terça-feira, 12 de junho de 2012

O objetivo da economia socialista seria a desalienação do trabalhador, o que implica superar a hierarquia nas empresas e a desinformação acarretada pela divisão do trabalho. (Crítica da visão clássica) [1].

Mas isso não significa que a regulação por mercados possa ser inteiramente abandonada. Precisamos de mercados porque é a forma de interação que conhecemos, que permite manter as diversas burocracias separadas, evitando que um poder total se aposse da economia.

O objetivo da economia socialista (sem aspas) é certamente satisfazer da melhor maneira as necessidades e preferências dos consumidores, mas não só. Nele se inclui também a desalienação do trabalhador, o que implica superar a hierarquia nas empresas e a desinformação acarretada pela divisão do trabalho.

Numa economia socialista, trabalhadores e consumidores devem ser livres, o que implica poder de escolha e possibilidade de participação – direta ou indireta – nos centros de decisão sobre o destino da economia.

O modo de regulação geral, de caráter democrático e participativo, poderá ter a forma de um parlamento econômico, com seus membros eleitos por partidos políticos ou corporações setoriais (por ramo de produção, profissão etc.).

Sua missão seria elaborar políticas fiscais e de crédito que permitissem arbitrar entre demandas competitivas por “financiamento”, isto é, pelos frutos do trabalho social futuro.

Além disso, esse corpo deliberativo deveria almejar a produção de conhecimentos que permitissem tornar os projetos por detrás de cada demanda mais transparentes e as projeções do futuro em que se baseiam mais consistentes.

Em outras palavras, a economia socialista tem de evitar a subestimação do custo real, em recursos e tempo, dos projetos de investimento, para poder submetê-los a uma arbitragem racional.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

A economia socialista precisa encontrar um modo democrático e participativo de regular a economia. (Crítica da visão clássica) [1].

A principal diferença entre a regulação financeira no capitalismo e a regulação político-administrativa no “socialismo real” é que a primeira faz a economia oscilar entre fases de grande crescimento, em que os mercados tendem a ser “de vendedor” e a escassez de produtos se traduz em inflação aberta ou reprimida, e fases de crise e depressão ou recessão, em que os mercados voltam a ser “de comprador”, há superprodução, desemprego em massa e crescimento nulo ou negativo.

Já no planejamento geral, a economia fica o tempo todo na fase de alta, em que a escassez se reproduz ampliadamente e a produção e o investimento perdem cada vez mais eficiência.

Parece claro que a economia socialista precisa encontrar um modo diferente de regular a economia, que seja democrático e participativo e pelo qual toda a sociedade possa manifestar suas preferências.

Isso leva a crer que esse novo modo de regulação terá de ser explicitamente político, reconhecendo de partida que os cidadãos têm interesses, percepções e preferências diferentes e que o modo de regulação deve permitir o confronto e a negociação dessas diferenças com o fim explícito de produzir ou um consenso ou, se este for impossível, uma posição majoritária.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

As crises cíclicas no capitalismo. (Crítica da visão clássica) [1].

A arbitragem feita no mercado financeiro é completamente diferente da que ocorre no “socialismo real”. Seus autores não formam um centro de poder mas uma massa de especuladores que visa maximizar ganhos em curto prazo.

Sua informação sobre os “fundamentos” econômicos das firmas, famílias e governos é precária e sua interpretação se baseia nos postulados do neoliberalismo.

Pela lógica das bolsas, importa a cada agente adivinhar o que pensa a maioria dos outros, pois a previsão da maioria tornar-se-á realidade apenas porque é compartilhada pela maioria.

Se esta acredita que determinado título ou ação deverá se valorizar, irá comprá-lo, o que fará com que a profecia se torne realidade. E, se ela acredita o contrário, sua ação consequente fará com que se desvalorize.

O resultado no mercado financeiro é que ele passa por seguidos ciclos financeiros, sempre compostos por uma fase de alta, em que uma bolha especulativa supervaloriza determinados ativos financeiros, seguida por crise, pânico, bancarrotas etc. e perda de valor dos mesmos ativos.

Conforme a política econômica do governo e da autoridade monetária, o ciclo financeiro pode desencadear um ciclo de conjuntura que afeta toda a economia ou não.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

No “socialismo real” a direção do plano trata de arbitrar as demandas dos serviços públicos e as necessidades dos consumidores. Isso é feito politicamente, num processo não aberto, do qual o povo está ausente. (Crítica da visão clássica) [1].

No capitalismo atual, o mercado financeiro cumpre o papel que no “socialismo real” cabe à onipotente direção do plano. Como se viu na seção anterior, ela intervém na execução do plano sempre que a “fome de investimentos” ultrapassa a disponibilidade de produtos, condição quase permanente na economia da escassez.

Ela trata de arbitrar entre as demandas das firmas investidoras, as exigências do balanço de pagamentos, as demandas dos serviços públicos e as necessidades dos consumidores. Isso é feito politicamente, num processo não aberto, do qual o povo está ausente.

De acordo com Kornai, essa arbitragem é feita de forma não planejada, caso a caso, de improviso, repartindo a escassez e tornando “anárquica” a execução do plano.

É muito provável que, nos países capitalistas, os projetos de inversão tenham as mesmas características dos que são submetidos à direção do plano no “socialismo real”, isto é, que os recursos a serem absorvidos e o tempo gasto em sua implementação estejam severamente subestimados.

Há muito material anedótico que reforça esta hipótese. Mas, no capitalismo, os planos de investimento não são submetidos a um poder central mas ao mercado financeiro, nas pessoas dos administradores de fundos alheios: diretores de bancos, de fundos de investimento, de pensão etc.
São eles que vão arbitrar entre as firmas competidoras por financiamento, disputado também pelos governos e pelas famílias(pois dívidas públicas e de consumidores também assumem a forma de títulos negociáveis).


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

domingo, 10 de junho de 2012

O mercado capitalista tratou de enquadrar o tempo pela esfera financeira. A cada momento, o mercado decide o futuro de firmas, famílias e governos. (Crítica da visão clássica) [1].

Em lugar do leiloeiro mítico, o mercado capitalista tratou de enquadrar o tempo pela esfera financeira. A cada momento, o mercado decide o futuro de firmas, famílias e governos.

Só têm futuro econômico aqueles que conseguem vender. Agora, o futuro é separado do presente e toma a forma de ativos financeiros, que são em geral títulos de crédito, públicos ou privados, ou ações de sociedades anônimas.

Estes são transacionados em leilões diários, de modo que suas cotações refletem – ou se crê que refletem – o grau de apoio que têm do “público”.

O mercado financeiro imita parcialmente o mercado não-anárquico de Walras, pois os agentes não se dividem em compradores e vendedores, podendo a cada momento ser uma coisa ou outra. Essa completa reversibilidade dos papéis permite ao agente corrigir sua posição (2) de acordo com os indicadores que o mercado vai produzindo a cada momento.

Os contratos negociados nos mercados financeiros sempre se projetam no tempo, pois seu valor decorre da renda futura que sua posse permite auferir.

Se alguém compra um automóvel Volkswagen, está dando um endosso ao plano dessa firma, embora sua intenção seja meramente possuir um veículo.

A participação de cada firma nas vendas totais de carros indica o grau de aceitação de seu produto e, portanto, a maior ou menor viabilidade de seu plano de produção, acumulação de capital, desenvolvimento de novos processos e produtos etc.

Mas este mesmo dado é produzido com maior freqüência pela cotação das ações da Volkswagen nas Bolsas de Valores. Todos os dias o pregão da Bolsa permite acompanhar, hora a hora, como o “público” avalia não o produto da empresa mas a própria empresa. Isso indica em tempo real, a cada momento, o futuro possível do plano dessa firma, em comparação com o das demais.

2. Infelizmente, corrigir não equivale a revogar. Quando há reviravolta no mercado, a maioria dos agentes que não a previu sofre perdas pesadas. Definitivamente, o mercado financeiro é uma aproximação muito pobre e imperfeita do mercado sonhado pelos neoclássicos.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A anarquia decorre do fato de que os planos privados dos competidores são mantidos em segredo uns dos outros, o que impede sua coordenação prévia. (Crítica da visão clássica) [1].

Quando os planos dos participantes do mercado são por acaso harmônicos, todos eles se realizam, e neste caso o resultado da competição é o previsto por cada um dos competidores.

A anarquia decorre do fato de que os planos privados dos competidores são mantidos em segredo uns dos outros, o que impede sua coordenação prévia.

O importante aqui é o “prévio”. Uma vez em ação, o mercado impõe a compatibilização dos planos privados, pela força, eliminando alguns e premiando outros.

Cada competidor faz o seu lance, no escuro, sem conhecer previamente os dos outros, portanto sem poder se ajustar a eles.

Os maiores partidários do mercado são os economistas neoclássicos, que imaginam o mercado perfeito, em que os participantes têm por pressuposição todas as informações necessárias para agir racionalmente.

Leon Walras concebeu um mercado não-anárquico, em que o tempo real é substituído pelo tempo lógico, no qual todas as decisões são reversíveis.

O mercado de Walras é dirigido por um leiloeiro, que recebe previamente todos os lances – ofertas e demandas – dos agentes, os estuda e os devolve a seus autores, indicando-lhes em que direção devem modificá-los para se ajustar aos outros.

Os lances são feitos e devolvidos tantas vezes quantas forem necessárias para sua completa compatibilização. Aí o leiloeiro abre o mercado e tudo o que é ofertado é vendido e tudo o que é demandado é comprado.

O constructo de Walras mostra como é primitivo e falível o mercado realmente existente, com seu tempo real e sem leiloeiro. Funcionando normalmente, o mercado destrói milhares de projetos, não endossados pelos outros agentes.

Como o mercado na maior parte do tempo funciona “anormalmente”, impulsionado por ondas de otimismo ou abalado por pânico, seguido de letargia, o volume de projetos expandidos na alta e liquidados na baixa é muito maior.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

No mercado não há qualquer poder outro que o dos participantes e competidores. O resultado da livre competição é a rigor imprevisível e está, em parte, sujeito ao acaso. (Crítica da visão clássica) [1].

Planejamento e mercado – O capitalismo é uma economia de mercado em que as empresas que participam dele são planejadas. O mercado pode ser visto como um sistema de coordenação de planos particulares, inclusive das famílias e dos governos.

Se consideramos os atores econômicos divididos nestas três categorias – firmas, famílias e governos – fica claro que a sua interação em
mercados é a forma pela qual elaboram e tentam implementar seus planos.

Firmas, famílias e governos formulam as partes econômicas de seus planos a partir de parâmetros de mercado – preços e quantidades transacionadas – e as implementam mediante compras e vendas em mercados. Cada plano implica um centro que coordena as atividades dos participantes.

Dentro do plano, as relações entre os participantes estão predeterminadas e não sujeitas ao acaso. Quando o acaso intervém, o plano malogra.

No mercado, por outro lado, não há centro coordenador e as relações entre os participantes evoluem livremente de acordo com sua própria dinâmica. Nesse sentido, designar a competição em mercado como “anarquia da produção” se justifica, pois efetivamente anarquia quer dizer ausência de poder.

E no mercado não há qualquer poder outro que o dos participantes e competidores. O resultado da livre competição é a rigor imprevisível e está, em parte, sujeito ao acaso.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

A grande promessa de que o planejamento geral liberaria as forças produtivas da anarquia da produção ensejada pelo mercado frustrou-se inteiramente. (Crítica da visão clássica) [1].

Nas economias centralmente planejadas, a inovação tecnológica depende para sua aplicação de instâncias políticas que temem ser prejudicadas por ela.

Apesar de seu poder absoluto, a cúpula está inserida em densa teia de interesses constituídos, dos quais depende a implementação do plano, que é a prioridade máxima.

Não surpreende que a preocupação com os prejuízos supere o entusiasmo pelos benefícios prometidos pela inovação, na maior parte das vezes.

A grande promessa de que o planejamento geral liberaria as forças produtivas da anarquia da produção ensejada pelo mercado frustrou-se inteiramente.

O planejamento geral é capaz de produzir progresso tecnológico em áreas em que ele é prioritário, como foi o caso do poderio militar. Mas na produção civil ele aborta novas forças produtivas, pois a prioridade tende a ser expandir sempre mais as estruturas existentes.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

terça-feira, 5 de junho de 2012

A destruição criadora é um dos pontos fracos do capitalismo. Mas, por outro lado, as forças produtivas se renovam sem cessar. (Crítica da visão clássica) [1].

E, no que se refere diretamente ao desenvolvimento de novas forças produtivas, o desempenho do “socialismo real” em comparação com os países capitalistas não chegou sequer a ser sofrível.

Kornai apresenta uma compilação de 50 importantes inovações tecnológicas realizadas entre a Segunda Guerra Mundial e 1983. Nada menos de 38 foram inventadas nos Estados Unidos, apenas quatro na União Soviética e uma na Romênia. As demais em outros países capitalistas.

São inovações na produção civil, boa parte derivada de invenções no campo militar. Nesse período, a União Soviética investiu muito em atividades de pesquisa e desenvolvimento e alcançou certa paridade com os Estados Unidos na corrida armamentista, inclusive na competição tecnológica militar.

Mas, enquanto os Estados Unidos conseguiam, a partir dos avanços na área militar, gerar grande número de inovações civis, as economias centralmente planejadas se mostravam estéreis a esse respeito.

As causas dessa esterilidade estão no próprio planejamento e não apenas em sua implementação burocratizada. A aplicação de inovações desorganiza parte da economia, à medida que processos ou produtos novos substituem os até então em uso.

No capitalismo, mecanismos de mercado asseguram a aplicação de inovações e distribuem ao acaso os efeitos da “destruição criadora”: regiões prósperas tornam-se decadentes, milhares de trabalhadores ficam desempregados, firmas antigas quebram, categorias profissionais inteiras perdem sua qualificação, que deixa de ter utilidade.

A destruição criadora é um dos pontos fracos do capitalismo, que se mostra pouco inclinado a prever ou compensar as perdas impostas. Mas, por outro lado, as forças produtivas se renovam sem cessar, impulsionando o crescimento da produtividade e revolucionando o padrão de vida.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

O sacrifício dos que ganhavam melhor decorria de um esforço imenso para acelerar o crescimento, que com o passar do tempo passou a dar resultados cada vez menores.. (Crítica da visão clássica) [1].

O sacrifício dos que ganhavam melhor não decorria de uma melhor distribuição de renda, em que eram poucos os pobres e excluídos. Ele decorria de um esforço imenso para acelerar o crescimento, que com o passar do tempo passou a dar resultados cada vez menores.

Faltavam as punições financeiras aos que tomavam decisões erradas de investimento, que no mercado capitalista são muito severas. E que nas empresas estatais dos países capitalistas também ficam impunes.

O relato de Kornai a respeito é muito expressivo: “Tomados em conjunto, os projetos de investimento aprovados oficialmente requerem mais insumos do que os fisicamente disponíveis. [...] A reação se dá no quadro do controle burocrático direto na maioria dos casos: as organizações mais altas intervêm, tomando decisões de improviso sobre quem deve receber o produto ou recurso no momento em falta e quem deve ficar sem.

Normalmente, nenhum projeto em andamento é paralisado completamente, inclusive porque cada um tem advogados poderosos na burocracia. Em vez disso, interrupções fazem com que certo número de diferentes projetos se desacelerem simultaneamente. Essa prática leva à dissipação do investimento, ao prolongamento severo do tempo de aprovação e de conclusão e a um grande aumento dos custos”.

E, numa nota de rodapé, Kornai acrescenta: “O processo de obter permissão leva tanto tempo que quando a decisão é tomada o projeto está obsoleto. Na União Soviética, nos anos 80, 25% dos projetos haviam sido feitos entre dez e 20 anos antes. [...] Uma comparação de projetos de investimento num certo número de indústrias mostra que, nos anos 60, levava de duas a cinco vezes mais tempo completar um projeto na Hungria do que no Japão”.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

No capitalismo uma parte da população não tem emprego e outra ganha menos do que precisa para satisfazer suas necessidades básicas. (Crítica da visão clássica) [1].

Do ponto de vista de seus resultados sociais e econômicos, o planejamento social era bem diferente do capitalismo. Neste, uma parte da população não tem emprego e outra ganha menos do que precisa para satisfazer suas necessidades básicas.

Nos países semidesenvolvidos, como o Brasil, os excluídos e os pobres provavelmente constituem quase a metade da população. Mas a outra metade, que tem renda suficiente e mais do que suficiente, não tem qualquer dificuldade para comprar.

Os mercados de consumo são geralmente “de comprador”: há mais oferta do que demanda, os vendedores se esforçam para agradar os clientes, inundam-nos de propaganda e tentam seduzi-los com sorteios, ofertas, descontos etc.

Nas economias centralmente planejadas, só a elite estatal e partidária escapa da penúria, porque tem acesso privilegiado a bens e serviços por medida administrativa: lojas exclusivas, hotéis de veraneio exclusivos, carros oficiais, moradias oficiais.

Todos os outros estão sujeitos ao comércio estatal, em que faltam muitos produtos e é preciso estar alerta o tempo todo para saber onde está se formando alguma fila para pegar um lugar nela e comprar o que quer que esteja sendo ofertado antes que acabe.

As pessoas, segundo Kornai, são forçadas a se ajustar, gastando o seu dinheiro com o que conseguem comprar, mesmo que esteja longe de ser o que prefeririam. Isso produziu imensa frustração, sobretudo nas camadas que, nos países capitalistas, seriam de classe média e neles usufruiriam um padrão de vida confortável. Convém lembrar que os formadores de opinião faziam parte dessas camadas.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A escassez atingia também as empresas e os serviços públicos, igualmente prejudicados pela “fome dos investimentos”. (Crítica da visão clássica) [1].

A escassez atingia também as empresas e os serviços públicos, igualmente prejudicados pela “fome dos investimentos”. Em geral, as empresas tinham dificuldade em obter os insumos que o plano lhes destinava.

O dinheiro para pagá-los não era problema, simplesmente não estavam à venda no momento em que se tornavam necessários. O que levava os diretores das empresas a empregar intermediários e pagar propinas para conseguir os fornecimentos.

Para se prevenir contra a escassez, as firmas formavam estoques de insumos e ocultavam sua existência dos superiores para não serem confiscados. Obviamente, isso agravava a escassez.

As famílias faziam a mesma coisa. Tão logo surgia nas lojas algum artigo até então em falta, todos formavam filas e compravam muito mais do que necessitavam, para ter reservas. O resultado era a generalização e o agravamento da escassez. Criou-se o que os economistas chamam de “mercado de vendedor”.

Os vendedores sempre tinham mais clientes do que podiam atender, mas não tinham autorização para aumentar os preços que cobravam. Por isso, tratavam os clientes com indiferença, se não com desprezo, deixando-se bajular e eventualmente corromper para cumprir seu dever de vender.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

As pessoas tinham dinheiro, ganho com seu trabalho, e desejavam comprar pelos preços fixados produtos que, em geral, faltavam nas lojas. (Crítica da visão clássica)[1].

O problema era que a demanda da população estava predeterminada, mas a das empresas, dos investimentos, do comércio externo etc. não. As necessidades prioritárias – da defesa, da produção, da tecnologia etc. – tinham de ser atendidas a qualquer custo.

Se faltasse dinheiro para tanto, os responsáveis pelo plano cuidavam para que os bancos fornecessem o crédito necessário. Isso produzia uma escassez crônica de bens e serviços de consumo, a ponto de muitos dos mais essenciais serem racionados.

Na década de 1980, muitos produtos – alimentos, produtos de limpeza, gasolina, energia elétrica – eram racionados em Cuba, na Polônia, na Romênia, na União Soviética, no Vietnã e na Iugoslávia.

A escassez dos produtos de consumo só não era pior porque a direção do plano garantia insumos e mão-de-obra para as empresas que os produziam e impedia, por medida administrativa, ou seja, por ordem política, que as empresas comprassem bens alocados ao consumo.

Mas, de uma forma geral, a oferta de bens e serviços de consumo era muito menor do que a demanda solvável por eles. As pessoas tinham dinheiro, ganho com seu trabalho, e desejavam comprar pelos preços fixados produtos que, em geral, faltavam nas lojas.

A escassez era agravada pela insuficiência de investimento na distribuição, encarada como atividade improdutiva, numa interpretação equivocada do pensamento de Marx.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A economia se beneficiava de uma situação permanente de pleno emprego, o que constitui a principal vantagem do “socialismo real” sobre o capitalismo. (Crítica da visão clássica)[1].

Dadas as prioridades do plano, as firmas acabavam por consumir uma parcela crescente de toda a produção, o mesmo acontecendo com os serviços públicos (particularmente as forças armadas) e o comércio externo, em detrimento do consumo da população.

Esta se beneficiava de uma situação permanente de pleno emprego, o que constitui a principal vantagem do “socialismo real” sobre o capitalismo.

Todos tinham emprego e a perspectiva de mantê-lo. O que significava que a população tinha uma renda nominal crescente, à medida que mais pessoas eram incorporadas à população ocupada.

Os planejadores fixavam o valor dos salários, o que lhes possibilitava prever com relativa exatidão a renda da população e quanto dela seria gasta em consumo.

Os preços dos bens e serviços de consumo eram fixados em níveis que igualassem a procura dos consumidores à oferta das empresas produtoras desses bens e serviços.

“[...] alguns bens e serviços são oferecidos ao público grátis ou, em comparação com seus custos, a preços muito baixos, subsidiados pelo Estado.

Estes, na maioria dos países sob o sistema clássico, incluem alimentos básicos (pão, açúcar, gordura etc.), transporte público, aluguel e serviços de saúde, culturais e educacionais”.

Essa política de preços não é casual, pois tem raízes profundas na ideologia oficial do socialismo clássico, que alcançam as grandes “promessas básicas” do sistema. A sociedade, prometeu-se, “tem ao menos de satisfazer as necessidades básicas de todos os trabalhadores e suas famílias”.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

As dificuldades na execução do planejamento centralizado transformaram a economia “socialista real” numa economia de escassez. (Crítica da visão clássica) [1]

Para realizar essas metas de crescimento, cada plano fixava-as no grau máximo para os diferentes setores da economia, em seguida eram desdobradas para as divisões territoriais e dentro destas para as empresas localizadas nelas.

A realização das metas exigia investimentos na ampliação da capacidade produtiva, o emprego de mais trabalhadores e o consumo de mais matérias-primas, combustível, materiais auxiliares etc.

Os diretores das empresas negociavam as metas com seus superiores, exigindo em troca do compromisso com elas os recursos que consideravam necessários.

Nesta negociação, os diretores não podiam errar porque, se aceitassem metas altas demais para a quantidade de mão-de-obra, materiais etc., que lhes eram alocados, corriam o risco de não poder cumpri-las e serem punidos.

Como sempre há ocorrências imprevistas, que podem afetar a empresa (um acidente, uma inundação, atraso no fornecimento etc.), o melhor que eles podiam fazer era pedir que as metas fossem reduzidas e que os recursos alocados cobrissem uma margem de segurança contra imprevistos.

Os planejadores de nível superior, sabendo disso, enfrentavam a pressão de seus subordinados exagerando as metas e limitando os recursos ao estritamente necessário.

No final, o acordo em geral embutia bastante investimento, expansão do emprego e ampliação do fornecimento de insumos para garantir a execução das metas. Havia nesse processo um viés por uso excessivo de bens de investimento, força de trabalho e materiais. Inclusive porque os projetos de investimento, para terem mais chances de ser aprovados, tendiam a subestimar os recursos e o tempo necessários para serem completados.

Quando o plano começava a ser implementado, a “fome por bens de investimento” passava a pressionar os demais setores. Como muitos desses bens eram importados, crescia além do planejado o gasto de divisas e, portanto, a necessidade de ganhá-las, o que levava a aumentar mais do que o previsto o volume de exportações. Tudo isso transformava a economia “socialista real” numa economia de escassez.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O socialismo só poderia mostrar sua superioridade em relação ao capitalismo no campo do desenvolvimento das forças produtivas.. (Crítica da visão clássica) [1]

A economia centralmente planejada começou a entrar em crise quando a economia superou os efeitos da destruição bélica e a população passou a reclamar um padrão de vida semelhante ao do Primeiro Mundo, que a globalização das comunicações e do turismo trouxe aos lares dos países do “socialismo real”.

Na Europa Oriental, a economia planejada mostrou-se incapaz de produzir bens não-essenciais na quantidade e com a qualidade demandadas. Esse malogro repetiu-se em todos os países que adotaram o modelo e decorre de suas características essenciais.

Os planos gerais sempre se colocaram metas de crescimento extremamente ambiciosas, em primeiro lugar porque os países do “socialismo real” almejavam eliminar o mais depressa possível o atraso econômico que os separava dos países capitalistas mais adiantados.

E em segundo lugar porque o socialismo só poderia mostrar sua superioridade em relação ao capitalismo no campo do desenvolvimento das forças produtivas. Esta é, ao menos para os marxistas, a justificação histórica da revolução socialista.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

Foram nos anos iniciais que as economias planejadas do socialismo real tiveram seu melhor desempenho. (Crítica da visão clássica) [1]

Em situações de anormalidade, como guerras externas ou internas, o planejamento geral se mostra muito superior ao mecanismo de mercado como sistema de coordenação.

Isso se dá porque, quando a oferta é muito menor do que a demanda normal, em função do esforço de guerra e das destruições que esta acarreta, o mercado produziria imensa inflação e condenaria à fome grande parte da população.

Por isso, em tais situações, mesmo governos liberais controlam os preços e racionam bens de primeira necessidade e outros, o que significa substituir compra e venda em mercados por uma distribuição planejada e igualitária.

Também a alocação de matérias-primas essenciais ao esforço de guerra e à sobrevivência da população é suprimida do mercado, sendo feita por ordens administrativas, ou seja, pelo poder político usando critérios políticos.

A quase totalidade dos países que aderiram ao “socialismo real” fizeram-no em situações de penúria, provocadas por guerras. Na maioria deles já vigia algum sistema de planejamento geral para fins bélicos, que os novos governos comunistas adaptaram para o período de reconstrução.

Foram nesses anos iniciais que as economias planejadas tiveram seu melhor desempenho. A desapropriação das antigas classes dominantes e a introdução de educação e saúde públicas ensejaram uma repartição mais igualitária da renda e uma rápida recuperação das indústrias e da produção agrícola.

A maior parte da população pôde voltar a satisfazer suas necessidades básicas e, crescentemente, outras.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O socialismo clássico, no entanto, é o primeiro sistema da história a fundir essas burocracias parciais numa única entidade que abarca toda a sociedade. (Crítica da visão clássica) [1]

“Esta, no caso do capitalismo moderno, é proeminente no aparelho de Estado, nas forças armadas, grandes firmas e outras grandes organizações, e tais burocracias parciais podem ter grande poder.

O socialismo clássico, no entanto, é o primeiro sistema da história a fundir essas burocracias parciais numa única entidade que abarca toda a sociedade. [...] a estrutura monolítica, totalitária do poder, a propriedade estatal do grosso da produção social e a dominação da coordenação burocrática sobre outros mecanismos são três fenômenos estreitamente ligados. [...]

As relações entre as firmas estatais não são coordenadas pelo mercado nem se aplica o autogoverno a elas. Em vez disso, as relações entre as firmas são coordenadas burocraticamente e dentro delas isso leva até a bancada de trabalho o mesmo sistema vertical de articulações que governa a própria empresa”.

Resta uma pergunta: o planejamento geral cumpre a sua promessa de superar a anarquia da produção causada pela competição em mercados, fazendo com que a produção satisfaça as necessidades de toda a população, sem desperdícios e sem desemprego?

A resposta tem de ser condicional: o ciclo de conjuntura típico do capitalismo é de fato eliminado pelo planejamento geral, mas em seu lugar surgem outras falhas e insuficiências.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

Gilmar Mendes atentou à dignidade e ao decoro de Lula

“Mendes, em resumo, atentou à dignidade e ao decoro de Lula. Assim, pode virar réu em ação por crime contra honra e objeto de ação de iniciativa privada da vítima (Lula).

Não se deve olvidar os antecedentes de Gilmar. Ele já mentiu ao denunciar, de forma  escandalosa ( “vou chamar o presidente às falas” ou “vivemos num Estado policial”), uma interceptação telefônica que não aconteceu. Nesse lamentável e triste episódio, Mendes  contou com o apoio do senador Demóstenes Torres, que confirmou, em diálogo publicado pela revista Veja, o teor da conversa mantida com Mendes.

Logo depois de desmentido por perícia e por conclusão da Polícia Federal em relatório de encerramento de apuração, Mendes passou a dizer que denunciou o fato porque era verossímil.  Em outras palavras, promoveu, à época, um grande escândalo, na condição de presidente do STF, com base na verossimilhança. Por aí já se percebe, a leviandade de Mendes.”
Wálter Fanganiello Maierovitch