O Trono Não Estava Vago: Descartes, o Capitalismo e a Invenção do "Eu" Moderno
A História Que Contaram Para a Gente
Senta que lá vem história.
Na escola, no cursinho, na faculdade, a gente aprendeu mais
ou menos assim: Descartes era um gênio solitário, um filósofo trancado num
quarto quente (dizem que ele gostava de pensar de manhã, na cama, preguiçoso
como um gato), que um dia olhou para o mundo, duvidou de tudo e chegou a uma
conclusão brilhante: "Penso, logo existo."
Fim da história. Filósofo pensa, mundo muda. Certo?
Errado. Muito errado.
Descartes não estava num vácuo. Ele não flutuava acima da
sociedade, num plano espiritual onde só as ideias puras importam. Descartes
estava com os pés no chão da Holanda do século XVII. E esse chão estava
tremendo. Não por causa de terremoto. Por causa de dinheiro.
O Mundo Que Descartes Via Pela Janela
Vamos fazer um exercício de imaginação. Feche os olhos e
tente ver o que Descartes via quando olhava pela janela.
Ele estava na Holanda, um dos lugares mais movimentados da
Europa na época. Não era mais aquele mundo medieval de castelos, servos e
terras imóveis. Era um mundo de navios chegando e partindo, de mercadores
carregando sacos de especiarias, de tecidos vindos da Índia, de prata das
Américas.
Os portos holandeses fervilhavam. Amsterdã se tornava o
centro do comércio mundial. Homens que antes eram nada, filhos de artesãos,
comerciantes sem sangue azul, acumulavam fortunas num piscar de olhos. Eles
compravam, vendiam, especulavam, arriscavam. E ganhavam.
Descartes via isso. Via a ascensão de uma nova classe. Gente
que não herdava o poder do pai ou do avô. Gente que construía o próprio destino
com as próprias mãos, ou melhor, com os próprios negócios.
E esses homens tinham uma mentalidade completamente
diferente da nobreza feudal.
O Mundo Que Estava Morrendo
Para entender a revolução que Descartes fez, e não foi sem
querer, foi de caso pensado, a gente precisa entender o mundo que estava
morrendo.
O mundo feudal era um mundo parado. Não no sentido de que
nada acontecia, mas no sentido de que seu lugar na vida era definido antes de
você nascer.
Seu pai era servo? Você seria servo.
Seu pai era nobre? Você seria nobre.
Seu pai era padre? Bom, aí era mais complicado, mas você entendeu.
Deus tinha um plano. E o plano de Deus incluía cada pessoa
num lugar específico. Você não escolhia. Você aceitava. A Igreja explicava, o
rei governava, e todo mundo sabia seu lugar. Confortável? Não. Previsível? Sim.
A riqueza vinha da terra. E a terra não se move. Não se
multiplica. É o que é. O nobre tinha terra porque o avô teve, porque Deus quis
assim. Ponto.
Nesse mundo, o "eu" não importava muito. O que
importava era seu lugar na ordem divina. Você era parte de um corpo maior, a
cristandade, o reino, a família, a aldeia. Sozinho, você não era nada. Juntinho
dos outros, você existia.
A Classe Que Olhava para Frente
Aí chegam os comerciantes. Os capitalistas, como a gente
chama hoje.
Esses caras eram diferentes. Eles não aceitavam o lugar que
Deus (ou a tradição) tinha dado para eles. Eles queriam mais. E descobriram que
dava para ter mais.
Como? Agindo. Fazendo. Arriscando.
O comerciante não esperava a colheita do próximo ano. Ele
comprava barato aqui, vendia caro ali. Ele emprestava dinheiro com juros
(pecado mortal para a Igreja, aliás). Ele montava sociedade com desconhecidos.
Ele enviava navios para lugares que nem no mapa existiam direito.
E funcionava. Ele ficava rico. Mais rico que muito nobre de
sangue azul.
Mas aí vem o problema: como justificar essa riqueza? Se Deus
determinou tudo, se seu lugar no mundo já estava escrito, por que você tem mais
do que deveria?
A resposta dos comerciantes foi simples e revolucionária:
porque eu fiz. Porque eu pensei, planejei, arrisquei, trabalhei, venci. A
riqueza não vem de Deus. Vem de mim. Da minha ação. Do meu pensamento.
O Giro de Copérnico... na Filosofia
E é aí que entra Descartes. Mas não como um gênio isolado.
Como um tradutor. Um tradutor de sentimentos, de desejos, de uma nova forma de
estar no mundo que já estava fervendo na sociedade.
Os comerciantes precisavam de uma filosofia que dissesse:
"O indivíduo importa. A consciência individual importa. O que você pensa e
faz importa mais do que a tradição, mais do que a Igreja, mais do que o sangue
herdado."
Descartes deu a eles essa filosofia.
Quando ele disse "Penso, logo existo", ele não
estava só fazendo uma descoberta abstrata. Ele estava dando voz a uma classe
inteira que dizia: "Eu penso o mundo, eu organizo o mundo, eu transformo o
mundo. O mundo não vem pronto de Deus. O mundo é o que eu faço dele."
Não foi sem querer. Foi vendo os navios chegando no porto.
Foi conversando com mercadores. Foi sentindo o ar da nova economia. Descartes
percebeu que o centro de gravidade do mundo estava mudando. Estava saindo de
Deus e indo para o homem. Mas não para qualquer homem. Para o homem que age.
Que pensa. Que calcula. Que comercializa. Para o capitalista!
Deus Sai de Cena, o Eu Entra em Campo (Será?)
No mundo feudal, Deus era o grande protagonista. Ele
escrevia o roteiro, dirigia as cenas, escolhia os atores. Os humanos só
representavam. Mas não era só fé que mantinha esse roteiro de pé. A nobreza,
classe dominante da época, tinha seus mecanismos de força: espadas, exércitos,
castelos. A ideologia andava de mãos dadas com a coerção.
No novo mundo capitalista, o protagonista muda de nome. Sai
Deus de cena. Entra o "eu". O indivíduo. Você, com sua capacidade de
pensar, planejar, executar.
Descartes só fez formalizar isso. Ele tirou Deus do centro e
colocou o "eu" no lugar. Mas não por maldade. Era o que a nova
sociedade, a classe capitalista emergente, precisava ouvir.
Aqui mora uma armadilha: O capitalista toma o lugar de
Deus na narrativa, mas a classe trabalhadora continua passiva na cena. A
ideologia quer fazer o trabalhador acreditar que ele é protagonista, que
"se ele quiser, pode". Mas as estruturas de dominação, as mesmas que
antes eram espadas, hoje são contratos, jornadas, salários que não fecham, não
permitem que ele seja ativo de verdade.
Pensa comigo: se Deus determina tudo, por que eu vou
investir num negócio arriscado? Se Deus já decidiu quem ganha e quem perde, por
que eu vou conquistar outras terras? Se meu lugar no mundo está escrito nas
estrelas, por que vou tentar mudar?
O capitalismo precisa de gente que acredite que pode mudar o
próprio destino. Precisa de gente que olhe para o futuro e pense: "Depende
de mim." Precisa de gente que arrisque, invista, empreenda.
Mas a verdade é que nem todo mundo pode. O sistema cria a
ilusão de que todos são protagonistas, mas mantém a maioria como figurante. O
"eu" no trono é, para muitos, uma promessa que nunca se realiza. Uma
fantasia que mantém a máquina girando.
Penso, Logo Faço. Faço, Logo Tenho.
Olha que interessante: a frase de Descartes poderia ser
traduzida para a linguagem dos comerciantes como "Penso, logo faço."
Porque para eles, pensar não era um exercício abstrato.
Pensar era planejar a viagem, calcular o lucro, avaliar o risco, decidir o
investimento. Pensar era ação. Pensar era produzir resultados concretos. Pensar
era fazer dinheiro.
E o resultado dessa ação? Propriedade. Riqueza. Coisas que
você pode chamar de "minhas".
Aí você começa a entender por que o mundo ocidental ficou
tão obcecado com esse tal de "eu". Porque o "eu" é a base
de tudo que a gente construiu nos últimos 400 anos.
Meu negócio. Minha propriedade. Meu dinheiro. Meu sucesso.
Minha carreira. Minha casa. Meu carro. Minha roupa. Meu corpo. Minha opinião.
Meu direito.
Tudo começa com "eu" e "meu". Não é à
toa. É a filosofia de Descartes traduzida para a vida prática.
Mas tem um segredo sujo nessa história: Esse
"eu" que pensa, faz e tem só existe porque tem muita gente
trabalhando junto. O capitalista se apropria da cooperação das pessoas que ele
contrata. Elas trabalham juntas, produzem juntas, mas ele embolsa sozinho o
resultado. Ele não paga a cooperação. Ele paga um salário, mas fica com a
mais-valia – aquela parte do trabalho que não foi paga.
Aí o "eu" do capitalista acumula. Cresce. Vira
império. Enquanto os "eus" dos trabalhadores mal conseguem
sobreviver.
Foi só com Marx, lá no século XIX, que alguém colocou em
xeque essa ilusão. Marx disse: olha, esse "eu" todo-poderoso é uma
mentira. Sozinho, o trabalhador não é nada. É junto, é no coletivo, é no
"nós" que a classe trabalhadora pode, de fato, ser protagonista.
A ilusão do eu é o eu da classe dominante. É a máscara
que faz o rico acreditar que merece tudo sozinho. Mas para a classe dominada,
para quem vive do trabalho, a única alternativa real é o "nós". É a
união. É a cooperação de verdade – não aquela que o patrão rouba, mas aquela
que a classe constrói por si mesma.
Por isso que o sistema insiste tanto no "eu".
Porque o "nós" é perigoso. O "nós" organizado, consciente,
unido, isso sim ameaça o trono.
O Preço do Trono
Mas todo trono tem um preço. E o preço desse "eu"
no centro do mundo foi alto.
Primeiro, veio a solidão. Se o eu é o centro, se minha
consciência é a única coisa que posso provar que existe, o resto vira suspeito.
As outras pessoas? Será que existem mesmo? Será que não são robôs, ilusões,
fantasmas da minha mente? Descartes mesmo se perguntou isso. E a gente, até
hoje, vive essa solidão existencial.
Segundo, veio a competição. Se o mundo é uma grande arena
onde cada eu luta pelo seu espaço, pelo seu lucro, pelo seu sucesso, então os
outros não são parceiros. São concorrentes. São obstáculos. São meios para meus
fins. A colaboração vira estratégia, não valor. O outro vira recurso, não
irmão.
Terceiro, veio a ansiedade. Se tudo depende de mim, se sou
eu o centro, o responsável, o protagonista, então o fracasso é inteiramente
meu. Se eu fracasso, não foi Deus, não foi o destino, não foi o sistema. Fui
eu. Minha mente não pensou direito. Minha ação foi errada. O peso é todo meu.
Quarto, veio a exploração. Porque se o eu é o centro, se
minha liberdade de pensar e agir é o valor máximo, então posso usar o mundo, e
as pessoas, como eu quiser. Desde que dê certo para mim. Desde que meu negócio
cresça. Desde que meu lucro aumente.
O Comerciante e o Filósofo: Uma Aliança Silenciosa
Não foi uma reunião secreta. Não foi uma conspiração. Foi
algo mais sutil, mais profundo.
Os comerciantes viviam uma nova realidade. Eles precisavam
de palavras para explicar essa realidade. Precisavam de conceitos que
justificassem seu lugar no mundo, sua riqueza, seu poder. Precisavam de uma
filosofia que dissesse: "O que você está fazendo é certo. É humano. É
natural."
Descartes forneceu essas palavras, esses conceitos, essa
filosofia. Não porque fosse pago por eles (até onde se sabe, não era). Mas
porque ele respirava o mesmo ar. Via as mesmas mudanças. Sentia o mesmo mundo
novo se formando.
Quando ele disse que o pensamento é a base de tudo, que o eu
é o ponto de partida, que a consciência individual é a fonte da verdade, ele
estava dando aos comerciantes exatamente o que eles precisavam: uma
justificativa filosófica para virar o jogo.
Se o pensamento é a base, então quem pensa o mundo, organiza
o mundo. E quem estava pensando o mundo, organizando o mundo, naquele momento?
Os comerciantes. Os capitalistas. Os homens que calculavam riscos, traçavam
rotas, acumulavam capitais.
Deus estava cada vez mais longe. O "eu" estava
cada vez mais perto. O trono não ficou vazio. Foi ocupado por uma nova realeza:
a realeza do indivíduo que pensa, age, produz, acumula. O indivíduo
capitalista!
A Ironia da História
A ironia é que esse "eu" que Descartes colocou no
trono, esse "eu" que os comerciantes adotaram como bandeira, é o
mesmo "eu" que hoje nos faz sofrer.
A gente vive a era do "eu" máximo. Redes sociais
onde a gente exibe o "eu" 24 horas por dia. Carreiras onde a gente
constrói o "eu" como marca. Relacionamentos onde a gente defende o
"eu" como fortaleza.
E no fim, a gente descobre que esse "eu" é
escorregadio. Que ele muda. Que ele se contradiz. Que ele não cabe em nenhuma
definição. Que quanto mais a gente tenta agarrá-lo, mais ele escorre pelos
dedos.
Os budistas já sabiam disso há 2.500 anos. Mas o Ocidente
preferiu Descartes. Preferiu acreditar num "eu" sólido, permanente,
centro do universo. Porque esse "eu" era útil. Servia aos negócios.
Servia à acumulação. Servia ao capital.
Superar o Trono: Lições dos Que Vivem Sem Ele
Mas aqui precisamos ir além. Não basta "rearrumar os
móveis da sala". Precisamos superar a própria ideia de que alguém, ou
algum "eu", deve estar sentado num trono.
Porque o problema não é apenas quem ocupa o trono. O
problema é o trono em si.
O "eu" no centro, o "eu" que tudo
explica, o "eu" que tudo justifica, esse "eu" se torna um
problema quando vira poder sem controle. Quando acredita que pode tudo, que
merece tudo, que tudo lhe é devido. O "eu" sem limites vira tirano.
Vira explorador. Vira aquele que usa os outros como degraus.
E poder sem controle é sempre perigoso. Sempre. Não importa
se é o poder de um rei, de um patrão, de um pai, ou do nosso próprio
"eu" sobre nossa vida e sobre os outros.
A história já nos mostrou isso muitas vezes. Mas também nos
mostrou alternativas.
A Sabedoria dos Iroqueses
Os Iroqueses, povos indígenas da América do Norte,
construíram algo impressionante séculos atrás. Cinco nações – Mohawk, Oneida,
Onondaga, Cayuga e Seneca – que antes viviam em guerra constante, decidiram se
unir sob a "Grande Lei da Paz".
E o que eles criaram? Um conselho com 50 chefes, onde ninguém
mandava sozinho. As decisões eram tomadas por unanimidade. Qualquer nação podia
vetar qualquer decisão. Os chefes podiam ser destituídos se abusassem do poder.
As reuniões eram públicas. Qualquer pessoa podia falar.
Eles criaram uma federação sem coerção. Uma união sem
chefe executivo. Uma paz sem opressão.
Como disse Engels, estudando os Iroqueses a partir do
trabalho de Morgan: "Temos aqui a oportunidade de estudar a organização de
uma sociedade que ainda não conhece o Estado. O Estado pressupõe um poder
público de coerção."
Os Iroqueses não tinham esse poder de coerção. E mesmo assim
funcionava.
Pierre Clastres, o antropólogo que estudou os Yanomami e
cunhou a expressão "sociedade contra o Estado", se conhecesse os
Iroqueses, provavelmente diria: "Eis aí outra forma de sociedade contra o
Estado, mas não pela guerra, mas pela engenharia política”.
O Que Isso Tem a Ver com Descartes?
Tudo.
Porque Descartes, sem querer ou querendo, colocou o
"eu" num trono. E esse trono virou modelo. Virou padrão. Virou a
única forma de ser humano que a gente conhece.
Mas os Iroqueses nos lembram que existem outras formas.
Formas onde o poder não se concentra. Formas onde a decisão é coletiva. Formas
onde ninguém manda sozinho.
O "eu" no trono, o indivíduo soberano, o pensador
solitário, essa é uma invenção ocidental, capitalista, moderna. Não é a única.
Não é a melhor. É apenas uma.
E talvez a gente precise aprender com quem viveu, e vive, de
outro jeito.
Superar o Trono, Não Apenas Rearrumá-lo
Por isso, não se trata de destruir o trono. Destruir é
fácil. O difícil é superar. É construir algo novo. É aprender a
viver sem a necessidade de um centro. Sem a obsessão por um
"eu" que tudo explica e tudo justifica.
Superar o trono significa:
- Aprender
a compartilhar decisões, não apenas delegar
- Construir coletivos onde
ninguém manda sozinho
- Criar círculos,
não pirâmides
- Entender
que o poder precisa de controle, sempre
- Valorizar
o "nós" sem apagar os "eus"
Não é fácil. Nossos corpos vêm sendo adestrados por 400 anos
para pensar, sentir e agir diferente. Mas é possível. Os Iroqueses mostraram
que é. Outros povos, em outros tempos e lugares, mostram que é.
O "eu" no trono não precisa ser um tirano. Mas
enquanto ele estiver lá, sozinho, centralizando, corremos o risco de que ele se
torne um. Porque poder sem controle corrompe. Sempre.
A solução não é trocar de tirano. É desmontar o trono.
É aprender a viver em círculo, onde todas as pessoas se veem, onde todas falam,
onde todas decidem. Onde ninguém está acima, nem abaixo. Apenas junto.
Uma Última Palavra
Quando você acordar amanhã e pensar "eu",
lembre-se: esse "eu" tem história. Tem dono. Tem endereço. Nasceu na
Holanda do século XVII, filho do comércio e da filosofia ocidental.
Mas ele não precisa ser seu único jeito de existir. Você
pode ser "eu" e também "nós". Pode ser centro e também
periferia. Pode ser protagonista e também coadjuvante.
Pode, quem sabe, aprender a viver sem trono. Em círculo. Com
os outros. Como os Iroqueses. Como a gente ainda pode aprender a ser.
Referências:
ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da
Propriedade Privada e do Estado. 1884.
MORGAN, Lewis Henry. League of the Ho-dé-no-sau-nee,
or Iroquois. Rochester: Sage & Brother, 1851.
DESCARTES, René. Discurso do Método. 1637.
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