quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026


 

O Berço do Poder: Como a Teoria do Apego Revela a Instalação do Controle Social desde a Primeira Infância

Uma análise aprofundada sobre como as relações de apego na infância moldam não apenas nossa psicologia individual, mas também nossa relação com a autoridade, a obediência e as estruturas de poder ao longo da vida.

 

A Política Começa no Colo

Quando pensamos em "poder" e "controle social", geralmente imaginamos instituições: o Estado, a polícia, as leis, o sistema econômico, o chefe autoritário. Imaginamos forças externas que nos pressionam, nos regulam e nos moldam. Raramente olhamos para dentro. Raramente consideramos que o poder mais duradouro talvez seja aquele que se instala em nós antes mesmo que tenhamos consciência de nós mesmos.

A teoria do apego, desenvolvida pelo psiquiatra e psicanalista britânico John Bowlby entre as décadas de 1950 e 1970, é conhecida principalmente como uma teoria sobre o desenvolvimento emocional infantil. Mas suas implicações vão muito além da psicologia clínica. Quando examinada à luz da filosofia política e da crítica social, a teoria do apego revela-se uma descrição precisa de como o poder e o controle se instalam na subjetividade humana desde o berço, um verdadeiro "manual de instruções" da servidão voluntária em sua fase mais inicial e profunda.

Este artigo propõe uma jornada por essa interseção entre psicologia do desenvolvimento, teoria crítica e filosofia política, buscando compreender como as primeiras relações de cuidado moldam não apenas seres humanos, mas cidadãos, súditos e sujeitos.

 

A Arquitetura do Apego: Sobrevivência Como Primeira Lição de Poder

1.1 O Imperativo Biológico da Conexão

Para compreender a dimensão política do apego, é preciso primeiro entender sua base biológica. Bowlby, influenciado pela etologia e pela teoria evolucionista, propôs que os seres humanos nascem com um sistema comportamental inato destinado a manter proximidade com figuras de cuidado. Este sistema, que ele chamou de sistema de apego, foi selecionado evolutivamente porque aumentar as chances de sobrevivência da prole em ambientes ancestrais hostis.

Em termos simples: um bebê humano, ao contrário de muitos outros mamíferos, é completamente dependente por um longo período. Sem a proteção e o cuidado de adultos, sua sobrevivência é impossível. A natureza, então, dotou o bebê de mecanismos para garantir essa proteção: choro, sorriso, busca de contato, protesto diante da separação. São comportamentos automáticos, não escolhidos, destinados a uma única finalidade: manter o cuidador por perto quando for necessário atender a alguma necessidade básica.

O que parece uma descrição puramente biológica já carrega uma primeira implicação política fundamental: a sobrevivência depende da conexão, e a conexão depende da resposta da outra pessoa. O bebê não tem escolha. Ele precisa da pessoa cuidadora, e fará o que for necessário para manter esse vínculo.

 

1.2 A Natureza Incondicional do Apego

Uma das descobertas mais perturbadoras de Bowlby é que a criança desenvolve apego à pessoa cuidadora mesmo quando essa cuidadora é negligente, insensível ou abusiva. O apego não é seletivo no sentido de escolher a "melhor" pessoa cuidadora; ele é um imperativo. A criança se apega à figura disponível porque, do ponto de vista da sobrevivência, qualquer vínculo é melhor que nenhum vínculo.

A filósofa Judith Butler, em seus trabalhos sobre precariedade e vida psíquica do poder, oferece uma leitura iluminadora desse fenômeno. Butler observa que o bebê pode buscar conforto justamente na figura que lhe causa medo, uma situação complexa porque a pessoa que deveria proteger a gente é a mesma que nos machuca, mas é comum em contextos de cuidado ambivalente ou abusivo. Ela escreve sobre a "vinculação apaixonada à subordinação", um conceito que ajuda a entender como podemos nos tornar dependentes exatamente daqueles que nos subordinam.

Essa dinâmica, observada no berço, é a matriz de fenômenos políticos posteriores. A subordinação a líderes autoritários, a lealdade a instituições que nos exploram, a dificuldade de romper com vínculos destrutivos, tudo isso encontra um protótipo na relação inicial de apego.

 

1.3 A "Situação Estranha" e os Estilos de Apego

A psicóloga Mary Ainsworth, colaboradora de Bowlby, desenvolveu um procedimento experimental chamado "Situação Estranha" que revolucionou o estudo do apego. O experimento consiste em observar a resposta de bebês (entre 12 e 18 meses) a uma série de separações e reencontros com a mãe em um ambiente desconhecido.

A partir dessas observações, Ainsworth identificou três padrões principais de apego, posteriormente ampliados para quatro. Cada um deles representa uma estratégia diferente de lidar com a disponibilidade, ou indisponibilidade, da figura de cuidado. E cada um deles carrega implicações profundas para a formação da subjetividade política.

 

Os Estilos de Apego Como Matrizes da Relação com a Autoridade

2.1 Apego Seguro: A Confiança Como Fundamento da Autonomia

No apego seguro, a criança utiliza a pessoa cuidadora como "base segura" para explorar o ambiente. Quando a cuidadora se ausenta, a criança pode mostrar desconforto, mas se acalma rapidamente ao reencontrá-la e retoma a exploração. Esse padrão ocorre quando a cuidadora é consistentemente sensível e responsiva às necessidades da criança.

A mensagem internalizada pela criança é: "Quando preciso, você está disponível. Minhas necessidades são legítimas. Posso buscar conforto sem medo de rejeição. Posso explorar o mundo porque sei que tenho um porto seguro para onde voltar."

Em termos políticos, o apego seguro pode ser visto como a base para uma relação saudável com a autoridade e com a coletividade. A pessoa que desenvolveu apego seguro tende a:

  • Confiar nos outros sem perder a autonomia.
  • Buscar ajuda quando necessária, sem sentir-se humilhada ou dependente.
  • Estabelecer limites claros em relacionamentos.
  • Questionar autoridades quando necessário, sem medo paralisante de retaliação.
  • Participar de coletivos mantendo sua individualidade.

É o modelo do ser humano crítico – alguém capaz de cooperar sem se submeter, de atender um pedido quando justo e não atender quando necessário.

2.2 Apego Inseguro-Evitativo: A Autonomia Como Defesa

No apego evitativo, a criança parece indiferente à presença ou ausência da mãe. Não busca contato, não demonstra preferência. Nos reencontros, pode ignorar ativamente a figura de cuidado. Esse padrão emerge quando o cuidador consistentemente rejeita ou se afasta diante das demonstrações de necessidade da criança.

Estudos fisiológicos revelam o paradoxo do apego evitativo: embora a criança pareça calma por fora, sua frequência cardíaca está acelerada e seus níveis de cortisol (hormônio do estresse) estão elevados. A aparente indiferença é, na verdade, uma defesa contra a dor da rejeição. A criança aprendeu que expressar necessidade leva à frustração, então suprime a expressão, mas o corpo continua sofrendo.

A mensagem internalizada é: "Não posso confiar que minhas necessidades serão atendidas. É melhor não precisar. É melhor não sentir. Eu dou conta sozinho."

Em termos políticos, o apego evitativo prepara o terreno para:

  • Dificuldade de pedir ajuda, mesmo quando necessário.
  • Isolamento e pseudoindependência.
  • Incapacidade de reconhecer a interdependência como condição humana.
  • Submissão silenciosa a condições adversas, sem protesto.
  • Dificuldade de formar vínculos coletivos genuínos.

É o modelo do ser humano isolado – aquele que enfrenta sozinho as adversidades do sistema, sem reclamar, sem se organizar, sem acreditar que a coletividade possa fazer diferença.

 

2.3 Apego Inseguro-Resistente (Ambivalente): A Ansiedade Como Moeda de Troca

No apego resistente, a criança mostra intenso desconforto na separação, mas no reencontro alterna entre busca de contato e resistência raivosa. Não consegue se acalmar nem retomar a exploração. Esse padrão ocorre quando o cuidador é inconsistente, às vezes responsivo, às vezes intrusivo ou negligente.

A mensagem internalizada é complexa e contraditória: "Não sei se posso contar com você. Preciso manter você perto, mas não confio que ficará. Minhas necessidades só são atendidas se eu me agarrar a você com força."

Em termos políticos, o apego resistente pode levar a:

  • Relações de dependência ambivalente com figuras de autoridade.
  • Oscilação entre idealização e desvalorização de líderes ou instituições.
  • Ansiedade constante em relação à aceitação e pertencimento.
  • Dificuldade de encontrar posição equilibrada entre submissão e rebeldia.
  • Atração por líderes que alternam promessas de salvação e ameaças de abandono.

É o modelo do ser humano ansioso – aquele que oscila entre a adesão fervorosa e a desconfiança paranoica, preso em uma relação de dependência emocional com o poder.

 

2.4 Apego Desorganizado: O Terror Sem Saída

Posteriormente, pesquisadores identificaram um quarto padrão: o apego desorganizado. Nessas crianças, observam-se comportamentos contraditórios, congelamento, movimentos desconexos. É o padrão associado a situações de trauma, abuso ou medo intenso. A figura de cuidado é, ao mesmo tempo, a fonte de segurança e a fonte de ameaça, uma contradição insolúvel para o sistema de apego.

A mensagem internalizada é devastadora: "A pessoa que deveria me proteger é a mesma que me ameaça. Não há saída. Não há estratégia que funcione."

Em termos políticos, o apego desorganizado pode estar na raiz de:

  • Paralisia diante de situações de opressão.
  • Dificuldade extrema de confiar em qualquer autoridade ou instituição.
  • Reprodução inconsciente de dinâmicas abusivas.
  • Suscetibilidade a discursos que prometem ordem a qualquer custo.
  • Dificuldade de construir narrativas coerentes sobre si e sobre o mundo.

É o modelo do ser humano traumatizado – aquele para quem o poder é sempre uma experiência de terror, e para quem a política pode ser tanto uma promessa de redenção quanto uma ameaça de repetição do trauma.

 

A Internalização do Controle – Como o Poder se Torna Desejo

3.1 Para Além da Obediência: A Incorporação das Regras

O psicanalista francês Jacques Lacan, contemporâneo de Bowlby, desenvolveu uma teoria sobre como a lei e a autoridade são internalizadas na psique. Para Lacan, a entrada na ordem simbólica, a aquisição da linguagem e da cultura, implica necessariamente uma subordinação à "lei do pai" ou à "função paterna", que representa as regras e proibições fundamentais da sociedade patriarcal que vivemos.

Mas o que a teoria do apego acrescenta a essa compreensão é a dimensão pré-simbólicacorporalafetiva dessa internalização. Antes que a criança compreenda qualquer regra verbalmente, ela já aprendeu, no corpo, que:

  • Certas expressões de necessidade são aceitas, outras são rejeitadas.
  • A disponibilidade do outro depende de seu próprio comportamento.
  • O amor e a segurança têm condições implícitas.
  • A conexão exige sacrifício da espontaneidade.

Essas lições não são ensinadas por palavras. São gravadas diretamente no sistema nervoso, nas respostas emocionais, nos padrões de ativação e relaxamento. São, para usar uma expressão do filósofo Gilles Deleuze, "afetos incorporados", disposições que se tornam parte da própria textura do ser.

3.2 A Contribuição de Lukács: Reificação e Subjetividade

O filósofo húngaro György Lukács, em sua obra seminal História e Consciência de Classe (1923), desenvolveu o conceito de reificação para descrever como as relações sociais no capitalismo assumem a forma de relações entre coisas. Lukács argumentava que a mercadoria não é apenas um objeto econômico, mas uma forma que penetra toda a consciência, transformando a percepção que temos de nós mesmos e dos outros.

O que a teoria do apego permite enxergar é que a reificação começa muito antes da consciência adulta. Ela começa quando o bebê aprende a se ver através dos olhos do cuidador, a se moldar para ser visto, a se controlar para ser aceito. A criança pequena, em sua busca por sobrevivência afetiva, já está experimentando uma forma primitiva de coisificação de si mesma: ela aprende a se apresentar como ela considera objeto adequado ao desejo do outro, a suprimir aspectos de si que ela acha que não se encaixam no que o cuidador pode acolher.

Essa dinâmica, repetida milhões de vezes em milhões de berços, cria uma população de adultos para quem a adaptação ao outro é uma segunda natureza, anterior à própria linguagem. Para quem a obediência às expectativas alheias é tão automática quanto respirar. Para quem o conflito e a divergência são vividos como ameaças de aniquilação, porque ecoam aquela ameaça primordial de perda do amor e da segurança.

 

3.3 O Conceito de "Otimismo Cruel" em Lauren Berlant

A teórica cultural Lauren Berlant cunhou uma expressão que ilumina essa dinâmica de forma brilhante: "otimismo cruel" (cruel optimism). Berlant descreve situações em que aquilo que desejamos está intrinsicamente ligado à fonte de nosso sofrimento, situações em que a própria relação que nos promete realização é a mesma que nos mantém presos em condições de opressão.

O vínculo de apego, especialmente quando inseguro, é o protótipo do otimismo cruel. A criança deseja o amor e a segurança do cuidador, mas esse mesmo cuidador pode ser a fonte de ansiedade, rejeição ou medo. No entanto, porque o vínculo é necessário para a sobrevivência, a criança não pode simplesmente abandoná-lo. Ela precisa manter a esperança, precisa continuar desejando, precisa se adaptar, mesmo que isso signifique sacrificar partes fundamentais de si mesma.

Na vida adulta, esse padrão se repete em múltiplos contextos: relações amorosas abusivas, empregos que adoecem, vínculos com líderes autoritários, lealdade a instituições que exploram. Em todos esses casos, há um elemento de "otimismo cruel": a promessa de realização está justamente no que nos destrói, e a dificuldade de romper vem da impossibilidade de imaginar outra forma de existir.

 

A Família Como Primeira Instituição de Poder

4.1 Foucault e o Poder Disciplinar

O filósofo Michel Foucault revolucionou a teoria do poder ao mostrar que as sociedades modernas não funcionam principalmente pela repressão violenta, mas pela disciplina – pela formação de corpos e almas que internalizam as regras e se autovigiam. Em obras como Vigiar e Punir (1975) e História da Sexualidade (1976), Foucault analisa como instituições como a escola, o exército, a fábrica e a prisão produzem "corpos dóceis", sujeitos que obedecem não por medo do castigo, mas por terem incorporado a vigilância como parte de si mesmos.

Mas onde começa essa produção de corpos dóceis? Foucault aponta para a família como uma "ilha de poder soberano" dentro do arquipélago disciplinar. Em seus cursos sobre o poder psiquiátrico, ele descreve a família como uma instituição híbrida, que combina elementos do poder soberano (a autoridade incontestável do pai) com funções disciplinares (a normalização dos comportamentos).

A teoria do apego permite enxergar com precisão como essa primeira disciplina opera. Não através de regras explícitas ou castigos formais, mas através da gestão da disponibilidade afetiva. A criança aprende que certos comportamentos atraem proximidade, outros atraem distanciamento. Aprende a modular sua expressão para maximizar o contato e minimizar a rejeição. Aprende que o amor é contingente, que o pertencimento exige conformidade.

 

4.2 Controle Psicológico e Autonomia

A pesquisa contemporânea em psicologia do desenvolvimento distingue duas formas de controle parental:

controle comportamental envolve regras, limites e supervisão, elementos necessários para a segurança e socialização da criança, especialmente quando aplicados de forma consistente e razoável. Trata-se da ética do cuidado, da liberdade sem permissividade e limites sem sujeição.

controle psicológico, por outro lado, envolve a manipulação do mundo emocional da criança: retirada de amor, indução de culpa, constrangimento, invasão da privacidade, desrespeito à individualidade. É uma forma de poder que age diretamente sobre a subjetividade, moldando não apenas o comportamento, mas os sentimentos, pensamentos e desejos. Trata-se de um relacionamento fundado no medo, na culpa e na vergonha.

Estudos longitudinais, como os conduzidos por Barbara Oudekerk e colaboradores na Universidade da Virgínia, mostram que o controle psicológico na adolescência está associado a dificuldades significativas nos relacionamentos adultos, menor capacidade de assertividade, maior dependência emocional, dificuldade de estabelecer intimidade genuína.

O que esses estudos revelam é que o poder exercido nas relações íntimas de cuidado tem efeitos duradouros sobre a capacidade de autonomia relacional, justamente a capacidade necessária para uma participação política crítica e independente.

 

Servidão Voluntária – A Antiga Pergunta, Nova Resposta

5.1 O Problema de La Boétie

Em meados do século XVI, o filósofo francês Étienne de La Boétie, com apenas 18 anos, escreveu um pequeno texto que se tornaria um clássico do pensamento político: o Discurso da Servidão Voluntária. Nele, La Boétie formula uma pergunta que atravessa os séculos:

"Por que os povos aceitam a tirania? Por que tantos se submetem a um único homem, quando poderiam simplesmente recusar-se a obedecer?"

A resposta de La Boétie é complexa e antecipa muitas análises posteriores. Ele fala do costume, do hábito, da educação que nos acostuma à submissão desde a infância. Fala do fascínio que o poder exerce sobre os súditos. Fala da cadeia de interesses que liga os oprimidos aos opressores.

Mas falta a La Boétie – como faltou a tantos pensadores políticos até o século XX – uma compreensão detalhada dos mecanismos psíquicos dessa servidão. Como exatamente o hábito da obediência se forma? Como a submissão se torna desejável?

5.2 A Resposta da Teoria do Apego

A teoria do apego oferece uma resposta precisa a essas perguntas. A servidão voluntária começa quando a criança aprende que:

  • O amor e a segurança não são incondicionais, mas dependem de seu comportamento.
  • A expressão espontânea de necessidades e desejos pode ser perigosa.
  • A adaptação ao outro é a estratégia mais segura para sobreviver emocionalmente.
  • A própria identidade deve ser moldada para caber no que o outro pode aceitar.

Essas lições, repetidas milhares de vezes nos primeiros anos de vida, criam uma disposição profunda para a subordinação, uma tendência a buscar segurança na adequação às expectativas alheias, a evitar conflitos a qualquer custo, a sentir-se ansioso diante da própria autonomia.

Quando, mais tarde, esse indivíduo se depara com figuras de autoridade – líderes políticos, chefes, instituições – seu sistema de apego é ativado. As mesmas dinâmicas que organizaram suas primeiras relações são reencenadas: busca de aprovação, medo de rejeição, dificuldade de discordar, tendência a se submeter.

O poder político, assim, encontra terreno fértil em subjetividades já preparadas para a obediência. Não precisa recorrer constantemente à força bruta, embora possa fazê-lo. Basta ativar os padrões de apego, prometer segurança em troca de submissão, oferecer pertencimento em troca de conformidade.

5.3 A Contribuição de Deleuze e Guattari: Desejo e Fascismo

Gilles Deleuze e Félix Guattari, em O Anti-Édipo (1972), propuseram uma tese radical: o desejo pode desejar sua própria repressão. Para eles, o fascismo não é apenas um fenômeno político externo, mas uma possibilidade inscrita no próprio desejo, uma tendência a buscar a própria servidão, a encontrar satisfação na submissão, a desejar a própria morte.

Essa tese, que chocou muitos leitores, torna-se compreensível à luz da teoria do apego. Se, nos primeiros anos, a criança aprende que a segurança está na submissão ao cuidador, mesmo quando esse cuidador é fonte de medo, então o desejo realmente se estrutura em torno da servidão. A obediência torna-se não apenas uma estratégia, mas uma necessidade afetiva, uma fonte contraditória de conforto.

O desafio político, para Deleuze e Guattari, é liberar o desejo dessa captura, criar condições para que o desejo possa fluir em direção à vida, à criação, à liberdade, em vez de se coagular em torno da submissão e da morte.

 

Parte VI: A Liberdade Possível – Descolonizar a Subjetividade

6.1 Consciência Como Primeiro Passo

Se o poder se instala em nós tão cedo e tão profundamente, a liberdade não pode ser apenas uma conquista externa. Ela exige um trabalho interno, um processo de tomada de consciência e transformação da própria subjetividade.

Esse trabalho começa com a percepção de que muitos dos nossos medos, dificuldades e padrões de relacionamento não são "naturais" nem "defeitos pessoais". São respostas aprendidas, estratégias que desenvolvemos para sobreviver emocionalmente em ambientes que nem sempre puderam nos acolher plenamente.

Reconhecer isso não é culpar os cuidadores. A maioria dos pais faz o melhor que pode com os recursos que tem, repetindo muitas vezes padrões que eles próprios aprenderam. Trata-se, antes, de compreender as origens de nossos padrões para podermos, conscientemente, escolher se queremos mantê-los ou transformá-los.

6.2 A Cartografia de Suely Rolnik: Mapear para Libertar

A psicanalista e filósofa brasileira Suely Rolnik desenvolveu, em diálogo com Félix Guattari, o método da cartografia, uma prática de mapeamento dos territórios existenciais, das zonas de captura e das linhas de fuga do desejo.

Para Rolnik, a descolonização da subjetividade exige que possamos:

  • Identificar as vozes internas que repetem discursos de controle.
  • Reconhecer os afetos que nos paralisam ou nos impulsionam.
  • Mapear as relações que nos diminuem e aquelas que nos fortalecem.
  • Experimentar novos modos de existência, mesmo que em pequena escala.

A cartografia não é um método para "consertar" a subjetividade, mas para explorar suas possibilidades, para abrir espaço para que o novo possa emergir.

6.3 Comunidades de Apego Seguro

Se o apego inseguro produz subjetividades dóceis, o apego seguro, ou sua reparação, pode produzir subjetividades críticas e criativas. A boa notícia é que os padrões de apego não são imutáveis. Relações significativas na vida adulta, parcerias amorosas, amizades profundas, comunidades de apoio, terapia, podem oferecer experiências corretivas que gradualmente transformam nossos modelos internos de relação.

Isso tem implicações políticas profundas. Construir comunidades baseadas na confiança, no cuidado mútuo e na aceitação incondicional não é apenas um projeto pessoal, é um projeto político. É criar ambientes onde as pessoas possam experimentar formas de relação que não reproduzam as dinâmicas de poder e controle aprendidas na infância. É oferecer experiências de apego seguro em escala coletiva, desfazendo os nós da servidão voluntária.

6.4 A Criança Como Sujeito Político

Por fim, pensar a teoria do apego em sua dimensão política nos convida a reconsiderar o lugar da criança na sociedade. Se as primeiras relações são tão fundamentais para a formação de subjetividades livres ou submissas, então o cuidado com a infância é uma questão central de justiça social e democracia.

Isso significa:

  • Valorizar socialmente o trabalho de cuidado.
  • Garantir condições para que cuidadores possam oferecer presença sensível e consistente.
  • Repensar instituições que separam precocemente crianças de suas redes de apoio.
  • Criar espaços coletivos de cuidado que distribuam a responsabilidade pelo desenvolvimento infantil.
  • Reconhecer que a luta por uma sociedade mais justa passa também pela transformação das relações nos primeiros anos de vida.

 

Do Berço à Revolução

A teoria do apego, quando lida em sua profundidade política, revela-se uma ferramenta indispensável para compreender não apenas o desenvolvimento individual, mas a própria reprodução das estruturas de poder. Ela nos mostra que o poder não é apenas algo que enfrentamos lá fora, nas instituições e nas leis. É algo que carregamos dentro de nós, nos padrões mais íntimos de nosso desejo e de nossa maneira de nos relacionarmos.

O berço é o primeiro palco da política. É ali que aprendemos as coreografias básicas da obediência e da resistência. É ali que se escreve, sem palavras, o primeiro rascunho de nossa relação com a autoridade, com o pertencimento, com a liberdade.

Mas se esse rascunho foi escrito, ele pode ser reescrito. Se as coreografias foram aprendidas, novos passos podem ser ensaiados. A revolução mais profunda, aquela que pode sustentar todas as outras, é a que acontece quando olhamos para dentro e decidimos desmontar, peça por peça, as estruturas de controle que habitam nosso próprio coração.

A servidão voluntária pode começar no berço. Mas a liberdade também pode começar ali, no momento em que compreendemos nossa história e decidimos, consciente e coletivamente, escrever um novo futuro.

Não se trata de culpar o passado, mas de compreendê-lo para superá-lo. Não se trata de buscar um "apego perfeito" que nos imunize contra o poder, mas de construir relações, pessoais e políticas, que possam sustentar nossa autonomia sem nos isolar, nossa conexão sem nos submeter.

A pergunta que La Boétie fez há quase cinco séculos continua viva: por que tantos aceitam a servidão? A teoria do apego nos dá parte da resposta: porque aprendemos, muito cedo, que a sobrevivência exige submissão. Mas também nos dá parte da saída: porque podemos aprender, ao longo da vida, que a verdadeira segurança está na capacidade de nos relacionarmos sem nos perdermos, de pertencermos sem nos anularmos.

Essa é a revolução mais íntima e, talvez por isso mesmo, a mais duradoura. Uma revolução que começa em cada berço e se estende a cada relação, a cada comunidade, a cada sociedade que ousamos construir.


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