O Berço do Poder: Como a Teoria do Apego Revela a
Instalação do Controle Social desde a Primeira Infância
Uma análise aprofundada sobre como as relações de apego
na infância moldam não apenas nossa psicologia individual, mas também nossa
relação com a autoridade, a obediência e as estruturas de poder ao longo da
vida.
A Política Começa no Colo
Quando pensamos em "poder" e "controle
social", geralmente imaginamos instituições: o Estado, a polícia, as leis,
o sistema econômico, o chefe autoritário. Imaginamos forças externas que nos
pressionam, nos regulam e nos moldam. Raramente olhamos para dentro. Raramente
consideramos que o poder mais duradouro talvez seja aquele que se instala em
nós antes mesmo que tenhamos consciência de nós mesmos.
A teoria do apego, desenvolvida pelo psiquiatra e
psicanalista britânico John Bowlby entre as décadas de 1950 e 1970, é conhecida
principalmente como uma teoria sobre o desenvolvimento emocional infantil. Mas
suas implicações vão muito além da psicologia clínica. Quando examinada à luz
da filosofia política e da crítica social, a teoria do apego revela-se uma
descrição precisa de como o poder e o controle se instalam na subjetividade
humana desde o berço, um verdadeiro "manual de instruções" da
servidão voluntária em sua fase mais inicial e profunda.
Este artigo propõe uma jornada por essa interseção entre
psicologia do desenvolvimento, teoria crítica e filosofia política, buscando
compreender como as primeiras relações de cuidado moldam não apenas seres
humanos, mas cidadãos, súditos e sujeitos.
A Arquitetura do Apego: Sobrevivência Como Primeira Lição
de Poder
1.1 O Imperativo Biológico da Conexão
Para compreender a dimensão política do apego, é preciso
primeiro entender sua base biológica. Bowlby, influenciado pela etologia e pela
teoria evolucionista, propôs que os seres humanos nascem com um sistema
comportamental inato destinado a manter proximidade com figuras de cuidado.
Este sistema, que ele chamou de sistema de apego, foi selecionado
evolutivamente porque aumentar as chances de sobrevivência da prole em
ambientes ancestrais hostis.
Em termos simples: um bebê humano, ao contrário de muitos
outros mamíferos, é completamente dependente por um longo período. Sem a
proteção e o cuidado de adultos, sua sobrevivência é impossível. A natureza,
então, dotou o bebê de mecanismos para garantir essa proteção: choro, sorriso,
busca de contato, protesto diante da separação. São comportamentos automáticos,
não escolhidos, destinados a uma única finalidade: manter o cuidador
por perto quando for necessário atender a alguma necessidade básica.
O que parece uma descrição puramente biológica já carrega
uma primeira implicação política fundamental: a sobrevivência depende
da conexão, e a conexão depende da resposta da outra pessoa. O bebê não tem
escolha. Ele precisa da pessoa cuidadora, e fará o que for necessário para
manter esse vínculo.
1.2 A Natureza Incondicional do Apego
Uma das descobertas mais perturbadoras de Bowlby é que a
criança desenvolve apego à pessoa cuidadora mesmo quando essa cuidadora
é negligente, insensível ou abusiva. O apego não é seletivo no sentido de
escolher a "melhor" pessoa cuidadora; ele é um imperativo. A criança
se apega à figura disponível porque, do ponto de vista da sobrevivência,
qualquer vínculo é melhor que nenhum vínculo.
A filósofa Judith Butler, em seus trabalhos sobre
precariedade e vida psíquica do poder, oferece uma leitura iluminadora desse
fenômeno. Butler observa que o bebê pode buscar conforto justamente na figura
que lhe causa medo, uma situação complexa porque a pessoa que deveria proteger
a gente é a mesma que nos machuca, mas é comum em contextos de cuidado
ambivalente ou abusivo. Ela escreve sobre a "vinculação apaixonada à
subordinação", um conceito que ajuda a entender como podemos nos tornar
dependentes exatamente daqueles que nos subordinam.
Essa dinâmica, observada no berço, é a matriz de fenômenos
políticos posteriores. A subordinação a líderes autoritários, a lealdade a
instituições que nos exploram, a dificuldade de romper com vínculos destrutivos,
tudo isso encontra um protótipo na relação inicial de apego.
1.3 A "Situação Estranha" e os Estilos de Apego
A psicóloga Mary Ainsworth, colaboradora de Bowlby,
desenvolveu um procedimento experimental chamado "Situação Estranha"
que revolucionou o estudo do apego. O experimento consiste em observar a
resposta de bebês (entre 12 e 18 meses) a uma série de separações e reencontros
com a mãe em um ambiente desconhecido.
A partir dessas observações, Ainsworth identificou três
padrões principais de apego, posteriormente ampliados para quatro. Cada um
deles representa uma estratégia diferente de lidar com a disponibilidade, ou
indisponibilidade, da figura de cuidado. E cada um deles carrega implicações
profundas para a formação da subjetividade política.
Os Estilos de Apego Como Matrizes da Relação com a
Autoridade
2.1 Apego Seguro: A Confiança Como Fundamento da
Autonomia
No apego seguro, a criança utiliza a pessoa
cuidadora como "base segura" para explorar o ambiente. Quando a cuidadora
se ausenta, a criança pode mostrar desconforto, mas se acalma rapidamente ao
reencontrá-la e retoma a exploração. Esse padrão ocorre quando a cuidadora é
consistentemente sensível e responsiva às necessidades da criança.
A mensagem internalizada pela criança é: "Quando
preciso, você está disponível. Minhas necessidades são legítimas. Posso buscar
conforto sem medo de rejeição. Posso explorar o mundo porque sei que tenho um
porto seguro para onde voltar."
Em termos políticos, o apego seguro pode ser visto como a
base para uma relação saudável com a autoridade e com a coletividade. A pessoa
que desenvolveu apego seguro tende a:
- Confiar
nos outros sem perder a autonomia.
- Buscar
ajuda quando necessária, sem sentir-se humilhada ou dependente.
- Estabelecer
limites claros em relacionamentos.
- Questionar
autoridades quando necessário, sem medo paralisante de retaliação.
- Participar
de coletivos mantendo sua individualidade.
É o modelo do ser humano crítico – alguém
capaz de cooperar sem se submeter, de atender um pedido quando justo e não
atender quando necessário.
2.2 Apego Inseguro-Evitativo: A Autonomia Como Defesa
No apego evitativo, a criança parece indiferente
à presença ou ausência da mãe. Não busca contato, não demonstra preferência.
Nos reencontros, pode ignorar ativamente a figura de cuidado. Esse padrão
emerge quando o cuidador consistentemente rejeita ou se afasta diante das
demonstrações de necessidade da criança.
Estudos fisiológicos revelam o paradoxo do apego evitativo:
embora a criança pareça calma por fora, sua frequência cardíaca está acelerada
e seus níveis de cortisol (hormônio do estresse) estão elevados. A aparente
indiferença é, na verdade, uma defesa contra a dor da rejeição. A
criança aprendeu que expressar necessidade leva à frustração, então suprime a
expressão, mas o corpo continua sofrendo.
A mensagem internalizada é: "Não posso confiar que
minhas necessidades serão atendidas. É melhor não precisar. É melhor não
sentir. Eu dou conta sozinho."
Em termos políticos, o apego evitativo prepara o terreno
para:
- Dificuldade
de pedir ajuda, mesmo quando necessário.
- Isolamento
e pseudoindependência.
- Incapacidade
de reconhecer a interdependência como condição humana.
- Submissão
silenciosa a condições adversas, sem protesto.
- Dificuldade
de formar vínculos coletivos genuínos.
É o modelo do ser humano isolado – aquele
que enfrenta sozinho as adversidades do sistema, sem reclamar, sem se
organizar, sem acreditar que a coletividade possa fazer diferença.
2.3 Apego Inseguro-Resistente (Ambivalente): A Ansiedade
Como Moeda de Troca
No apego resistente, a criança mostra intenso
desconforto na separação, mas no reencontro alterna entre busca de contato e
resistência raivosa. Não consegue se acalmar nem retomar a exploração. Esse
padrão ocorre quando o cuidador é inconsistente, às vezes responsivo, às vezes
intrusivo ou negligente.
A mensagem internalizada é complexa e contraditória:
"Não sei se posso contar com você. Preciso manter você perto, mas não
confio que ficará. Minhas necessidades só são atendidas se eu me agarrar a você
com força."
Em termos políticos, o apego resistente pode levar a:
- Relações
de dependência ambivalente com figuras de autoridade.
- Oscilação
entre idealização e desvalorização de líderes ou instituições.
- Ansiedade
constante em relação à aceitação e pertencimento.
- Dificuldade
de encontrar posição equilibrada entre submissão e rebeldia.
- Atração
por líderes que alternam promessas de salvação e ameaças de abandono.
É o modelo do ser humano ansioso – aquele
que oscila entre a adesão fervorosa e a desconfiança paranoica, preso em uma
relação de dependência emocional com o poder.
2.4 Apego Desorganizado: O Terror Sem Saída
Posteriormente, pesquisadores identificaram um quarto
padrão: o apego desorganizado. Nessas crianças, observam-se
comportamentos contraditórios, congelamento, movimentos desconexos. É o padrão
associado a situações de trauma, abuso ou medo intenso. A figura de cuidado é,
ao mesmo tempo, a fonte de segurança e a fonte de ameaça, uma contradição insolúvel
para o sistema de apego.
A mensagem internalizada é devastadora: "A pessoa que
deveria me proteger é a mesma que me ameaça. Não há saída. Não há estratégia
que funcione."
Em termos políticos, o apego desorganizado pode estar na
raiz de:
- Paralisia
diante de situações de opressão.
- Dificuldade
extrema de confiar em qualquer autoridade ou instituição.
- Reprodução
inconsciente de dinâmicas abusivas.
- Suscetibilidade
a discursos que prometem ordem a qualquer custo.
- Dificuldade
de construir narrativas coerentes sobre si e sobre o mundo.
É o modelo do ser humano traumatizado –
aquele para quem o poder é sempre uma experiência de terror, e para quem a
política pode ser tanto uma promessa de redenção quanto uma ameaça de repetição
do trauma.
A Internalização do Controle – Como o Poder se Torna
Desejo
3.1 Para Além da Obediência: A Incorporação das Regras
O psicanalista francês Jacques Lacan, contemporâneo de
Bowlby, desenvolveu uma teoria sobre como a lei e a autoridade são
internalizadas na psique. Para Lacan, a entrada na ordem simbólica, a aquisição
da linguagem e da cultura, implica necessariamente uma subordinação à "lei
do pai" ou à "função paterna", que representa as regras e
proibições fundamentais da sociedade patriarcal que vivemos.
Mas o que a teoria do apego acrescenta a essa compreensão é
a dimensão pré-simbólica, corporal, afetiva dessa
internalização. Antes que a criança compreenda qualquer regra verbalmente, ela
já aprendeu, no corpo, que:
- Certas
expressões de necessidade são aceitas, outras são rejeitadas.
- A
disponibilidade do outro depende de seu próprio comportamento.
- O
amor e a segurança têm condições implícitas.
- A
conexão exige sacrifício da espontaneidade.
Essas lições não são ensinadas por palavras. São gravadas
diretamente no sistema nervoso, nas respostas emocionais, nos padrões de
ativação e relaxamento. São, para usar uma expressão do filósofo Gilles
Deleuze, "afetos incorporados", disposições que se tornam
parte da própria textura do ser.
3.2 A Contribuição de Lukács: Reificação e Subjetividade
O filósofo húngaro György Lukács, em sua obra seminal História
e Consciência de Classe (1923), desenvolveu o conceito de reificação para
descrever como as relações sociais no capitalismo assumem a forma de relações
entre coisas. Lukács argumentava que a mercadoria não é apenas um objeto
econômico, mas uma forma que penetra toda a consciência, transformando a
percepção que temos de nós mesmos e dos outros.
O que a teoria do apego permite enxergar é que a reificação
começa muito antes da consciência adulta. Ela começa quando o bebê aprende a se
ver através dos olhos do cuidador, a se moldar para ser visto, a se controlar
para ser aceito. A criança pequena, em sua busca por sobrevivência afetiva, já
está experimentando uma forma primitiva de coisificação de si mesma:
ela aprende a se apresentar como ela considera objeto adequado ao desejo do
outro, a suprimir aspectos de si que ela acha que não se encaixam no que o
cuidador pode acolher.
Essa dinâmica, repetida milhões de vezes em milhões de
berços, cria uma população de adultos para quem a adaptação ao outro é
uma segunda natureza, anterior à própria linguagem. Para quem a obediência
às expectativas alheias é tão automática quanto respirar. Para quem
o conflito e a divergência são vividos como ameaças de
aniquilação, porque ecoam aquela ameaça primordial de perda do amor e da
segurança.
3.3 O Conceito de "Otimismo Cruel" em Lauren
Berlant
A teórica cultural Lauren Berlant cunhou uma expressão que
ilumina essa dinâmica de forma brilhante: "otimismo cruel" (cruel
optimism). Berlant descreve situações em que aquilo que desejamos está
intrinsicamente ligado à fonte de nosso sofrimento, situações em que a própria
relação que nos promete realização é a mesma que nos mantém presos em condições
de opressão.
O vínculo de apego, especialmente quando inseguro, é o
protótipo do otimismo cruel. A criança deseja o amor e a segurança do cuidador,
mas esse mesmo cuidador pode ser a fonte de ansiedade, rejeição ou medo. No
entanto, porque o vínculo é necessário para a sobrevivência, a criança não pode
simplesmente abandoná-lo. Ela precisa manter a esperança, precisa continuar
desejando, precisa se adaptar, mesmo que isso signifique sacrificar partes
fundamentais de si mesma.
Na vida adulta, esse padrão se repete em múltiplos
contextos: relações amorosas abusivas, empregos que adoecem, vínculos com
líderes autoritários, lealdade a instituições que exploram. Em todos esses
casos, há um elemento de "otimismo cruel": a promessa de realização
está justamente no que nos destrói, e a dificuldade de romper vem da
impossibilidade de imaginar outra forma de existir.
A Família Como Primeira Instituição de Poder
4.1 Foucault e o Poder Disciplinar
O filósofo Michel Foucault revolucionou a teoria do poder ao
mostrar que as sociedades modernas não funcionam principalmente pela repressão
violenta, mas pela disciplina – pela formação de corpos e
almas que internalizam as regras e se autovigiam. Em obras como Vigiar
e Punir (1975) e História da Sexualidade (1976),
Foucault analisa como instituições como a escola, o exército, a fábrica e a
prisão produzem "corpos dóceis", sujeitos que obedecem não por medo
do castigo, mas por terem incorporado a vigilância como parte de si mesmos.
Mas onde começa essa produção de corpos dóceis? Foucault
aponta para a família como uma "ilha de poder soberano" dentro do
arquipélago disciplinar. Em seus cursos sobre o poder psiquiátrico, ele
descreve a família como uma instituição híbrida, que combina elementos do poder
soberano (a autoridade incontestável do pai) com funções disciplinares (a
normalização dos comportamentos).
A teoria do apego permite enxergar com precisão como essa
primeira disciplina opera. Não através de regras explícitas ou castigos
formais, mas através da gestão da disponibilidade afetiva. A
criança aprende que certos comportamentos atraem proximidade, outros atraem
distanciamento. Aprende a modular sua expressão para maximizar o contato e
minimizar a rejeição. Aprende que o amor é contingente, que o pertencimento
exige conformidade.
4.2 Controle Psicológico e Autonomia
A pesquisa contemporânea em psicologia do desenvolvimento
distingue duas formas de controle parental:
O controle comportamental envolve regras,
limites e supervisão, elementos necessários para a segurança e socialização da
criança, especialmente quando aplicados de forma consistente e razoável. Trata-se
da ética do cuidado, da liberdade sem permissividade e limites sem sujeição.
O controle psicológico, por outro lado, envolve
a manipulação do mundo emocional da criança: retirada de amor, indução de
culpa, constrangimento, invasão da privacidade, desrespeito à individualidade.
É uma forma de poder que age diretamente sobre a subjetividade, moldando não
apenas o comportamento, mas os sentimentos, pensamentos e desejos. Trata-se de um
relacionamento fundado no medo, na culpa e na vergonha.
Estudos longitudinais, como os conduzidos por Barbara
Oudekerk e colaboradores na Universidade da Virgínia, mostram que o controle
psicológico na adolescência está associado a dificuldades significativas nos
relacionamentos adultos, menor capacidade de assertividade, maior dependência
emocional, dificuldade de estabelecer intimidade genuína.
O que esses estudos revelam é que o poder exercido nas
relações íntimas de cuidado tem efeitos duradouros sobre a capacidade de autonomia
relacional, justamente a capacidade necessária para uma participação
política crítica e independente.
Servidão Voluntária – A Antiga Pergunta, Nova Resposta
5.1 O Problema de La Boétie
Em meados do século XVI, o filósofo francês Étienne de La
Boétie, com apenas 18 anos, escreveu um pequeno texto que se tornaria um
clássico do pensamento político: o Discurso da Servidão Voluntária.
Nele, La Boétie formula uma pergunta que atravessa os séculos:
"Por que os povos aceitam a tirania? Por que tantos
se submetem a um único homem, quando poderiam simplesmente recusar-se a
obedecer?"
A resposta de La Boétie é complexa e antecipa muitas
análises posteriores. Ele fala do costume, do hábito, da educação que nos
acostuma à submissão desde a infância. Fala do fascínio que o poder exerce
sobre os súditos. Fala da cadeia de interesses que liga os oprimidos aos
opressores.
Mas falta a La Boétie – como faltou a tantos pensadores
políticos até o século XX – uma compreensão detalhada dos mecanismos
psíquicos dessa servidão. Como exatamente o hábito da obediência se
forma? Como a submissão se torna desejável?
5.2 A Resposta da Teoria do Apego
A teoria do apego oferece uma resposta precisa a essas
perguntas. A servidão voluntária começa quando a criança aprende que:
- O
amor e a segurança não são incondicionais, mas dependem de seu
comportamento.
- A
expressão espontânea de necessidades e desejos pode ser perigosa.
- A
adaptação ao outro é a estratégia mais segura para sobreviver
emocionalmente.
- A
própria identidade deve ser moldada para caber no que o outro pode
aceitar.
Essas lições, repetidas milhares de vezes nos primeiros anos
de vida, criam uma disposição profunda para a subordinação, uma
tendência a buscar segurança na adequação às expectativas alheias, a evitar
conflitos a qualquer custo, a sentir-se ansioso diante da própria autonomia.
Quando, mais tarde, esse indivíduo se depara com figuras de
autoridade – líderes políticos, chefes, instituições – seu sistema de apego é
ativado. As mesmas dinâmicas que organizaram suas primeiras relações são
reencenadas: busca de aprovação, medo de rejeição, dificuldade de discordar,
tendência a se submeter.
O poder político, assim, encontra terreno fértil em
subjetividades já preparadas para a obediência. Não precisa recorrer
constantemente à força bruta, embora possa fazê-lo. Basta ativar os padrões de
apego, prometer segurança em troca de submissão, oferecer pertencimento em
troca de conformidade.
5.3 A Contribuição de Deleuze e Guattari: Desejo e
Fascismo
Gilles Deleuze e Félix Guattari, em O Anti-Édipo (1972),
propuseram uma tese radical: o desejo pode desejar sua própria
repressão. Para eles, o fascismo não é apenas um fenômeno político externo,
mas uma possibilidade inscrita no próprio desejo, uma tendência a buscar a
própria servidão, a encontrar satisfação na submissão, a desejar a própria
morte.
Essa tese, que chocou muitos leitores, torna-se
compreensível à luz da teoria do apego. Se, nos primeiros anos, a criança
aprende que a segurança está na submissão ao cuidador, mesmo quando esse
cuidador é fonte de medo, então o desejo realmente se estrutura em torno da
servidão. A obediência torna-se não apenas uma estratégia, mas uma necessidade
afetiva, uma fonte contraditória de conforto.
O desafio político, para Deleuze e Guattari, é liberar o
desejo dessa captura, criar condições para que o desejo possa fluir em direção
à vida, à criação, à liberdade, em vez de se coagular em torno da submissão e
da morte.
Parte VI: A Liberdade Possível – Descolonizar a
Subjetividade
6.1 Consciência Como Primeiro Passo
Se o poder se instala em nós tão cedo e tão profundamente, a
liberdade não pode ser apenas uma conquista externa. Ela exige um
trabalho interno, um processo de tomada de consciência e
transformação da própria subjetividade.
Esse trabalho começa com a percepção de que muitos dos
nossos medos, dificuldades e padrões de relacionamento não são
"naturais" nem "defeitos pessoais". São respostas
aprendidas, estratégias que desenvolvemos para sobreviver emocionalmente em
ambientes que nem sempre puderam nos acolher plenamente.
Reconhecer isso não é culpar os cuidadores. A maioria dos
pais faz o melhor que pode com os recursos que tem, repetindo muitas vezes
padrões que eles próprios aprenderam. Trata-se, antes, de compreender as origens de
nossos padrões para podermos, conscientemente, escolher se queremos mantê-los
ou transformá-los.
6.2 A Cartografia de Suely Rolnik: Mapear para Libertar
A psicanalista e filósofa brasileira Suely Rolnik
desenvolveu, em diálogo com Félix Guattari, o método da cartografia,
uma prática de mapeamento dos territórios existenciais, das zonas de captura e
das linhas de fuga do desejo.
Para Rolnik, a descolonização da subjetividade exige que
possamos:
- Identificar
as vozes internas que repetem discursos de controle.
- Reconhecer
os afetos que nos paralisam ou nos impulsionam.
- Mapear
as relações que nos diminuem e aquelas que nos fortalecem.
- Experimentar
novos modos de existência, mesmo que em pequena escala.
A cartografia não é um método para "consertar" a
subjetividade, mas para explorar suas possibilidades, para
abrir espaço para que o novo possa emergir.
6.3 Comunidades de Apego Seguro
Se o apego inseguro produz subjetividades dóceis, o apego
seguro, ou sua reparação, pode produzir subjetividades críticas e
criativas. A boa notícia é que os padrões de apego não são imutáveis.
Relações significativas na vida adulta, parcerias amorosas, amizades profundas,
comunidades de apoio, terapia, podem oferecer experiências corretivas que
gradualmente transformam nossos modelos internos de relação.
Isso tem implicações políticas profundas. Construir
comunidades baseadas na confiança, no cuidado mútuo e na aceitação
incondicional não é apenas um projeto pessoal, é um projeto político. É
criar ambientes onde as pessoas possam experimentar formas de relação que não
reproduzam as dinâmicas de poder e controle aprendidas na infância. É oferecer
experiências de apego seguro em escala coletiva, desfazendo os nós da servidão
voluntária.
6.4 A Criança Como Sujeito Político
Por fim, pensar a teoria do apego em sua dimensão política
nos convida a reconsiderar o lugar da criança na sociedade. Se as primeiras
relações são tão fundamentais para a formação de subjetividades livres ou
submissas, então o cuidado com a infância é uma questão central de justiça
social e democracia.
Isso significa:
- Valorizar
socialmente o trabalho de cuidado.
- Garantir
condições para que cuidadores possam oferecer presença sensível e
consistente.
- Repensar
instituições que separam precocemente crianças de suas redes de apoio.
- Criar
espaços coletivos de cuidado que distribuam a responsabilidade pelo
desenvolvimento infantil.
- Reconhecer
que a luta por uma sociedade mais justa passa também pela transformação
das relações nos primeiros anos de vida.
Do Berço à Revolução
A teoria do apego, quando lida em sua profundidade política,
revela-se uma ferramenta indispensável para compreender não apenas o
desenvolvimento individual, mas a própria reprodução das estruturas de poder.
Ela nos mostra que o poder não é apenas algo que enfrentamos lá fora, nas
instituições e nas leis. É algo que carregamos dentro de nós, nos padrões mais
íntimos de nosso desejo e de nossa maneira de nos relacionarmos.
O berço é o primeiro palco da política. É ali
que aprendemos as coreografias básicas da obediência e da resistência. É ali
que se escreve, sem palavras, o primeiro rascunho de nossa relação com a
autoridade, com o pertencimento, com a liberdade.
Mas se esse rascunho foi escrito, ele pode ser reescrito. Se
as coreografias foram aprendidas, novos passos podem ser ensaiados. A revolução
mais profunda, aquela que pode sustentar todas as outras, é a que acontece
quando olhamos para dentro e decidimos desmontar, peça por peça, as estruturas
de controle que habitam nosso próprio coração.
A servidão voluntária pode começar no berço. Mas a liberdade
também pode começar ali, no momento em que compreendemos nossa história e
decidimos, consciente e coletivamente, escrever um novo futuro.
Não se trata de culpar o passado, mas de compreendê-lo
para superá-lo. Não se trata de buscar um "apego perfeito" que
nos imunize contra o poder, mas de construir relações, pessoais e políticas,
que possam sustentar nossa autonomia sem nos isolar, nossa conexão sem nos
submeter.
A pergunta que La Boétie fez há quase cinco séculos continua
viva: por que tantos aceitam a servidão? A teoria do apego nos
dá parte da resposta: porque aprendemos, muito cedo, que a sobrevivência exige
submissão. Mas também nos dá parte da saída: porque podemos aprender, ao longo
da vida, que a verdadeira segurança está na capacidade de nos relacionarmos sem
nos perdermos, de pertencermos sem nos anularmos.
Essa é a revolução mais íntima e, talvez por isso mesmo, a
mais duradoura. Uma revolução que começa em cada berço e se estende a cada
relação, a cada comunidade, a cada sociedade que ousamos construir.
.png)
Nenhum comentário:
Postar um comentário