destruir é fácil. O difícil é superar. É construir algo novo. É aprender a viver sem a necessidade de um centro. Sem a obsessão por um "eu" que tudo explica e tudo justifica.

Superar o trono significa:

  • Aprender a compartilhar decisões, não apenas delegar
  • Construir coletivos onde ninguém manda sozinho
  • Criar círculos, não pirâmides
  • Entender que o poder precisa de controle, sempre
  • Valorizar o "nós" sem apagar os "eus"

Não é fácil. Nossos corpos vêm sendo adestrados por 400 anos para pensar, sentir e agir diferente. Mas é possível. Os Iroqueses mostraram que é. Outros povos, em outros tempos e lugares, mostram que é.

O "eu" no trono não precisa ser um tirano. Mas enquanto ele estiver lá, sozinho, centralizando, corremos o risco de que ele se torne um. Porque poder sem controle corrompe. Sempre.

A solução não é trocar de tirano. É desmontar o trono. É aprender a viver em círculo, onde todas as pessoas se veem, onde todas falam, onde todas decidem. Onde ninguém está acima, nem abaixo. Apenas junto.

Uma Última Palavra

Quando você acordar amanhã e pensar "eu", lembre-se: esse "eu" tem história. Tem dono. Tem endereço. Nasceu na Holanda do século XVII, filho do comércio e da filosofia ocidental.

Mas ele não precisa ser seu único jeito de existir. Você pode ser "eu" e também "nós". Pode ser centro e também periferia. Pode ser protagonista e também coadjuvante.

Pode, quem sabe, aprender a viver sem trono. Em círculo. Com os outros. Como os Iroqueses. Como a gente ainda pode aprender a ser.

 

Referências:

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. 1884.

MORGAN, Lewis Henry. League of the Ho-dé-no-sau-nee, or Iroquois. Rochester: Sage & Brother, 1851.

DESCARTES, René. Discurso do Método. 1637.

 

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026


 A Colonização e a Cristianização do Corpo "Selvagem": Como a Caça às Bruxas Europeia se Repetiu nas Américas e Forjou a Violência Brasileira

Introdução: Quando a Guerra Contra as Mulheres Virou Guerra Contra os Povos

Imagine duas cenas acontecendo ao mesmo tempo, em lados opostos do oceano Atlântico, há cerca de 500 anos.

Na primeira cena, estamos na Europa. Uma mulher é amarrada a uma estaca. Madeira seca amontoada aos seus pés. Ao redor, uma multidão assiste. O que essa mulher fez? Ela sabia curar doenças com ervas. Ela falava com as plantas. Talvez fosse parteira, ajudando outras mulheres a dar à luz. Talvez fosse viúva e morasse sozinha. Talvez tivesse um gato. Para a Igreja e para o Estado, isso era o suficiente. Ela era uma bruxa. Era a encarnação do mal. Precisava ser queimada.

Na segunda cena, estamos nas Américas. Um homem é amarrado a um tronco. Suas costas estão ensanguentadas. Soldados europeus o açoitam. O que esse homem fez? Ele nasceu aqui. Seus ancestrais viveram nestas terras por milhares de anos. Ele cultiva milho de um jeito que os europeus nunca viram. Ele reza para deuses que têm nome de sol, de chuva, de montanha. Para os colonizadores, isso era o suficiente. Ele era um selvagem. Era um ser inferior, quase um animal. Precisava ser dominado.

Pode parecer que são duas histórias diferentes. Mas a grande estudiosa Silvia Federici, no seu livro "Calibã e a Bruxa", mostra que é a mesma história. A mesma violência. A mesma lógica. O mesmo objetivo.

Este texto vai contar essa história. Vamos viajar no tempo e entender como o corpo humano, o corpo da mulher europeia, do indígena originário, do africano escravizado, se tornou o campo de batalha principal para a construção do mundo em que vivemos hoje, o mundo capitalista.

E vamos contar essa história com um olhar especial para o Brasil. Porque aqui, essa violência chegou de um jeito particularmente brutal e deixou marcas que ainda estão abertas. A sociedade brasileira foi construída sobre três pilares de violência: a violência contra os povos originários, a violência contra os africanos sequestrados e escravizados, e a violência contra as mulheres. Somadas a isso, temos a violência de classe, que oprime trabalhadores de todas as cores, mas sempre com um recorte étnico muito claro.

Entender de onde vem essa violência é o primeiro passo para conseguir refazer nossa dinâmica relacional. Porque nossa cultura foi imposta a partir de uma lógica de dominação e sujeição. Aprendemos, durante séculos, a nos relacionar através da força, da hierarquia, do desprezo pelas outras pessoas. Mas se a violência foi construída na história, ela pode ser desconstruída na história. E é sobre isso que vamos falar.

 

A Transição que Mudou Tudo: Quando o Mundo Virou de Cabeça pra Baixo

Antes de tudo isso acontecer, a Europa vivia o que chamamos de Idade Média. Não era um mar de rosas, claro. Havia fome, guerra, desigualdade. Mas as pessoas viviam de um jeito muito diferente.

A maioria das pessoas era camponesa. Elas trabalhavam a terra, mas não eram "donas" dela no sentido que temos hoje. Existiam terras comuns, os "commons". Eram florestas, pastos, rios que pertenciam à comunidade. Ali, os pobres podiam pegar lenha, pescar, deixar seus porcos se alimentarem. As mulheres tinham um papel fundamental nessa economia. Elas cultivavam hortas, conheciam as plantas medicinais, cuidavam dos animais, faziam queijo, pão, cerveja. O conhecimento era passado de mãe para filha.

Aí, a partir do século XV, as coisas começaram a mudar violentamente. Os senhores feudais e a nova classe de comerciantes queriam mais. Queriam dinheiro. Queriam acumular riqueza. Começaram a cercar as terras comuns. "Isso aqui agora é meu", diziam. "Vocês não podem mais entrar."

Os camponeses foram expulsos. Milhares, milhões de pessoas foram jogadas na estrada, sem terra, sem trabalho, sem comida. Viraram "vagabundos" aos olhos da lei. E ser vagabundo, nessa época, era crime. Podia ser açoitado, preso, enforcado.

Foi nesse contexto de terror, de desespero, que a caça às bruxas explodiu na Europa. Entre os séculos XV e XVII, dezenas de milhares de mulheres (e alguns homens) foram julgadas e executadas. Queimadas vivas.

Por quê? Por que tanta fúria contra as mulheres?

Porque elas eram a memória viva do mundo que estava sendo destruído. Elas sabiam das ervas, sabiam fazer partos, sabiam se organizar em comunidade. Elas controlavam a própria fertilidade (sim, existiam métodos contraceptivos e abortivos na Idade Média). Elas representavam um poder que não passava pelo padre, nem pelo senhor, nem pelo Estado. Um poder autônomo.

Eliminar as bruxas era eliminar a resistência. Era arrancar pela força a ideia de que a vida podia ser vivida de outro jeito. Era dizer: "Agora, o único jeito de viver é trabalhando para nós, ganhando salário, obedecendo." O corpo da mulher, que gerava vida, precisava ser controlado. Ele não podia mais ser um território livre. Tinha que virar uma máquina de fazer trabalhadores.

 

Atravessando o Oceano: A Mesma Guerra em um Novo Mundo

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, um outro mundo estava sendo "descoberto". Para os europeus, era um mundo novo. Mas para quem vivia ali, era o mundo deles desde sempre. Eram os povos indígenas: Astecas, Maias, Incas, Tupis, Guaranis, Yanomamis e centenas de outras nações.

Quando os europeus chegaram, trouxeram na bagagem não só espadas e doenças, mas também essa nova mentalidade que estava sendo forjada na Europa. A mentalidade da acumulação, da conquista, de dominação, do desprezo por quem vive de um jeito diferente.

E o que eles viram? Viram sociedades onde a terra era de todas. Onde as pessoas plantavam para comer, não para enriquecer. Onde existiam formas de espiritualidade que não tinham nada a ver com a Igreja. Onde, em muitos casos, as mulheres tinham papéis sociais importantes, como comerciantes, sacerdotisas ou guerreiras.

Para os colonizadores, aquilo era inaceitável. Era uma afronta. Era "selvageria". E o que se faz com o selvagem? O mesmo que se faz com a bruxa: elimina-se, domina-se, converte-se.

A guerra contra as bruxas na Europa e a guerra contra os povos originários nas terras que os colonizadores denominaram Américas são irmãs gêmeas. Nascem do mesmo ventre: o ventre do capitalismo nascendo.

 

A Criação do "Outro": Como se Inventa um Monstro

Para matar alguém sem culpa, você precisa primeiro convencer a si mesma e às outras de que essa pessoa não é bem uma pessoa. Você precisa transformá-la em monstro.

Na Europa, o monstro era a bruxa. Os manuais de caça às bruxas, como o infame "Malleus Maleficarum" (O Martelo das Bruxas), descreviam as mulheres como seres fracos de espírito, carnais, luxuriosos, propensos ao mal por natureza. Diziam que elas faziam pactos com o Diabo, que voavam à noite, que matavam crianças, que causavam tempestades.

Era uma propaganda de terror. E funcionava. O vizinho passava a desconfiar da vizinha. O marido, da esposa. O padre, das fiéis. Qualquer mulher que fugisse do padrão, que fosse pobre, velha, sábia, bonita, rebelde, podia ser acusada.

Nas Américas, o mesmo processo aconteceu. Os indígenas foram descritos como "selvagens". O que isso significava? Significava que não tinham alma, segundo alguns debatedores da época. Que eram preguiçosos por natureza (quando, na verdade, tinham uma relação com o trabalho muito diferente, não baseada na exploração exaustiva). Que eram sexualmente promíscuos (porque muitas culturas tinham costumes sexuais e de nudismo que chocavam os europeus). Que eram canibais (o que acontecia em rituais específicos de alguns povos, mas foi generalizado como prova de sua bestialidade).

Os africanos sequestrados e trazidos à força para as Américas também passaram por esse processo. Foram animalizados. Comparados a macacos. Dizia-se que eram descendentes de Cam, o filho amaldiçoado de Noé, e que portanto sua escravização era vontade de Deus.

Veja a genialidade perversa disso: você cria uma ideologia que justifica a violência. Não estamos matando pessoas, estamos queimando bruxas a serviço de Deus. Não estamos escravizando pessoas, estamos civilizando selvagens e salvando almas pagãs.

A função ideológica era clara: permitir que a exploração mais brutal acontecesse sem que os algozes perdessem o sono. O genocídio vira missão. A tortura vira salvação.

No Brasil, essa ideologia criou raízes profundas. Até hoje, quando se fala em demarcação de terras indígenas, ouvimos argumentos de que "eles têm terra demais", como se a terra fosse dos europeus que a roubaram. Até hoje, quando se fala em cotas para afrodescendentes nas universidades, ouvimos que "é racismo ao contrário", como se séculos de escravização pudessem ser apagados com essa conversa. A ideia de que branco é superior, de que afrodescendente é suspeito, de que indígena é preguiçoso, tudo isso vem dessa máquina de fabricar monstros que os colonizadores inventaram.

 

O Corpo na Mira: A Violência Física como Ferramenta de Conquista

Quando a ideologia já fez seu trabalho de desumanização, a violência física pode agir sem freios. E agiu.

Vamos começar pelas populações indígenas. Os números são estarrecedores. Estima-se que a população das Américas tenha caído de cerca de 60 milhões para talvez 6 milhões em apenas um século após a chegada dos europeus. É uma das maiores catástrofes demográficas da história.

No Brasil, a história não foi diferente. Quando os portugueses chegaram, estima-se que viviam aqui entre 2 e 4 milhões de indígenas. Hoje, segundo o censo de 2022, são cerca de 1,7 milhão. Foram séculos de extermínio. E não foi só no passado. A violência contra os povos originários continua. Nos últimos anos, o garimpo ilegal em terras Yanomami matou crianças de fome, contaminou rios com mercúrio, estuprou mulheres. A Funai, órgão criado para proteger os indígenas, foi desmontada. A violência física contra os povos originários é uma linha que nunca foi interrompida na história do Brasil.

Como aconteceu essa dizimação? Guerras de extermínio, primeiro. Os colonizadores tinham armas de fogo, cavalos, armaduras. Mas o maior assassino foi invisível: as doenças. Os indígenas não tinham defesas imunológicas contra sarampo, varíola, gripe. Eram doenças europeias. Corpos inteiros de aldeias morriam. Mas isso não foi um acidente. Muitas vezes, os colonizadores distribuíam cobertores contaminados de propósito. Era uma arma biológica.

Depois, vinha o trabalho forçado. A escravização indígena foi praticada em larga escala no Brasil, especialmente no início da colonização e nas regiões mais afastadas. Os bandeirantes paulistas foram caçadores de indígenas. Entravam no sertão, atacavam aldeias, amarravam os sobreviventes e traziam para vender como escravizados em São Paulo e no Rio de Janeiro.

E o tráfico de escravizados africanos? Imagine a viagem de um navio negreiro. Homens, mulheres e crianças amontoados no porão, deitados em prateleiras, acorrentados. O espaço é tão pequeno que ninguém consegue ficar em pé. O calor é insuportável. As pessoas vomitam, defecam, urinam umas nas outras. Doenças se espalham. Muitos morrem durante a travessia. Os corpos são jogados ao mar, comida de tubarão.

O Brasil foi o maior destino de africanos escravizados nas Américas. Dos cerca de 10 milhões de africanos que sobreviveram à travessia do Atlântico, quase 5 milhões desembarcaram aqui. É o país com a maior população negra fora da África. E o país que mais demorou a abolir a escravização: fomos os últimos das Américas, em 1888.

Quem sobrevivia à viagem chegava ao Brasil e era vendido como mercadoria. No mercado de escravizados, famílias eram separadas. Mães viam filhas serem levadas para sempre. Pais nunca mais viam seus filhos. Depois, vinha a plantação: o sol escaldante, o chicote do feitor, o trabalho do nascer ao pôr do sol, colhendo cana ou café para enriquecer um senhor do outro lado do oceano.

A violência física era tão extrema que precisava ser espetacular. Servia de exemplo. O corpo açoitado, o corpo enforcado, o corpo queimado, eram mensagens. "Olhem o que acontece com quem resiste. Olhem o que acontece com quem é diferente. Submetam-se."

E essa violência não ficou no passado. Ela se reproduz hoje nos corpos afrodescendentes mortos nas periferias. No Brasil em 2025, 79% das pessoas mortas na periferia por morte violenta intencional são afrodescendentes. os números provam isso. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 mostram que, no Brasil, 82% das pessoas mortas pela polícia são negras. Um jovem negro tem quase 4 vezes mais chances de ser morto pela polícia do que um branco. E não são só os civis que morrem. Entre os policiais assassinados em 2025, 65,4% eram negros. Ou seja, a violência do estado mata tanto quem está na favela quanto quem é colocado na linha de frente para 'fazer a guerra'. A violência de ontem e a de hoje têm a mesma cor. A violência física mudou de forma, mas continua mirando os mesmos corpos: os corpos que a colônia já considerava descartáveis.

 

Apagando a Memória: A Destruição dos Saberes e da Cultura

Mas não bastava destruir os corpos. Era preciso destruir as almas, as mentes, as memórias. Era preciso apagar qualquer vestígio de que aquele mundo tinha existido.

Na Europa, a caça às bruxas destruiu um conhecimento milenar: o saber das parteiras e curandeiras. Durante séculos, as mulheres foram as médicas dos pobres. Sabiam qual folha servia para febre, qual raiz aliviava a dor, qual chá impedia a gravidez. Com a perseguição, esse conhecimento foi demonizado. Quem procurasse uma curandeira arriscava a vida. A medicina oficial, dos homens de universidade, dos doutores com seus livros em latim, tomou o lugar. O parto, que era um evento feminino, passou a ser controlado por homens.

Nas Américas, a destruição foi ainda mais sistemática. Os espanhóis queimaram bibliotecas inteiras dos astecas. Eram livros feitos de casca de árvore, com desenhos e símbolos que contavam a história, a ciência, a religião daquele povo. Os padres jogaram tudo na fogueira. "É coisa do demônio", diziam.

No Brasil, os jesuítas tiveram um papel ambíguo. Por um lado, protegiam os indígenas da escravização mais brutal. Por outro, destruíam sua cultura. Catequizar era, antes de tudo, fazer o indígena esquecer quem era. Proibiam as línguas nativas, obrigavam as crianças a falar português, substituíam os rituais pela missa, os deuses pelos santos.

Os rituais foram proibidos. As línguas nativas foram reprimidas. As crianças eram tiradas dos pais e educadas à força na fé cristã, em espanhol ou português. A ideia era criar uma geração que tivesse vergonha de sua própria cultura. Que olhasse para os avós e visse "selvagens", não sábios.

Entre os africanos escravizados, a estratégia era misturar as etnias de propósito. Se todos os escravizados de uma plantação fossem da mesma região, falassem a mesma língua, eles poderiam se organizar, se revoltar. Então, os traficantes separavam deliberadamente pessoas que falavam a mesma língua. Assim, ninguém conseguia se comunicar direito. A diversidade linguística, que podia ser uma riqueza, foi usada como arma de desintegração.

Mas a cultura resistia. Nos porões dos navios, nas senzalas, nos fundos dos quintais, os africanos e seus descendentes inventaram jeitos de manter sua memória viva. Transformaram seus orixás em santos católicos para poder continuar rezando. Criaram o samba, o candomblé, a capoeira, formas de resistência disfarçadas de dança, de religião, de luta. A memória não morreu, mas teve que se esconder.

Hoje, essa memória resistente está sendo resgatada. As universidades começam a ter cotas para afrodescendentes e indígenas. A história da África passou a ser ensinada nas escolas. O candomblé e a umbanda conquistaram algum respeito, embora ainda sofram ataques. É uma luta contra 500 anos de apagamento.

 

As Mulheres na Mira Dupla: Gênero e Raça como Ferramentas de Opressão

Agora, precisamos falar de um ponto central: a situação das mulheres indígenas e africanas. Se ser indígena ou africano já era um crime aos olhos do colonizador, ser mulher indígena ou africana era um crime duplo.

Vamos detalhar isso, porque é fundamental para entender o livro de Federici e para entender o Brasil.

 

Exploração Reprodutiva: O Ventre a Serviço do Capital

O sistema escravista precisava de mais escravizados. Trazer gente da África era caro, muitos morriam na viagem. Então, os senhores descobriram que era mais "lucrativo" fazer as mulheres escravizadas terem filhos. Esses filhos já nasciam escravizados, propriedade do senhor.

A mulher africana teve seu útero transformado em fábrica de mercadoria humana. Seu corpo gerava nova força de trabalho para as plantações. Engravidar, parir, amamentar, tudo isso era supervisionado, controlado, explorado. Não havia escolha. Não havia maternidade como afeto; havia maternidade como função econômica.

No Brasil, isso foi ainda mais perverso porque os senhores incentivavam as "crias" da casa grande. Meninas negras eram separadas das mães e criadas junto com as sinhazinhas, para servir. Meninos afrodescendentes viravam moleques de recado. A miscigenação forçada produziu uma população mestiça que até hoje carrega as marcas dessa violência.

 

Exploração Sexual: O Corpo como Campo de Batalha

O estupro foi uma arma de guerra e de dominação cotidiana. Os colonizadores estupravam mulheres indígenas como forma de aterrorizar as aldeias, de mostrar quem mandava. Estupravam mulheres africanas nas senzalas, nos engenhos, nas casas grandes.

Dessa violência, nasciam crianças. Crianças que muitas vezes eram rejeitadas pelo pai (o senhor branco) e pela comunidade materna (que via ali a marca da violência). Nasceu daí uma população mestiça, que carregava no corpo a história dessa violência original.

A sexualidade das mulheres negras e indígenas foi hipersexualizada na imaginação colonial. Criou-se o mito da mulata sensual, da índia dócil e disponível. Esses estereótipos serviam para justificar o abuso: "elas é que provocam", "elas gostam". Até hoje, infelizmente, esses estereótipos têm efeitos reais na violência que mulheres negras e indígenas sofrem. A cada quatro minutos, uma mulher é violentada no Brasil. As mulheres negras são as principais vítimas de violência doméstica e de feminicídio.

 

Trabalho Forçado: A Dupla Jornada nasceu aqui

As mulheres escravizadas trabalhavam nas plantações junto com os homens, sob o mesmo sol, o mesmo chicote. Mas, quando o sol se punha e os homens podiam, em tese, descansar, o trabalho delas continuava.

Elas precisavam cozinhar para os outros escravizados, cuidar das crianças, lavar roupa, às vezes também servir na casa grande. A dupla jornada de trabalho, que as feministas denunciam até hoje, nasceu nesse contexto brutal. A mulher negra escravizada nunca tinha descanso.

Hoje, as mulheres negras são a maioria das trabalhadoras domésticas no Brasil. Uma profissão que ainda tem baixos salários, pouca formalização e é herdeira direta do tempo da escravização. A luta das trabalhadoras domésticas por direitos é uma luta contra 500 anos de exploração.

 

O Paralelo Invisível com as Mulheres Europeias

Aqui, Federici faz uma observação brilhante. Enquanto as mulheres indígenas e africanas eram exploradas até o limite de suas forças no trabalho braçal, o que acontecia com as mulheres brancas na Europa e no Brasil?

Acontecia um processo diferente, mas complementar. As mulheres brancas (especialmente as de classes médias e altas) estavam sendo confinadas ao espaço doméstico. Estavam sendo transformadas no "anjo do lar". Sua função era ser esposa submissa, mãe dedicada, dona de casa exemplar. Seu útero também era controlado, mas para gerar filhos legítimos que herdariam a propriedade da família. Sua sexualidade era vigiada para garantir a pureza da linhagem.

Ou seja, o capitalismo e o colonialismo criaram uma divisão racial do patriarcado. As mulheres brancas foram enclausuradas num pedestal (o pedestal da fragilidade, da pureza, da domesticidade). As mulheres não-brancas foram jogadas na lama da exploração mais brutal.

Mas ambas tiveram seus corpos controlados. Ambas perderam autonomia. Ambas foram vítimas de um sistema que precisava regular a reprodução e a sexualidade feminina para funcionar. A diferença é que um grupo era "protegido", na verdade, vigiado dentro de casa, enquanto o outro era explorado até a morte no campo.

No Brasil, essa divisão racial do patriarcado é ainda mais complexa porque temos uma forte presença de mulheres imigrantes europeias pobres que vieram trabalhar como colonas nas fazendas do Sul e Sudeste. Essas mulheres também sofriam opressão de classe, mas sua brancura lhes dava algum status diante das mulheres negras e indígenas.

 

O Branqueamento da Sociedade: A Importação de Trabalhadores Brancos Europeus

Aqui chegamos a um ponto fundamental para entender o Brasil: o projeto de branqueamento.

Quando a escravização foi abolida, em 1888, os ex-escravizados foram jogados à própria sorte. Não receberam terra, não receberam indenização, não receberam educação. Foram abandonados nas cidades e no campo, competindo por trabalhos precários.

Ao mesmo tempo, o governo brasileiro começou a incentivar a vinda de imigrantes europeus. Italianos, alemães, espanhóis, portugueses foram trazidos em massa para trabalhar nas fazendas de café do Sudeste e para colonizar o Sul do país.

Por que trazer europeus se havia tanta mão de obra disponível no país, formada por afrodescendentes libertos e seus descendentes?

A resposta é racismo puro. A elite brasileira queria "branquear" a população. Achava que o país era atrasado porque tinha muitos afrodescendentes e mestiços. Acreditava que, trazendo europeus, o sangue ia se misturando e, com o tempo, o Brasil se tornaria um país branco, civilizado, europeu.

Esses imigrantes europeus vieram em condições muito difíceis. Muitos eram camponeses pobres que fugiam da miséria na Europa. Aqui, enfrentaram trabalho duro, dívidas com os fazendeiros, doenças. Também eram oprimidos pela classe dominante. Mas havia uma diferença fundamental: eles eram brancos.

Por serem brancos, alguns tiveram acesso a terras (especialmente no Sul, onde foram criadas colônias de imigrantes). Tiveram acesso a empregos melhores. Podiam ascender socialmente de um jeito que afrodescendentes e indígenas não podiam. A brancura funcionava como um capital simbólico que abria portas.

Esse processo criou uma hierarquia racial muito clara na sociedade brasileira: no topo, os brancos (descendentes de europeus); no meio, os mestiços (que podiam tentar "passar por brancos"); na base, afrodescendentes e indígenas.

E até hoje essa hierarquia se reproduz. Os afrodescendentes são a maioria nos empregos mais precários, nas moradias mais pobres, nas estatísticas de violência. Os brancos são a maioria nas universidades, nos cargos de chefia, nos bairros nobres. O mito da democracia racial, que dizia que no Brasil não há racismo, foi uma cortina de fumaça para esconder essa triste realidade.

 

Os Três Pilares da Violência Brasileira: Etnia, Classe e Patriarcado

Agora podemos juntar todas as peças e entender a complexidade da sociedade brasileira.

Nossa sociedade foi constituída a partir de três violências fundamentais:

1. A violência contra os povos originários

Os indígenas que viviam aqui foram expropriados de suas terras, tiveram sua cultura destruída, foram escravizados, foram mortos por doenças e por armas. Essa violência continua hoje com a invasão de terras indígenas por garimpeiros, madeireiros, grileiros. Continua com a falta de assistência à saúde que mata crianças yanomami. Continua com o preconceito que trata o indígena como "atrasado".

2. A violência contra os africanos e seus descendentes

Quase 5 milhões de africanos foram sequestrados e trazidos à força para o Brasil. Foram escravizados por séculos. Seus corpos foram mercadoria, seu trabalho foi roubado, sua cultura foi perseguida. Depois da abolição, foram abandonados e substituídos por imigrantes europeus no mercado de trabalho. Até hoje, o racismo estrutural mantém a população negra na base da pirâmide social.

3. A violência contra as mulheres

As mulheres indígenas, negras e brancas pobres sofreram e sofrem violências específicas: exploração sexual, controle do corpo, dupla jornada de trabalho, subordinação doméstica. O patriarcado é um sistema de opressão que atravessa todas as raças e classes, embora atinja de formas diferentes cada grupo.

E a violência de classe, que atravessa tudo

Os trabalhadores brancos europeus que vieram como imigrantes também eram oprimidos. Eram explorados pelos fazendeiros, viviam em condições precárias, não tinham direitos. A classe trabalhadora no Brasil sempre foi explorada, independentemente da cor. Mas a cor definia o grau de exploração e as chances de escapar dela.

Esses três pilares, etnia, classe e patriarcado, não funcionam separadamente. Eles se combinam, se reforçam, criam situações específicas. Uma mulher negra e pobre sofre uma opressão diferente de um homem branco pobre, que sofre uma opressão diferente de uma mulher indígena, e assim por diante.

Entender essa complexidade é fundamental para não cair em simplificações. Não adianta lutar apenas contra o racismo sem lutar contra o capitalismo. Não adianta lutar apenas contra o patriarcado sem lutar contra o racismo. Também não basta lutar apenas contra o capitalismo, sem lutar contra o racismo e o patriarcado. As opressões estão entrelaçadas, e a luta por libertação precisa ser igualmente entrelaçada.

 

A Terra e o Corpo: Duas Faces da Mesma Moeda

Vamos fazer uma imagem mental. Imagine os campos da Inglaterra no século XVI. Cercas de madeira ou pedra sendo erguidas. Onde antes era terra comum, onde qualquer um podia entrar, agora é propriedade privada. Quem tentar entrar, é preso. É a "cercação" dos campos.

Agora, imagine o corpo de uma mulher africana no século XVII, no Brasil. Esse corpo não lhe pertence. Se ele sentir fome, vai comer o que o senhor der. Se quiser ter um filho, vai ter se o senhor permitir (ou forçar). Se quiser andar para longe, vai ser caçada como fugitiva. Esse corpo também foi "cercado". Foi transformado em propriedade privada de alguém.

Federici nos convida a ver essa analogia: a cerca que fecha o campo na Europa e o chicote que marca o corpo na América são a mesma coisa. São instrumentos da mesma violência.

No Brasil, essa analogia é ainda mais forte porque a terra sempre foi o centro do conflito. A Lei de Terras de 1850, por exemplo, foi feita para impedir que os ex-escravizados tivessem acesso à terra. Ela determinou que a única forma de adquirir terra era comprando. Como os afrodescendentes libertos não tinham dinheiro, ficaram excluídos. As terras públicas foram vendidas a preços baixos para fazendeiros e imigrantes europeus.

Até hoje, a reforma agrária é uma das bandeiras mais importantes no Brasil. Até hoje, latifundiários matam lideranças camponesas e indígenas para manter suas terras.

A acumulação primitiva do capital — aquela violência que deu partida ao sistema — aconteceu em três frentes ao mesmo tempo.

Primeiro, na terra: roubaram os campos dos camponeses, cercaram, transformaram em propriedade particular.

Segundo, no corpo: roubaram a energia de quem trabalhava, a capacidade reprodutiva das mulheres, transformaram seres humanos em mercadoria.

Terceiro, nos territórios colonizados: saquearam o ouro, a prata, o pau-brasil. Arrancaram as riquezas da terra e levaram pra Europa. O capitalismo não surgiu do nada. Ele foi construído com sangue, suor e ouro roubado.

O corpo do escravizado é uma mercadoria. Compra-se e vende-se como açúcar ou café. O corpo da mulher (branca ou negra) é uma máquina de produzir a principal mercadoria de todas: a força de trabalho, ou seja, os trabalhadores que vão gerar riqueza para o capitalista.

Quando a gente entende isso, fica claro porque o controle dos corpos sempre foi tão central na história. Não é só uma questão de moral, de religião, de costumes. É uma questão econômica fundamental. Quem controla os corpos, controla a reprodução da vida. E quem controla a reprodução da vida, controla a sociedade inteira.

 

Refazendo a Dinâmica Relacional: Como Podemos Transformar Essa Sociedade

Se a violência foi construída na história, ela pode ser desconstruída na história. Se nossa cultura foi imposta a partir de uma dinâmica de dominação e sujeição, podemos construir uma nova dinâmica baseada na ética, na igualdade, na liberdade.

Mas isso não vai acontecer automaticamente. Precisa de luta. Precisa de consciência. Precisa de ação coletiva.

 

Primeiro passo: reconhecer a violência

A sociedade brasileira tem uma enorme dificuldade de olhar para seu passado violento e para seu presente violento. Preferimos o mito da democracia racial, o mito da cordialidade, o mito de que "somos todos irmãos". Mas os números desmentem esse mito todos os dias.

Reconhecer a violência é o primeiro passo para superá-la. É preciso dizer: sim, houve genocídio indígena. Sim, houve escravização brutal. Sim, as mulheres sempre foram oprimidas. Sim, o racismo e o machismo existem e matam. Sim, a desigualdade de classe é imensa. Não adianta virar o rosto.

 

Segundo passo: entender as origens

Este texto tentou contribuir para esse passo. Entender que a violência contra as mulheres na Europa (a caça às bruxas) e a violência contra os povos colonizados nas Américas são partes do mesmo processo histórico: o nascimento do capitalismo. Entender que o Brasil foi forjado nessa violência e que ela se reproduz até hoje em novas formas.

Entender também que as opressões se entrelaçam. Não dá para combater o racismo sem combater o patriarcado. Não dá para combater o patriarcado sem combater a exploração de classe. As lutas são uma só.

Mas tem uma armadilha aí. Não existe solução para a sociedade que fique dentro desse enquadre, dessa dinâmica de dominação e sujeição. Porque esse é o enquadre hierarquizado da sociedade de classes, racista, patriarcal e colonizadora. A gente precisa pensar fora da caixa. Precisamos inventar outras dinâmicas relacionais.

Não adianta — embora seja importante — colocar pessoas negras, mulheres ou indígenas em espaços de poder se for apenas para ocupar o mesmo lugar, com a mesma lógica, reproduzindo as mesmas violências. Incluir oprimidos na estrutura que os oprime não transforma a estrutura.

Por outro lado, é fundamental que afrodescendentes, mulheres, indígenas ocupem esses espaços. Porque precisamos enxergar o mundo a partir das diversas perspectivas dos atores sociais. Quem nunca esteve na mesa não pode construir uma nova mesa. Mas o objetivo final não é sentar na mesa do colonizador. É construir outra mesa, com outra lógica, onde ninguém domine ninguém.

A luta não é por um lugar no sistema. A luta é por outro sistema.

 

Terceiro passo: reconstruir os laços comunitários

Federici mostra que o capitalismo destruiu as formas comunais de vida para impor o individualismo, a competição, o isolamento. Na Idade Média, as pessoas viviam em comunidade. Os commons eram espaços de cooperação. As mulheres tinham redes de solidariedade.

Hoje, precisamos reconstruir esses laços. Não para voltar ao passado, mas para construir um futuro diferente. Isso significa fortalecer os movimentos sociais, as associações de bairro, as cooperativas, as comunidades tradicionais. Significa aprender com os indígenas e quilombolas, que mantiveram formas de vida baseadas na coletividade. Significa criar espaços onde as pessoas se ajudam, onde o lucro não é o objetivo principal, onde a dignidade de todos é respeitada.

 

Quarto passo: lutar por políticas públicas

Não adianta só mudar a cabeça das pessoas. É preciso mudar as estruturas. Isso significa lutar por:

  • Demarcação das terras indígenas e quilombolas.
  • Reforma agrária para garantir terra a quem nela trabalha.
  • Cotas raciais nas universidades e no serviço público.
  • Políticas de valorização do trabalho doméstico e de cuidado.
  • Creches públicas para que as mulheres possam trabalhar fora sem culpa.
  • Salário igual para trabalho igual, independentemente de gênero ou raça.
  • Proteção às mulheres vítimas de violência.
  • Fim do genocídio da juventude negra.
  • Educação antirracista e feminista nas escolas.

 

Quinto passo: transformar as relações cotidianas

A revolução não acontece só nos grandes eventos. Acontece também no dia a dia, nas pequenas relações. No homem que aprende a lavar a louça sem ser pedido. Na mulher que não aceita mais ser interrompida nas reuniões. No pai que cria a filha para ser livre, não para agradar. No branco que reconhece seus privilégios e se coloca ao lado da luta negra. No rico que luta contra a desigualdade mesmo que isso signifique perder parte do que tem.

Mudar a dinâmica relacional é isso: é aprender a se relacionar de outro jeito. Não mais baseado na dominação e na sujeição, mas no reconhecimento mútuo. Não mais no medo e na violência, mas na ética, no cuidado e na solidariedade.

 

Por que essa história importa até hoje?

Pode parecer que falamos de coisas muito distantes, de séculos atrás. Mas a história que Silvia Federici conta em "Calibã e a Bruxa" é a história do presente.

Quando uma mulher é assassinada porque seu companheiro "não aceitava o fim do relacionamento", isso tem a ver com a ideia de que o corpo feminino é uma propriedade.

Quando uma trabalhadora doméstica ganha salário baixo e tem seus direitos desrespeitados, isso tem a ver com a herança da escravização, que colocou as mulheres negras no trabalho doméstico como algo "natural", quase não reconhecido como trabalho.

Quando um indígena tem sua terra invadida por garimpeiros ou madeireiros, isso tem a ver com a lógica colonial que nunca terminou, que ainda vê os povos originários como obstáculos ao "progresso".

Quando um jovem afrodescendente é morto na entrada da favela, isso tem a ver com a ideia de que corpos afrodescendentes são descartáveis, ideia que vem direto do tempo da escravização.

Quando uma mulher tem dificuldade de acessar métodos contraceptivos ou é julgada por fazer um aborto, isso tem a ver com a luta histórica pelo controle do útero feminino.

Quando um trabalhador é explorado, ganha salário miserável, não tem tempo para viver, isso tem a ver com a lógica capitalista que transforma tudo em mercadoria, inclusive a força de trabalho.

A violência que fundou o Brasil não ficou no passado. Ela se reproduz todos os dias, em novas roupagens, mas com a mesma essência: a dominação de uns sobre outros, a exploração do trabalho alheio, o controle dos corpos, a destruição das culturas diferentes.

Mas a resistência também continua. Os quilombos de hoje, as terras indígenas demarcadas, as marchas de mulheres negras, o movimento feminista, o movimento LGBTI+, os movimentos de luta pela terra, as ocupações urbanas, o movimento de trabalhadores sem-teto, as greves, as manifestações, todos eles são herdeiros daquelas mulheres queimadas nas fogueiras, daqueles indígenas que resistiram à espada, daqueles africanos que mantiveram sua cultura viva mesmo na senzala, daqueles imigrantes europeus que sonharam com uma vida melhor.

A luta é a mesma: a luta para que o corpo seja território livre. Para que a vida não seja transformada em mercadoria. Para que a reprodução da sociedade não seja controlada por alguns em benefício próprio. Para que as relações entre as pessoas sejam baseadas na ética, na solidariedade e na cooperação, não na dominação e na sujeição.

Entender essa história é entender que o capitalismo não é apenas um sistema econômico. É um sistema que molda corpos, destrói culturas, inventa raças e gêneros hierarquizados, controla a sexualidade, regula a reprodução. É um sistema que, para nascer, precisou queimar bruxas e escravizar povos inteiros. E que, para se manter, continua matando, explorando, oprimindo.

E entender isso é também entender que outro mundo é possível. Porque se o capitalismo foi feito na história, com violência e sangue, ele pode ser desfeito na história, com luta e esperança. O corpo que foi território de conquista pode voltar a ser território de liberdade. A relação que foi baseada na dominação pode ser refeita baseada na cooperação. A sociedade que foi construída sobre a violência pode ser reconstruída sobre a paz.

Essa é a tarefa do nosso tempo. E ela começa com cada um de nós, no nosso dia a dia, nas nossas relações, nas nossas escolhas. Mas não termina aí. Ela precisa ser coletiva, organizada, permanente. Precisa juntar as lutas de classe, raça e gênero numa só grande luta por libertação.

Porque, no fundo, todas essas opressões têm a mesma raiz: um sistema que coloca o lucro acima da vida, a propriedade acima da dignidade, o poder acima do afeto. E é contra esse sistema que precisamos lutar.

Juntas e juntos, podemos refazer a dinâmica relacional. Podemos construir uma sociedade onde nenhuma mulher seja perseguida ou silenciada, nenhum povo originário seja invadido ou desumanizado, e nenhuma pessoa negra seja escravizada. Uma sociedade onde todos os corpos possam existir em liberdade, dignidade e pertencimento.

 

 

Este texto foi baseado nos capítulos 4 e 5 do livro "Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva", de Silvia Federici, e adaptado para refletir a realidade brasileira. Uma obra essencial para quem quer entender as raízes profundas da opressão de gênero, raça e classe no mundo moderno.