domingo, 22 de fevereiro de 2026


 


O Trono Não Estava Vago: Descartes, o Capitalismo e a Invenção do "Eu" Moderno

 

A História Que Contaram Para a Gente

Senta que lá vem história.

Na escola, no cursinho, na faculdade, a gente aprendeu mais ou menos assim: Descartes era um gênio solitário, um filósofo trancado num quarto quente (dizem que ele gostava de pensar de manhã, na cama, preguiçoso como um gato), que um dia olhou para o mundo, duvidou de tudo e chegou a uma conclusão brilhante: "Penso, logo existo."

Fim da história. Filósofo pensa, mundo muda. Certo?

Errado. Muito errado.

Descartes não estava num vácuo. Ele não flutuava acima da sociedade, num plano espiritual onde só as ideias puras importam. Descartes estava com os pés no chão da Holanda do século XVII. E esse chão estava tremendo. Não por causa de terremoto. Por causa de dinheiro.

O Mundo Que Descartes Via Pela Janela

Vamos fazer um exercício de imaginação. Feche os olhos e tente ver o que Descartes via quando olhava pela janela.

Ele estava na Holanda, um dos lugares mais movimentados da Europa na época. Não era mais aquele mundo medieval de castelos, servos e terras imóveis. Era um mundo de navios chegando e partindo, de mercadores carregando sacos de especiarias, de tecidos vindos da Índia, de prata das Américas.

Os portos holandeses fervilhavam. Amsterdã se tornava o centro do comércio mundial. Homens que antes eram nada, filhos de artesãos, comerciantes sem sangue azul, acumulavam fortunas num piscar de olhos. Eles compravam, vendiam, especulavam, arriscavam. E ganhavam.

Descartes via isso. Via a ascensão de uma nova classe. Gente que não herdava o poder do pai ou do avô. Gente que construía o próprio destino com as próprias mãos, ou melhor, com os próprios negócios.

E esses homens tinham uma mentalidade completamente diferente da nobreza feudal.

O Mundo Que Estava Morrendo

Para entender a revolução que Descartes fez, e não foi sem querer, foi de caso pensado, a gente precisa entender o mundo que estava morrendo.

O mundo feudal era um mundo parado. Não no sentido de que nada acontecia, mas no sentido de que seu lugar na vida era definido antes de você nascer.

Seu pai era servo? Você seria servo.
Seu pai era nobre? Você seria nobre.
Seu pai era padre? Bom, aí era mais complicado, mas você entendeu.

Deus tinha um plano. E o plano de Deus incluía cada pessoa num lugar específico. Você não escolhia. Você aceitava. A Igreja explicava, o rei governava, e todo mundo sabia seu lugar. Confortável? Não. Previsível? Sim.

A riqueza vinha da terra. E a terra não se move. Não se multiplica. É o que é. O nobre tinha terra porque o avô teve, porque Deus quis assim. Ponto.

Nesse mundo, o "eu" não importava muito. O que importava era seu lugar na ordem divina. Você era parte de um corpo maior, a cristandade, o reino, a família, a aldeia. Sozinho, você não era nada. Juntinho dos outros, você existia.

A Classe Que Olhava para Frente

Aí chegam os comerciantes. Os capitalistas, como a gente chama hoje.

Esses caras eram diferentes. Eles não aceitavam o lugar que Deus (ou a tradição) tinha dado para eles. Eles queriam mais. E descobriram que dava para ter mais.

Como? Agindo. Fazendo. Arriscando.

O comerciante não esperava a colheita do próximo ano. Ele comprava barato aqui, vendia caro ali. Ele emprestava dinheiro com juros (pecado mortal para a Igreja, aliás). Ele montava sociedade com desconhecidos. Ele enviava navios para lugares que nem no mapa existiam direito.

E funcionava. Ele ficava rico. Mais rico que muito nobre de sangue azul.

Mas aí vem o problema: como justificar essa riqueza? Se Deus determinou tudo, se seu lugar no mundo já estava escrito, por que você tem mais do que deveria?

A resposta dos comerciantes foi simples e revolucionária: porque eu fiz. Porque eu pensei, planejei, arrisquei, trabalhei, venci. A riqueza não vem de Deus. Vem de mim. Da minha ação. Do meu pensamento.

O Giro de Copérnico... na Filosofia

E é aí que entra Descartes. Mas não como um gênio isolado. Como um tradutor. Um tradutor de sentimentos, de desejos, de uma nova forma de estar no mundo que já estava fervendo na sociedade.

Os comerciantes precisavam de uma filosofia que dissesse: "O indivíduo importa. A consciência individual importa. O que você pensa e faz importa mais do que a tradição, mais do que a Igreja, mais do que o sangue herdado."

Descartes deu a eles essa filosofia.

Quando ele disse "Penso, logo existo", ele não estava só fazendo uma descoberta abstrata. Ele estava dando voz a uma classe inteira que dizia: "Eu penso o mundo, eu organizo o mundo, eu transformo o mundo. O mundo não vem pronto de Deus. O mundo é o que eu faço dele."

Não foi sem querer. Foi vendo os navios chegando no porto. Foi conversando com mercadores. Foi sentindo o ar da nova economia. Descartes percebeu que o centro de gravidade do mundo estava mudando. Estava saindo de Deus e indo para o homem. Mas não para qualquer homem. Para o homem que age. Que pensa. Que calcula. Que comercializa. Para o capitalista!

Deus Sai de Cena, o Eu Entra em Campo (Será?)

No mundo feudal, Deus era o grande protagonista. Ele escrevia o roteiro, dirigia as cenas, escolhia os atores. Os humanos só representavam. Mas não era só fé que mantinha esse roteiro de pé. A nobreza, classe dominante da época, tinha seus mecanismos de força: espadas, exércitos, castelos. A ideologia andava de mãos dadas com a coerção.

No novo mundo capitalista, o protagonista muda de nome. Sai Deus de cena. Entra o "eu". O indivíduo. Você, com sua capacidade de pensar, planejar, executar.

Descartes só fez formalizar isso. Ele tirou Deus do centro e colocou o "eu" no lugar. Mas não por maldade. Era o que a nova sociedade, a classe capitalista emergente, precisava ouvir.

Aqui mora uma armadilha: O capitalista toma o lugar de Deus na narrativa, mas a classe trabalhadora continua passiva na cena. A ideologia quer fazer o trabalhador acreditar que ele é protagonista, que "se ele quiser, pode". Mas as estruturas de dominação, as mesmas que antes eram espadas, hoje são contratos, jornadas, salários que não fecham, não permitem que ele seja ativo de verdade.

Pensa comigo: se Deus determina tudo, por que eu vou investir num negócio arriscado? Se Deus já decidiu quem ganha e quem perde, por que eu vou conquistar outras terras? Se meu lugar no mundo está escrito nas estrelas, por que vou tentar mudar?

O capitalismo precisa de gente que acredite que pode mudar o próprio destino. Precisa de gente que olhe para o futuro e pense: "Depende de mim." Precisa de gente que arrisque, invista, empreenda.

Mas a verdade é que nem todo mundo pode. O sistema cria a ilusão de que todos são protagonistas, mas mantém a maioria como figurante. O "eu" no trono é, para muitos, uma promessa que nunca se realiza. Uma fantasia que mantém a máquina girando.

Penso, Logo Faço. Faço, Logo Tenho.

Olha que interessante: a frase de Descartes poderia ser traduzida para a linguagem dos comerciantes como "Penso, logo faço."

Porque para eles, pensar não era um exercício abstrato. Pensar era planejar a viagem, calcular o lucro, avaliar o risco, decidir o investimento. Pensar era ação. Pensar era produzir resultados concretos. Pensar era fazer dinheiro.

E o resultado dessa ação? Propriedade. Riqueza. Coisas que você pode chamar de "minhas".

Aí você começa a entender por que o mundo ocidental ficou tão obcecado com esse tal de "eu". Porque o "eu" é a base de tudo que a gente construiu nos últimos 400 anos.

Meu negócio. Minha propriedade. Meu dinheiro. Meu sucesso. Minha carreira. Minha casa. Meu carro. Minha roupa. Meu corpo. Minha opinião. Meu direito.

Tudo começa com "eu" e "meu". Não é à toa. É a filosofia de Descartes traduzida para a vida prática.

Mas tem um segredo sujo nessa história: Esse "eu" que pensa, faz e tem só existe porque tem muita gente trabalhando junto. O capitalista se apropria da cooperação das pessoas que ele contrata. Elas trabalham juntas, produzem juntas, mas ele embolsa sozinho o resultado. Ele não paga a cooperação. Ele paga um salário, mas fica com a mais-valia – aquela parte do trabalho que não foi paga.

Aí o "eu" do capitalista acumula. Cresce. Vira império. Enquanto os "eus" dos trabalhadores mal conseguem sobreviver.

Foi só com Marx, lá no século XIX, que alguém colocou em xeque essa ilusão. Marx disse: olha, esse "eu" todo-poderoso é uma mentira. Sozinho, o trabalhador não é nada. É junto, é no coletivo, é no "nós" que a classe trabalhadora pode, de fato, ser protagonista.

A ilusão do eu é o eu da classe dominante. É a máscara que faz o rico acreditar que merece tudo sozinho. Mas para a classe dominada, para quem vive do trabalho, a única alternativa real é o "nós". É a união. É a cooperação de verdade – não aquela que o patrão rouba, mas aquela que a classe constrói por si mesma.

Por isso que o sistema insiste tanto no "eu". Porque o "nós" é perigoso. O "nós" organizado, consciente, unido,  isso sim ameaça o trono.

O Preço do Trono

Mas todo trono tem um preço. E o preço desse "eu" no centro do mundo foi alto.

Primeiro, veio a solidão. Se o eu é o centro, se minha consciência é a única coisa que posso provar que existe, o resto vira suspeito. As outras pessoas? Será que existem mesmo? Será que não são robôs, ilusões, fantasmas da minha mente? Descartes mesmo se perguntou isso. E a gente, até hoje, vive essa solidão existencial.

Segundo, veio a competição. Se o mundo é uma grande arena onde cada eu luta pelo seu espaço, pelo seu lucro, pelo seu sucesso, então os outros não são parceiros. São concorrentes. São obstáculos. São meios para meus fins. A colaboração vira estratégia, não valor. O outro vira recurso, não irmão.

Terceiro, veio a ansiedade. Se tudo depende de mim, se sou eu o centro, o responsável, o protagonista, então o fracasso é inteiramente meu. Se eu fracasso, não foi Deus, não foi o destino, não foi o sistema. Fui eu. Minha mente não pensou direito. Minha ação foi errada. O peso é todo meu.

Quarto, veio a exploração. Porque se o eu é o centro, se minha liberdade de pensar e agir é o valor máximo, então posso usar o mundo, e as pessoas, como eu quiser. Desde que dê certo para mim. Desde que meu negócio cresça. Desde que meu lucro aumente.

O Comerciante e o Filósofo: Uma Aliança Silenciosa

Não foi uma reunião secreta. Não foi uma conspiração. Foi algo mais sutil, mais profundo.

Os comerciantes viviam uma nova realidade. Eles precisavam de palavras para explicar essa realidade. Precisavam de conceitos que justificassem seu lugar no mundo, sua riqueza, seu poder. Precisavam de uma filosofia que dissesse: "O que você está fazendo é certo. É humano. É natural."

Descartes forneceu essas palavras, esses conceitos, essa filosofia. Não porque fosse pago por eles (até onde se sabe, não era). Mas porque ele respirava o mesmo ar. Via as mesmas mudanças. Sentia o mesmo mundo novo se formando.

Quando ele disse que o pensamento é a base de tudo, que o eu é o ponto de partida, que a consciência individual é a fonte da verdade, ele estava dando aos comerciantes exatamente o que eles precisavam: uma justificativa filosófica para virar o jogo.

Se o pensamento é a base, então quem pensa o mundo, organiza o mundo. E quem estava pensando o mundo, organizando o mundo, naquele momento? Os comerciantes. Os capitalistas. Os homens que calculavam riscos, traçavam rotas, acumulavam capitais.

Deus estava cada vez mais longe. O "eu" estava cada vez mais perto. O trono não ficou vazio. Foi ocupado por uma nova realeza: a realeza do indivíduo que pensa, age, produz, acumula. O indivíduo capitalista!

A Ironia da História

A ironia é que esse "eu" que Descartes colocou no trono, esse "eu" que os comerciantes adotaram como bandeira, é o mesmo "eu" que hoje nos faz sofrer.

A gente vive a era do "eu" máximo. Redes sociais onde a gente exibe o "eu" 24 horas por dia. Carreiras onde a gente constrói o "eu" como marca. Relacionamentos onde a gente defende o "eu" como fortaleza.

E no fim, a gente descobre que esse "eu" é escorregadio. Que ele muda. Que ele se contradiz. Que ele não cabe em nenhuma definição. Que quanto mais a gente tenta agarrá-lo, mais ele escorre pelos dedos.

Os budistas já sabiam disso há 2.500 anos. Mas o Ocidente preferiu Descartes. Preferiu acreditar num "eu" sólido, permanente, centro do universo. Porque esse "eu" era útil. Servia aos negócios. Servia à acumulação. Servia ao capital.

Superar o Trono: Lições dos Que Vivem Sem Ele

Mas aqui precisamos ir além. Não basta "rearrumar os móveis da sala". Precisamos superar a própria ideia de que alguém, ou algum "eu", deve estar sentado num trono.

Porque o problema não é apenas quem ocupa o trono. O problema é o trono em si.

O "eu" no centro, o "eu" que tudo explica, o "eu" que tudo justifica, esse "eu" se torna um problema quando vira poder sem controle. Quando acredita que pode tudo, que merece tudo, que tudo lhe é devido. O "eu" sem limites vira tirano. Vira explorador. Vira aquele que usa os outros como degraus.

E poder sem controle é sempre perigoso. Sempre. Não importa se é o poder de um rei, de um patrão, de um pai, ou do nosso próprio "eu" sobre nossa vida e sobre os outros.

A história já nos mostrou isso muitas vezes. Mas também nos mostrou alternativas.

A Sabedoria dos Iroqueses

Os Iroqueses, povos indígenas da América do Norte, construíram algo impressionante séculos atrás. Cinco nações – Mohawk, Oneida, Onondaga, Cayuga e Seneca – que antes viviam em guerra constante, decidiram se unir sob a "Grande Lei da Paz".

E o que eles criaram? Um conselho com 50 chefes, onde ninguém mandava sozinho. As decisões eram tomadas por unanimidade. Qualquer nação podia vetar qualquer decisão. Os chefes podiam ser destituídos se abusassem do poder. As reuniões eram públicas. Qualquer pessoa podia falar.

Eles criaram uma federação sem coerção. Uma união sem chefe executivo. Uma paz sem opressão.

Como disse Engels, estudando os Iroqueses a partir do trabalho de Morgan: "Temos aqui a oportunidade de estudar a organização de uma sociedade que ainda não conhece o Estado. O Estado pressupõe um poder público de coerção."

Os Iroqueses não tinham esse poder de coerção. E mesmo assim funcionava.

Pierre Clastres, o antropólogo que estudou os Yanomami e cunhou a expressão "sociedade contra o Estado", se conhecesse os Iroqueses, provavelmente diria: "Eis aí outra forma de sociedade contra o Estado, mas não pela guerra, mas pela engenharia política”.

O Que Isso Tem a Ver com Descartes?

Tudo.

Porque Descartes, sem querer ou querendo, colocou o "eu" num trono. E esse trono virou modelo. Virou padrão. Virou a única forma de ser humano que a gente conhece.

Mas os Iroqueses nos lembram que existem outras formas. Formas onde o poder não se concentra. Formas onde a decisão é coletiva. Formas onde ninguém manda sozinho.

O "eu" no trono, o indivíduo soberano, o pensador solitário, essa é uma invenção ocidental, capitalista, moderna. Não é a única. Não é a melhor. É apenas uma.

E talvez a gente precise aprender com quem viveu, e vive, de outro jeito.

Superar o Trono, Não Apenas Rearrumá-lo

Por isso, não se trata de destruir o trono. Destruir é fácil. O difícil é superar. É construir algo novo. É aprender a viver sem a necessidade de um centro. Sem a obsessão por um "eu" que tudo explica e tudo justifica.

Superar o trono significa:

  • Aprender a compartilhar decisões, não apenas delegar
  • Construir coletivos onde ninguém manda sozinho
  • Criar círculos, não pirâmides
  • Entender que o poder precisa de controle, sempre
  • Valorizar o "nós" sem apagar os "eus"

Não é fácil. Nossos corpos vêm sendo adestrados por 400 anos para pensar, sentir e agir diferente. Mas é possível. Os Iroqueses mostraram que é. Outros povos, em outros tempos e lugares, mostram que é.

O "eu" no trono não precisa ser um tirano. Mas enquanto ele estiver lá, sozinho, centralizando, corremos o risco de que ele se torne um. Porque poder sem controle corrompe. Sempre.

A solução não é trocar de tirano. É desmontar o trono. É aprender a viver em círculo, onde todas as pessoas se veem, onde todas falam, onde todas decidem. Onde ninguém está acima, nem abaixo. Apenas junto.

Uma Última Palavra

Quando você acordar amanhã e pensar "eu", lembre-se: esse "eu" tem história. Tem dono. Tem endereço. Nasceu na Holanda do século XVII, filho do comércio e da filosofia ocidental.

Mas ele não precisa ser seu único jeito de existir. Você pode ser "eu" e também "nós". Pode ser centro e também periferia. Pode ser protagonista e também coadjuvante.

Pode, quem sabe, aprender a viver sem trono. Em círculo. Com os outros. Como os Iroqueses. Como a gente ainda pode aprender a ser.

 

Referências:

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. 1884.

MORGAN, Lewis Henry. League of the Ho-dé-no-sau-nee, or Iroquois. Rochester: Sage & Brother, 1851.

DESCARTES, René. Discurso do Método. 1637.

 

 

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