quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026


 A Colonização e a Cristianização do Corpo "Selvagem": Como a Caça às Bruxas Europeia se Repetiu nas Américas e Forjou a Violência Brasileira

Introdução: Quando a Guerra Contra as Mulheres Virou Guerra Contra os Povos

Imagine duas cenas acontecendo ao mesmo tempo, em lados opostos do oceano Atlântico, há cerca de 500 anos.

Na primeira cena, estamos na Europa. Uma mulher é amarrada a uma estaca. Madeira seca amontoada aos seus pés. Ao redor, uma multidão assiste. O que essa mulher fez? Ela sabia curar doenças com ervas. Ela falava com as plantas. Talvez fosse parteira, ajudando outras mulheres a dar à luz. Talvez fosse viúva e morasse sozinha. Talvez tivesse um gato. Para a Igreja e para o Estado, isso era o suficiente. Ela era uma bruxa. Era a encarnação do mal. Precisava ser queimada.

Na segunda cena, estamos nas Américas. Um homem é amarrado a um tronco. Suas costas estão ensanguentadas. Soldados europeus o açoitam. O que esse homem fez? Ele nasceu aqui. Seus ancestrais viveram nestas terras por milhares de anos. Ele cultiva milho de um jeito que os europeus nunca viram. Ele reza para deuses que têm nome de sol, de chuva, de montanha. Para os colonizadores, isso era o suficiente. Ele era um selvagem. Era um ser inferior, quase um animal. Precisava ser dominado.

Pode parecer que são duas histórias diferentes. Mas a grande estudiosa Silvia Federici, no seu livro "Calibã e a Bruxa", mostra que é a mesma história. A mesma violência. A mesma lógica. O mesmo objetivo.

Este texto vai contar essa história. Vamos viajar no tempo e entender como o corpo humano, o corpo da mulher europeia, do indígena originário, do africano escravizado, se tornou o campo de batalha principal para a construção do mundo em que vivemos hoje, o mundo capitalista.

E vamos contar essa história com um olhar especial para o Brasil. Porque aqui, essa violência chegou de um jeito particularmente brutal e deixou marcas que ainda estão abertas. A sociedade brasileira foi construída sobre três pilares de violência: a violência contra os povos originários, a violência contra os africanos sequestrados e escravizados, e a violência contra as mulheres. Somadas a isso, temos a violência de classe, que oprime trabalhadores de todas as cores, mas sempre com um recorte étnico muito claro.

Entender de onde vem essa violência é o primeiro passo para conseguir refazer nossa dinâmica relacional. Porque nossa cultura foi imposta a partir de uma lógica de dominação e sujeição. Aprendemos, durante séculos, a nos relacionar através da força, da hierarquia, do desprezo pelas outras pessoas. Mas se a violência foi construída na história, ela pode ser desconstruída na história. E é sobre isso que vamos falar.

 

A Transição que Mudou Tudo: Quando o Mundo Virou de Cabeça pra Baixo

Antes de tudo isso acontecer, a Europa vivia o que chamamos de Idade Média. Não era um mar de rosas, claro. Havia fome, guerra, desigualdade. Mas as pessoas viviam de um jeito muito diferente.

A maioria das pessoas era camponesa. Elas trabalhavam a terra, mas não eram "donas" dela no sentido que temos hoje. Existiam terras comuns, os "commons". Eram florestas, pastos, rios que pertenciam à comunidade. Ali, os pobres podiam pegar lenha, pescar, deixar seus porcos se alimentarem. As mulheres tinham um papel fundamental nessa economia. Elas cultivavam hortas, conheciam as plantas medicinais, cuidavam dos animais, faziam queijo, pão, cerveja. O conhecimento era passado de mãe para filha.

Aí, a partir do século XV, as coisas começaram a mudar violentamente. Os senhores feudais e a nova classe de comerciantes queriam mais. Queriam dinheiro. Queriam acumular riqueza. Começaram a cercar as terras comuns. "Isso aqui agora é meu", diziam. "Vocês não podem mais entrar."

Os camponeses foram expulsos. Milhares, milhões de pessoas foram jogadas na estrada, sem terra, sem trabalho, sem comida. Viraram "vagabundos" aos olhos da lei. E ser vagabundo, nessa época, era crime. Podia ser açoitado, preso, enforcado.

Foi nesse contexto de terror, de desespero, que a caça às bruxas explodiu na Europa. Entre os séculos XV e XVII, dezenas de milhares de mulheres (e alguns homens) foram julgadas e executadas. Queimadas vivas.

Por quê? Por que tanta fúria contra as mulheres?

Porque elas eram a memória viva do mundo que estava sendo destruído. Elas sabiam das ervas, sabiam fazer partos, sabiam se organizar em comunidade. Elas controlavam a própria fertilidade (sim, existiam métodos contraceptivos e abortivos na Idade Média). Elas representavam um poder que não passava pelo padre, nem pelo senhor, nem pelo Estado. Um poder autônomo.

Eliminar as bruxas era eliminar a resistência. Era arrancar pela força a ideia de que a vida podia ser vivida de outro jeito. Era dizer: "Agora, o único jeito de viver é trabalhando para nós, ganhando salário, obedecendo." O corpo da mulher, que gerava vida, precisava ser controlado. Ele não podia mais ser um território livre. Tinha que virar uma máquina de fazer trabalhadores.

 

Atravessando o Oceano: A Mesma Guerra em um Novo Mundo

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, um outro mundo estava sendo "descoberto". Para os europeus, era um mundo novo. Mas para quem vivia ali, era o mundo deles desde sempre. Eram os povos indígenas: Astecas, Maias, Incas, Tupis, Guaranis, Yanomamis e centenas de outras nações.

Quando os europeus chegaram, trouxeram na bagagem não só espadas e doenças, mas também essa nova mentalidade que estava sendo forjada na Europa. A mentalidade da acumulação, da conquista, de dominação, do desprezo por quem vive de um jeito diferente.

E o que eles viram? Viram sociedades onde a terra era de todas. Onde as pessoas plantavam para comer, não para enriquecer. Onde existiam formas de espiritualidade que não tinham nada a ver com a Igreja. Onde, em muitos casos, as mulheres tinham papéis sociais importantes, como comerciantes, sacerdotisas ou guerreiras.

Para os colonizadores, aquilo era inaceitável. Era uma afronta. Era "selvageria". E o que se faz com o selvagem? O mesmo que se faz com a bruxa: elimina-se, domina-se, converte-se.

A guerra contra as bruxas na Europa e a guerra contra os povos originários nas terras que os colonizadores denominaram Américas são irmãs gêmeas. Nascem do mesmo ventre: o ventre do capitalismo nascendo.

 

A Criação do "Outro": Como se Inventa um Monstro

Para matar alguém sem culpa, você precisa primeiro convencer a si mesma e às outras de que essa pessoa não é bem uma pessoa. Você precisa transformá-la em monstro.

Na Europa, o monstro era a bruxa. Os manuais de caça às bruxas, como o infame "Malleus Maleficarum" (O Martelo das Bruxas), descreviam as mulheres como seres fracos de espírito, carnais, luxuriosos, propensos ao mal por natureza. Diziam que elas faziam pactos com o Diabo, que voavam à noite, que matavam crianças, que causavam tempestades.

Era uma propaganda de terror. E funcionava. O vizinho passava a desconfiar da vizinha. O marido, da esposa. O padre, das fiéis. Qualquer mulher que fugisse do padrão, que fosse pobre, velha, sábia, bonita, rebelde, podia ser acusada.

Nas Américas, o mesmo processo aconteceu. Os indígenas foram descritos como "selvagens". O que isso significava? Significava que não tinham alma, segundo alguns debatedores da época. Que eram preguiçosos por natureza (quando, na verdade, tinham uma relação com o trabalho muito diferente, não baseada na exploração exaustiva). Que eram sexualmente promíscuos (porque muitas culturas tinham costumes sexuais e de nudismo que chocavam os europeus). Que eram canibais (o que acontecia em rituais específicos de alguns povos, mas foi generalizado como prova de sua bestialidade).

Os africanos sequestrados e trazidos à força para as Américas também passaram por esse processo. Foram animalizados. Comparados a macacos. Dizia-se que eram descendentes de Cam, o filho amaldiçoado de Noé, e que portanto sua escravização era vontade de Deus.

Veja a genialidade perversa disso: você cria uma ideologia que justifica a violência. Não estamos matando pessoas, estamos queimando bruxas a serviço de Deus. Não estamos escravizando pessoas, estamos civilizando selvagens e salvando almas pagãs.

A função ideológica era clara: permitir que a exploração mais brutal acontecesse sem que os algozes perdessem o sono. O genocídio vira missão. A tortura vira salvação.

No Brasil, essa ideologia criou raízes profundas. Até hoje, quando se fala em demarcação de terras indígenas, ouvimos argumentos de que "eles têm terra demais", como se a terra fosse dos europeus que a roubaram. Até hoje, quando se fala em cotas para afrodescendentes nas universidades, ouvimos que "é racismo ao contrário", como se séculos de escravização pudessem ser apagados com essa conversa. A ideia de que branco é superior, de que afrodescendente é suspeito, de que indígena é preguiçoso, tudo isso vem dessa máquina de fabricar monstros que os colonizadores inventaram.

 

O Corpo na Mira: A Violência Física como Ferramenta de Conquista

Quando a ideologia já fez seu trabalho de desumanização, a violência física pode agir sem freios. E agiu.

Vamos começar pelas populações indígenas. Os números são estarrecedores. Estima-se que a população das Américas tenha caído de cerca de 60 milhões para talvez 6 milhões em apenas um século após a chegada dos europeus. É uma das maiores catástrofes demográficas da história.

No Brasil, a história não foi diferente. Quando os portugueses chegaram, estima-se que viviam aqui entre 2 e 4 milhões de indígenas. Hoje, segundo o censo de 2022, são cerca de 1,7 milhão. Foram séculos de extermínio. E não foi só no passado. A violência contra os povos originários continua. Nos últimos anos, o garimpo ilegal em terras Yanomami matou crianças de fome, contaminou rios com mercúrio, estuprou mulheres. A Funai, órgão criado para proteger os indígenas, foi desmontada. A violência física contra os povos originários é uma linha que nunca foi interrompida na história do Brasil.

Como aconteceu essa dizimação? Guerras de extermínio, primeiro. Os colonizadores tinham armas de fogo, cavalos, armaduras. Mas o maior assassino foi invisível: as doenças. Os indígenas não tinham defesas imunológicas contra sarampo, varíola, gripe. Eram doenças europeias. Corpos inteiros de aldeias morriam. Mas isso não foi um acidente. Muitas vezes, os colonizadores distribuíam cobertores contaminados de propósito. Era uma arma biológica.

Depois, vinha o trabalho forçado. A escravização indígena foi praticada em larga escala no Brasil, especialmente no início da colonização e nas regiões mais afastadas. Os bandeirantes paulistas foram caçadores de indígenas. Entravam no sertão, atacavam aldeias, amarravam os sobreviventes e traziam para vender como escravizados em São Paulo e no Rio de Janeiro.

E o tráfico de escravizados africanos? Imagine a viagem de um navio negreiro. Homens, mulheres e crianças amontoados no porão, deitados em prateleiras, acorrentados. O espaço é tão pequeno que ninguém consegue ficar em pé. O calor é insuportável. As pessoas vomitam, defecam, urinam umas nas outras. Doenças se espalham. Muitos morrem durante a travessia. Os corpos são jogados ao mar, comida de tubarão.

O Brasil foi o maior destino de africanos escravizados nas Américas. Dos cerca de 10 milhões de africanos que sobreviveram à travessia do Atlântico, quase 5 milhões desembarcaram aqui. É o país com a maior população negra fora da África. E o país que mais demorou a abolir a escravização: fomos os últimos das Américas, em 1888.

Quem sobrevivia à viagem chegava ao Brasil e era vendido como mercadoria. No mercado de escravizados, famílias eram separadas. Mães viam filhas serem levadas para sempre. Pais nunca mais viam seus filhos. Depois, vinha a plantação: o sol escaldante, o chicote do feitor, o trabalho do nascer ao pôr do sol, colhendo cana ou café para enriquecer um senhor do outro lado do oceano.

A violência física era tão extrema que precisava ser espetacular. Servia de exemplo. O corpo açoitado, o corpo enforcado, o corpo queimado, eram mensagens. "Olhem o que acontece com quem resiste. Olhem o que acontece com quem é diferente. Submetam-se."

E essa violência não ficou no passado. Ela se reproduz hoje nos corpos afrodescendentes mortos nas periferias. No Brasil em 2025, 79% das pessoas mortas na periferia por morte violenta intencional são afrodescendentes. os números provam isso. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 mostram que, no Brasil, 82% das pessoas mortas pela polícia são negras. Um jovem negro tem quase 4 vezes mais chances de ser morto pela polícia do que um branco. E não são só os civis que morrem. Entre os policiais assassinados em 2025, 65,4% eram negros. Ou seja, a violência do estado mata tanto quem está na favela quanto quem é colocado na linha de frente para 'fazer a guerra'. A violência de ontem e a de hoje têm a mesma cor. A violência física mudou de forma, mas continua mirando os mesmos corpos: os corpos que a colônia já considerava descartáveis.

 

Apagando a Memória: A Destruição dos Saberes e da Cultura

Mas não bastava destruir os corpos. Era preciso destruir as almas, as mentes, as memórias. Era preciso apagar qualquer vestígio de que aquele mundo tinha existido.

Na Europa, a caça às bruxas destruiu um conhecimento milenar: o saber das parteiras e curandeiras. Durante séculos, as mulheres foram as médicas dos pobres. Sabiam qual folha servia para febre, qual raiz aliviava a dor, qual chá impedia a gravidez. Com a perseguição, esse conhecimento foi demonizado. Quem procurasse uma curandeira arriscava a vida. A medicina oficial, dos homens de universidade, dos doutores com seus livros em latim, tomou o lugar. O parto, que era um evento feminino, passou a ser controlado por homens.

Nas Américas, a destruição foi ainda mais sistemática. Os espanhóis queimaram bibliotecas inteiras dos astecas. Eram livros feitos de casca de árvore, com desenhos e símbolos que contavam a história, a ciência, a religião daquele povo. Os padres jogaram tudo na fogueira. "É coisa do demônio", diziam.

No Brasil, os jesuítas tiveram um papel ambíguo. Por um lado, protegiam os indígenas da escravização mais brutal. Por outro, destruíam sua cultura. Catequizar era, antes de tudo, fazer o indígena esquecer quem era. Proibiam as línguas nativas, obrigavam as crianças a falar português, substituíam os rituais pela missa, os deuses pelos santos.

Os rituais foram proibidos. As línguas nativas foram reprimidas. As crianças eram tiradas dos pais e educadas à força na fé cristã, em espanhol ou português. A ideia era criar uma geração que tivesse vergonha de sua própria cultura. Que olhasse para os avós e visse "selvagens", não sábios.

Entre os africanos escravizados, a estratégia era misturar as etnias de propósito. Se todos os escravizados de uma plantação fossem da mesma região, falassem a mesma língua, eles poderiam se organizar, se revoltar. Então, os traficantes separavam deliberadamente pessoas que falavam a mesma língua. Assim, ninguém conseguia se comunicar direito. A diversidade linguística, que podia ser uma riqueza, foi usada como arma de desintegração.

Mas a cultura resistia. Nos porões dos navios, nas senzalas, nos fundos dos quintais, os africanos e seus descendentes inventaram jeitos de manter sua memória viva. Transformaram seus orixás em santos católicos para poder continuar rezando. Criaram o samba, o candomblé, a capoeira, formas de resistência disfarçadas de dança, de religião, de luta. A memória não morreu, mas teve que se esconder.

Hoje, essa memória resistente está sendo resgatada. As universidades começam a ter cotas para afrodescendentes e indígenas. A história da África passou a ser ensinada nas escolas. O candomblé e a umbanda conquistaram algum respeito, embora ainda sofram ataques. É uma luta contra 500 anos de apagamento.

 

As Mulheres na Mira Dupla: Gênero e Raça como Ferramentas de Opressão

Agora, precisamos falar de um ponto central: a situação das mulheres indígenas e africanas. Se ser indígena ou africano já era um crime aos olhos do colonizador, ser mulher indígena ou africana era um crime duplo.

Vamos detalhar isso, porque é fundamental para entender o livro de Federici e para entender o Brasil.

 

Exploração Reprodutiva: O Ventre a Serviço do Capital

O sistema escravista precisava de mais escravizados. Trazer gente da África era caro, muitos morriam na viagem. Então, os senhores descobriram que era mais "lucrativo" fazer as mulheres escravizadas terem filhos. Esses filhos já nasciam escravizados, propriedade do senhor.

A mulher africana teve seu útero transformado em fábrica de mercadoria humana. Seu corpo gerava nova força de trabalho para as plantações. Engravidar, parir, amamentar, tudo isso era supervisionado, controlado, explorado. Não havia escolha. Não havia maternidade como afeto; havia maternidade como função econômica.

No Brasil, isso foi ainda mais perverso porque os senhores incentivavam as "crias" da casa grande. Meninas negras eram separadas das mães e criadas junto com as sinhazinhas, para servir. Meninos afrodescendentes viravam moleques de recado. A miscigenação forçada produziu uma população mestiça que até hoje carrega as marcas dessa violência.

 

Exploração Sexual: O Corpo como Campo de Batalha

O estupro foi uma arma de guerra e de dominação cotidiana. Os colonizadores estupravam mulheres indígenas como forma de aterrorizar as aldeias, de mostrar quem mandava. Estupravam mulheres africanas nas senzalas, nos engenhos, nas casas grandes.

Dessa violência, nasciam crianças. Crianças que muitas vezes eram rejeitadas pelo pai (o senhor branco) e pela comunidade materna (que via ali a marca da violência). Nasceu daí uma população mestiça, que carregava no corpo a história dessa violência original.

A sexualidade das mulheres negras e indígenas foi hipersexualizada na imaginação colonial. Criou-se o mito da mulata sensual, da índia dócil e disponível. Esses estereótipos serviam para justificar o abuso: "elas é que provocam", "elas gostam". Até hoje, infelizmente, esses estereótipos têm efeitos reais na violência que mulheres negras e indígenas sofrem. A cada quatro minutos, uma mulher é violentada no Brasil. As mulheres negras são as principais vítimas de violência doméstica e de feminicídio.

 

Trabalho Forçado: A Dupla Jornada nasceu aqui

As mulheres escravizadas trabalhavam nas plantações junto com os homens, sob o mesmo sol, o mesmo chicote. Mas, quando o sol se punha e os homens podiam, em tese, descansar, o trabalho delas continuava.

Elas precisavam cozinhar para os outros escravizados, cuidar das crianças, lavar roupa, às vezes também servir na casa grande. A dupla jornada de trabalho, que as feministas denunciam até hoje, nasceu nesse contexto brutal. A mulher negra escravizada nunca tinha descanso.

Hoje, as mulheres negras são a maioria das trabalhadoras domésticas no Brasil. Uma profissão que ainda tem baixos salários, pouca formalização e é herdeira direta do tempo da escravização. A luta das trabalhadoras domésticas por direitos é uma luta contra 500 anos de exploração.

 

O Paralelo Invisível com as Mulheres Europeias

Aqui, Federici faz uma observação brilhante. Enquanto as mulheres indígenas e africanas eram exploradas até o limite de suas forças no trabalho braçal, o que acontecia com as mulheres brancas na Europa e no Brasil?

Acontecia um processo diferente, mas complementar. As mulheres brancas (especialmente as de classes médias e altas) estavam sendo confinadas ao espaço doméstico. Estavam sendo transformadas no "anjo do lar". Sua função era ser esposa submissa, mãe dedicada, dona de casa exemplar. Seu útero também era controlado, mas para gerar filhos legítimos que herdariam a propriedade da família. Sua sexualidade era vigiada para garantir a pureza da linhagem.

Ou seja, o capitalismo e o colonialismo criaram uma divisão racial do patriarcado. As mulheres brancas foram enclausuradas num pedestal (o pedestal da fragilidade, da pureza, da domesticidade). As mulheres não-brancas foram jogadas na lama da exploração mais brutal.

Mas ambas tiveram seus corpos controlados. Ambas perderam autonomia. Ambas foram vítimas de um sistema que precisava regular a reprodução e a sexualidade feminina para funcionar. A diferença é que um grupo era "protegido", na verdade, vigiado dentro de casa, enquanto o outro era explorado até a morte no campo.

No Brasil, essa divisão racial do patriarcado é ainda mais complexa porque temos uma forte presença de mulheres imigrantes europeias pobres que vieram trabalhar como colonas nas fazendas do Sul e Sudeste. Essas mulheres também sofriam opressão de classe, mas sua brancura lhes dava algum status diante das mulheres negras e indígenas.

 

O Branqueamento da Sociedade: A Importação de Trabalhadores Brancos Europeus

Aqui chegamos a um ponto fundamental para entender o Brasil: o projeto de branqueamento.

Quando a escravização foi abolida, em 1888, os ex-escravizados foram jogados à própria sorte. Não receberam terra, não receberam indenização, não receberam educação. Foram abandonados nas cidades e no campo, competindo por trabalhos precários.

Ao mesmo tempo, o governo brasileiro começou a incentivar a vinda de imigrantes europeus. Italianos, alemães, espanhóis, portugueses foram trazidos em massa para trabalhar nas fazendas de café do Sudeste e para colonizar o Sul do país.

Por que trazer europeus se havia tanta mão de obra disponível no país, formada por afrodescendentes libertos e seus descendentes?

A resposta é racismo puro. A elite brasileira queria "branquear" a população. Achava que o país era atrasado porque tinha muitos afrodescendentes e mestiços. Acreditava que, trazendo europeus, o sangue ia se misturando e, com o tempo, o Brasil se tornaria um país branco, civilizado, europeu.

Esses imigrantes europeus vieram em condições muito difíceis. Muitos eram camponeses pobres que fugiam da miséria na Europa. Aqui, enfrentaram trabalho duro, dívidas com os fazendeiros, doenças. Também eram oprimidos pela classe dominante. Mas havia uma diferença fundamental: eles eram brancos.

Por serem brancos, alguns tiveram acesso a terras (especialmente no Sul, onde foram criadas colônias de imigrantes). Tiveram acesso a empregos melhores. Podiam ascender socialmente de um jeito que afrodescendentes e indígenas não podiam. A brancura funcionava como um capital simbólico que abria portas.

Esse processo criou uma hierarquia racial muito clara na sociedade brasileira: no topo, os brancos (descendentes de europeus); no meio, os mestiços (que podiam tentar "passar por brancos"); na base, afrodescendentes e indígenas.

E até hoje essa hierarquia se reproduz. Os afrodescendentes são a maioria nos empregos mais precários, nas moradias mais pobres, nas estatísticas de violência. Os brancos são a maioria nas universidades, nos cargos de chefia, nos bairros nobres. O mito da democracia racial, que dizia que no Brasil não há racismo, foi uma cortina de fumaça para esconder essa triste realidade.

 

Os Três Pilares da Violência Brasileira: Etnia, Classe e Patriarcado

Agora podemos juntar todas as peças e entender a complexidade da sociedade brasileira.

Nossa sociedade foi constituída a partir de três violências fundamentais:

1. A violência contra os povos originários

Os indígenas que viviam aqui foram expropriados de suas terras, tiveram sua cultura destruída, foram escravizados, foram mortos por doenças e por armas. Essa violência continua hoje com a invasão de terras indígenas por garimpeiros, madeireiros, grileiros. Continua com a falta de assistência à saúde que mata crianças yanomami. Continua com o preconceito que trata o indígena como "atrasado".

2. A violência contra os africanos e seus descendentes

Quase 5 milhões de africanos foram sequestrados e trazidos à força para o Brasil. Foram escravizados por séculos. Seus corpos foram mercadoria, seu trabalho foi roubado, sua cultura foi perseguida. Depois da abolição, foram abandonados e substituídos por imigrantes europeus no mercado de trabalho. Até hoje, o racismo estrutural mantém a população negra na base da pirâmide social.

3. A violência contra as mulheres

As mulheres indígenas, negras e brancas pobres sofreram e sofrem violências específicas: exploração sexual, controle do corpo, dupla jornada de trabalho, subordinação doméstica. O patriarcado é um sistema de opressão que atravessa todas as raças e classes, embora atinja de formas diferentes cada grupo.

E a violência de classe, que atravessa tudo

Os trabalhadores brancos europeus que vieram como imigrantes também eram oprimidos. Eram explorados pelos fazendeiros, viviam em condições precárias, não tinham direitos. A classe trabalhadora no Brasil sempre foi explorada, independentemente da cor. Mas a cor definia o grau de exploração e as chances de escapar dela.

Esses três pilares, etnia, classe e patriarcado, não funcionam separadamente. Eles se combinam, se reforçam, criam situações específicas. Uma mulher negra e pobre sofre uma opressão diferente de um homem branco pobre, que sofre uma opressão diferente de uma mulher indígena, e assim por diante.

Entender essa complexidade é fundamental para não cair em simplificações. Não adianta lutar apenas contra o racismo sem lutar contra o capitalismo. Não adianta lutar apenas contra o patriarcado sem lutar contra o racismo. Também não basta lutar apenas contra o capitalismo, sem lutar contra o racismo e o patriarcado. As opressões estão entrelaçadas, e a luta por libertação precisa ser igualmente entrelaçada.

 

A Terra e o Corpo: Duas Faces da Mesma Moeda

Vamos fazer uma imagem mental. Imagine os campos da Inglaterra no século XVI. Cercas de madeira ou pedra sendo erguidas. Onde antes era terra comum, onde qualquer um podia entrar, agora é propriedade privada. Quem tentar entrar, é preso. É a "cercação" dos campos.

Agora, imagine o corpo de uma mulher africana no século XVII, no Brasil. Esse corpo não lhe pertence. Se ele sentir fome, vai comer o que o senhor der. Se quiser ter um filho, vai ter se o senhor permitir (ou forçar). Se quiser andar para longe, vai ser caçada como fugitiva. Esse corpo também foi "cercado". Foi transformado em propriedade privada de alguém.

Federici nos convida a ver essa analogia: a cerca que fecha o campo na Europa e o chicote que marca o corpo na América são a mesma coisa. São instrumentos da mesma violência.

No Brasil, essa analogia é ainda mais forte porque a terra sempre foi o centro do conflito. A Lei de Terras de 1850, por exemplo, foi feita para impedir que os ex-escravizados tivessem acesso à terra. Ela determinou que a única forma de adquirir terra era comprando. Como os afrodescendentes libertos não tinham dinheiro, ficaram excluídos. As terras públicas foram vendidas a preços baixos para fazendeiros e imigrantes europeus.

Até hoje, a reforma agrária é uma das bandeiras mais importantes no Brasil. Até hoje, latifundiários matam lideranças camponesas e indígenas para manter suas terras.

A acumulação primitiva do capital — aquela violência que deu partida ao sistema — aconteceu em três frentes ao mesmo tempo.

Primeiro, na terra: roubaram os campos dos camponeses, cercaram, transformaram em propriedade particular.

Segundo, no corpo: roubaram a energia de quem trabalhava, a capacidade reprodutiva das mulheres, transformaram seres humanos em mercadoria.

Terceiro, nos territórios colonizados: saquearam o ouro, a prata, o pau-brasil. Arrancaram as riquezas da terra e levaram pra Europa. O capitalismo não surgiu do nada. Ele foi construído com sangue, suor e ouro roubado.

O corpo do escravizado é uma mercadoria. Compra-se e vende-se como açúcar ou café. O corpo da mulher (branca ou negra) é uma máquina de produzir a principal mercadoria de todas: a força de trabalho, ou seja, os trabalhadores que vão gerar riqueza para o capitalista.

Quando a gente entende isso, fica claro porque o controle dos corpos sempre foi tão central na história. Não é só uma questão de moral, de religião, de costumes. É uma questão econômica fundamental. Quem controla os corpos, controla a reprodução da vida. E quem controla a reprodução da vida, controla a sociedade inteira.

 

Refazendo a Dinâmica Relacional: Como Podemos Transformar Essa Sociedade

Se a violência foi construída na história, ela pode ser desconstruída na história. Se nossa cultura foi imposta a partir de uma dinâmica de dominação e sujeição, podemos construir uma nova dinâmica baseada na ética, na igualdade, na liberdade.

Mas isso não vai acontecer automaticamente. Precisa de luta. Precisa de consciência. Precisa de ação coletiva.

 

Primeiro passo: reconhecer a violência

A sociedade brasileira tem uma enorme dificuldade de olhar para seu passado violento e para seu presente violento. Preferimos o mito da democracia racial, o mito da cordialidade, o mito de que "somos todos irmãos". Mas os números desmentem esse mito todos os dias.

Reconhecer a violência é o primeiro passo para superá-la. É preciso dizer: sim, houve genocídio indígena. Sim, houve escravização brutal. Sim, as mulheres sempre foram oprimidas. Sim, o racismo e o machismo existem e matam. Sim, a desigualdade de classe é imensa. Não adianta virar o rosto.

 

Segundo passo: entender as origens

Este texto tentou contribuir para esse passo. Entender que a violência contra as mulheres na Europa (a caça às bruxas) e a violência contra os povos colonizados nas Américas são partes do mesmo processo histórico: o nascimento do capitalismo. Entender que o Brasil foi forjado nessa violência e que ela se reproduz até hoje em novas formas.

Entender também que as opressões se entrelaçam. Não dá para combater o racismo sem combater o patriarcado. Não dá para combater o patriarcado sem combater a exploração de classe. As lutas são uma só.

Mas tem uma armadilha aí. Não existe solução para a sociedade que fique dentro desse enquadre, dessa dinâmica de dominação e sujeição. Porque esse é o enquadre hierarquizado da sociedade de classes, racista, patriarcal e colonizadora. A gente precisa pensar fora da caixa. Precisamos inventar outras dinâmicas relacionais.

Não adianta — embora seja importante — colocar pessoas negras, mulheres ou indígenas em espaços de poder se for apenas para ocupar o mesmo lugar, com a mesma lógica, reproduzindo as mesmas violências. Incluir oprimidos na estrutura que os oprime não transforma a estrutura.

Por outro lado, é fundamental que afrodescendentes, mulheres, indígenas ocupem esses espaços. Porque precisamos enxergar o mundo a partir das diversas perspectivas dos atores sociais. Quem nunca esteve na mesa não pode construir uma nova mesa. Mas o objetivo final não é sentar na mesa do colonizador. É construir outra mesa, com outra lógica, onde ninguém domine ninguém.

A luta não é por um lugar no sistema. A luta é por outro sistema.

 

Terceiro passo: reconstruir os laços comunitários

Federici mostra que o capitalismo destruiu as formas comunais de vida para impor o individualismo, a competição, o isolamento. Na Idade Média, as pessoas viviam em comunidade. Os commons eram espaços de cooperação. As mulheres tinham redes de solidariedade.

Hoje, precisamos reconstruir esses laços. Não para voltar ao passado, mas para construir um futuro diferente. Isso significa fortalecer os movimentos sociais, as associações de bairro, as cooperativas, as comunidades tradicionais. Significa aprender com os indígenas e quilombolas, que mantiveram formas de vida baseadas na coletividade. Significa criar espaços onde as pessoas se ajudam, onde o lucro não é o objetivo principal, onde a dignidade de todos é respeitada.

 

Quarto passo: lutar por políticas públicas

Não adianta só mudar a cabeça das pessoas. É preciso mudar as estruturas. Isso significa lutar por:

  • Demarcação das terras indígenas e quilombolas.
  • Reforma agrária para garantir terra a quem nela trabalha.
  • Cotas raciais nas universidades e no serviço público.
  • Políticas de valorização do trabalho doméstico e de cuidado.
  • Creches públicas para que as mulheres possam trabalhar fora sem culpa.
  • Salário igual para trabalho igual, independentemente de gênero ou raça.
  • Proteção às mulheres vítimas de violência.
  • Fim do genocídio da juventude negra.
  • Educação antirracista e feminista nas escolas.

 

Quinto passo: transformar as relações cotidianas

A revolução não acontece só nos grandes eventos. Acontece também no dia a dia, nas pequenas relações. No homem que aprende a lavar a louça sem ser pedido. Na mulher que não aceita mais ser interrompida nas reuniões. No pai que cria a filha para ser livre, não para agradar. No branco que reconhece seus privilégios e se coloca ao lado da luta negra. No rico que luta contra a desigualdade mesmo que isso signifique perder parte do que tem.

Mudar a dinâmica relacional é isso: é aprender a se relacionar de outro jeito. Não mais baseado na dominação e na sujeição, mas no reconhecimento mútuo. Não mais no medo e na violência, mas na ética, no cuidado e na solidariedade.

 

Por que essa história importa até hoje?

Pode parecer que falamos de coisas muito distantes, de séculos atrás. Mas a história que Silvia Federici conta em "Calibã e a Bruxa" é a história do presente.

Quando uma mulher é assassinada porque seu companheiro "não aceitava o fim do relacionamento", isso tem a ver com a ideia de que o corpo feminino é uma propriedade.

Quando uma trabalhadora doméstica ganha salário baixo e tem seus direitos desrespeitados, isso tem a ver com a herança da escravização, que colocou as mulheres negras no trabalho doméstico como algo "natural", quase não reconhecido como trabalho.

Quando um indígena tem sua terra invadida por garimpeiros ou madeireiros, isso tem a ver com a lógica colonial que nunca terminou, que ainda vê os povos originários como obstáculos ao "progresso".

Quando um jovem afrodescendente é morto na entrada da favela, isso tem a ver com a ideia de que corpos afrodescendentes são descartáveis, ideia que vem direto do tempo da escravização.

Quando uma mulher tem dificuldade de acessar métodos contraceptivos ou é julgada por fazer um aborto, isso tem a ver com a luta histórica pelo controle do útero feminino.

Quando um trabalhador é explorado, ganha salário miserável, não tem tempo para viver, isso tem a ver com a lógica capitalista que transforma tudo em mercadoria, inclusive a força de trabalho.

A violência que fundou o Brasil não ficou no passado. Ela se reproduz todos os dias, em novas roupagens, mas com a mesma essência: a dominação de uns sobre outros, a exploração do trabalho alheio, o controle dos corpos, a destruição das culturas diferentes.

Mas a resistência também continua. Os quilombos de hoje, as terras indígenas demarcadas, as marchas de mulheres negras, o movimento feminista, o movimento LGBTI+, os movimentos de luta pela terra, as ocupações urbanas, o movimento de trabalhadores sem-teto, as greves, as manifestações, todos eles são herdeiros daquelas mulheres queimadas nas fogueiras, daqueles indígenas que resistiram à espada, daqueles africanos que mantiveram sua cultura viva mesmo na senzala, daqueles imigrantes europeus que sonharam com uma vida melhor.

A luta é a mesma: a luta para que o corpo seja território livre. Para que a vida não seja transformada em mercadoria. Para que a reprodução da sociedade não seja controlada por alguns em benefício próprio. Para que as relações entre as pessoas sejam baseadas na ética, na solidariedade e na cooperação, não na dominação e na sujeição.

Entender essa história é entender que o capitalismo não é apenas um sistema econômico. É um sistema que molda corpos, destrói culturas, inventa raças e gêneros hierarquizados, controla a sexualidade, regula a reprodução. É um sistema que, para nascer, precisou queimar bruxas e escravizar povos inteiros. E que, para se manter, continua matando, explorando, oprimindo.

E entender isso é também entender que outro mundo é possível. Porque se o capitalismo foi feito na história, com violência e sangue, ele pode ser desfeito na história, com luta e esperança. O corpo que foi território de conquista pode voltar a ser território de liberdade. A relação que foi baseada na dominação pode ser refeita baseada na cooperação. A sociedade que foi construída sobre a violência pode ser reconstruída sobre a paz.

Essa é a tarefa do nosso tempo. E ela começa com cada um de nós, no nosso dia a dia, nas nossas relações, nas nossas escolhas. Mas não termina aí. Ela precisa ser coletiva, organizada, permanente. Precisa juntar as lutas de classe, raça e gênero numa só grande luta por libertação.

Porque, no fundo, todas essas opressões têm a mesma raiz: um sistema que coloca o lucro acima da vida, a propriedade acima da dignidade, o poder acima do afeto. E é contra esse sistema que precisamos lutar.

Juntas e juntos, podemos refazer a dinâmica relacional. Podemos construir uma sociedade onde nenhuma mulher seja perseguida ou silenciada, nenhum povo originário seja invadido ou desumanizado, e nenhuma pessoa negra seja escravizada. Uma sociedade onde todos os corpos possam existir em liberdade, dignidade e pertencimento.

 

 

Este texto foi baseado nos capítulos 4 e 5 do livro "Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva", de Silvia Federici, e adaptado para refletir a realidade brasileira. Uma obra essencial para quem quer entender as raízes profundas da opressão de gênero, raça e classe no mundo moderno.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário