quarta-feira, 11 de julho de 2012

O capitalismo é capaz de hegemonizar várias formas de produção (Arlindo Chinaglia). [1]

O capitalismo é capaz de hegemonizar várias formas de produção, inclusive aquelas que Paul Singer caracterizou como não capitalistas, exatamente porque elas não ferem, não atingem e não disputam o grande poder que está concentrado no sistema financeiro hoje, nas chamadas empresas do conhecimento, de alta tecnologia, e nas grandes empresas de maneira geral.

Sempre tive como absolutamente natural que essas pequenas produções, de fato, nunca incomodaram, e portanto podem vicejar.

Entretanto, em outras épocas se debatia o que seriam os setores estratégicos. Por exemplo, sempre se defendeu a estatização do comércio exterior, a estatização do sistema financeiro e, evidentemente, o planejamento dos grandes rumos econômicos.

Sinceramente, não consigo vislumbrar qualquer possibilidade de crescimento num grau que de fato faça jus a uma estratégia socialista, daquilo que você definiu como “implante socialista” e com o que o João Machado concordou.

É muito generoso de nossa parte caracterizar como “implante socialista” experiências como o Orçamento Participativo, mas é um risco gravíssimo, pois tende à mistificação. Porque discutir 1% ou 2 % de todos os recursos do município ou do estado, quando a maior parte está comprometida com o pagamento de juros de dívidas? Eu temo exatamente o contrário. Que isso acabe virando senso comum e que o pratiquemos com tal desenvoltura que cheguemos a acreditar que é algo naturalmente revolucionário.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

É preciso ter uma análise sobre o mercado numa sociedade socialista (Max Altman). [1]

A pergunta para o debate é a seguinte: é necessário garantir um mínimo de centralização econômica e planificação econômica?

As empresas gigantescas e até monopólios hoje estatais – eu cito o exemplo da Petrobras – devem ser mantidos como propriedade coletiva?

Empresas estratégicas, concentradas nas mãos do Estado, geridas pelo interesse público, sem burocratismo?

Como garantia de permanente inovação tecnológica, dois fatores são absolutamente necessários: a presença do mercado – que não se pode excluir, visto que na União Soviética os aparelhos domésticos não funcionavam – e a competitividade das empresas estatais, geridas pelo Estado e de propriedade coletiva da sociedade. Podem ser competitivas?

Podem ser competitivas! E a Vale do Rio Doce é um exemplo, a Petrobras é um outro exemplo, de empresas altamente competitivas, não só no plano interno como internacionalmente. Essas são duas questões importantíssimas para examinarmos e construirmos um caminho socialista para a economia.

É preciso ter uma análise sobre o mercado numa sociedade socialista e analisar também o problema da competitividade, para eliminar a burocracia, eliminar a preguiça e para estimular a inovação e criar uma verdadeira sociedade socialista. Politicamente socialista e economicamente socialista.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

terça-feira, 10 de julho de 2012

É ter poder para modificar as instituições e levar adiante uma política socialista inovadora (Max Altman). [1]

Nós temos que lamentar, mesmo que critiquemos a fundo a política desenvolvida há dezenas de anos pela União Soviética e critiquemos o centralismo exacerbado no plano econômico, que o rompimento do equilíbrio geopolítico tenha trazido um prejuízo imenso à humanidade.

O socialismo havia levado as conquistas dos trabalhadores a posições nunca antes alcançadas. O rompimento desse equilíbrio leva a que o capitalismo seja não só hegemônico, mas que esteja ditando todas as regras. O que torna difícil, muito mais difícil, hoje, qualquer país pretender alterações de cunho socialista.

Então, digo que socialismo e as transformações econômicas socialistas num país requerem, exigem, poder. E não adianta conquistar só o governo. Para as alterações socialistas é necessário um equilíbrio de forças que permita avançar neste terreno.

Não basta eleger presidente, governadores, para estas transformações socialistas. Governo não basta. É preciso poder. E o poder se conquista. É ter poder para modificar as instituições e levar adiante uma política socialista inovadora. É preciso esclarecer bem isso.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

O mundo bipolar estabelecia um equilíbrio geopolítico (Max Altman). [1]

O braço de ferro entre a principal potência capitalista, os Estados Unidos, e a União Soviética, potência socialista, estabelecia uma bipolaridade, um equilíbrio geopolítico que permitia aos demais países, capitalistas ou não, subdesenvolvidos ou não, levar adiante políticas próprias, fazer suas revoluções, porque tinham um respaldo internacional. Eu daria como exemplo o Vietnã, mesmo a China, e, um pouco diferente, Cuba.

Esse braço de ferro se rompeu quando o governo Reagan resolveu implantar a política de “guerra nas estrelas”, com um investimento de 1,5 trilhão de dólares, para obrigar o seu oponente, a União Soviética, a realizar investimento correspondente nessa área, para não perder a posição de equilíbrio industrial-militar da ocasião.

É verdade: a União Soviética não conseguiu acompanhar. Houve uma deterioração, inclusive da indústria de bens de consumo. Houve desvios gritantes, até catástrofe econômica. Por exemplo, os planos econômicos levados às empresas eram mistificados, eram fraudados.

Esse quadro fez com que Gorbachev assumisse o poder e fosse implantada a política da perestroika no plano econômico. Lembre-se que Gorbatchev era do grupo mais à esquerda da Comissão Executiva do PC Soviético.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sucessivos planos econômicos levaram a que a União Soviética se tornasse, logo após a Segunda Guerra Mundial, uma grande potência (Max Altman). [1]

A Revolução de Outubro na Rússia se deu com base nos ensinamentos de Marx. Assumiu uma forma radical e conseguiu levar um país atrasado – ou pelo menos muito mais atrasado que os demais países capitalistas europeus – a uma posição de destaque.

Sucessivos planos econômicos levaram a que a União Soviética se tornasse, logo após a Segunda Guerra Mundial, uma grande potência, bipolarizando o espaço mundial econômica, política e militarmente.

É evidente que na evolução do socialismo real ocorreram os problemas graves que Paul Singer mencionou. Lembrando que houve uma instauração do sistema socialista num único país, e essa foi a primeira grande discussão que houve entre os bolcheviques.

A história deste século, todos conhecem: a União Soviética, mesmo em meio a guerras sucessivas, surgiu como a única real competidora a se contrapor à principal potência capitalista internacional. E até superando-a em alguns aspectos. Por exemplo, na indústria do espaço cósmico e em alguns setores da indústria bélica. Mas se atrasou na indústria de consumo, e isso virou um fato.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

Garantir que haja um fundo para inovações. (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

Acho bastante curiosa a defesa de um parlamento econômico para tentar compatibilizar ao máximo os planos das empresas e os interesses dos trabalhadores, para diminuir a anarquia e o desperdício próprios do mercado capitalista, combinada com a avaliação de que, de qualquer maneira, a decisão final dos investimentos deve ficar com o mercado financeiro, porque é preciso preservar a possibilidade de que a iniciativa de algum jovem com alguma idéia maluca, mas que pode dar certo, seja apoiada por alguém e possa ser levada à prática.

Acho que a preocupação de preservar as chances dos jovens com idéias malucas de poderem tentar pô-las em prática é correta, mas não acho que a melhor maneira de garantir isso possa ser manter o mercado financeiro. Dessa forma daríamos um crédito ao mercado financeiro que ele não merece.

Acho mais razoável, por exemplo, pensar que podemos, uma vez que cheguemos a algum tipo de organização geral da economia de caráter socialista, a algum tipo de planejamento centralizado, garantir que haja um fundo para inovações; ou mais precisamente um fundo para projetos loucos, digamos assim para enfatizar.

Que tenha uma forma de gestão que não seja tradicional, conservadora. Pode ser dirigido por gente bem jovem, para não sofrer muitas influências dos hábitos do passado, e tomar decisões em função de critérios nada tradicionais.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

Defender com força e com coerência as medidas de caráter socialista. (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

É possível defender desde já um programa que tem elementos e uma orientação geral socialistas. E podemos, portanto, evitar o grande problema, o grande risco que, creio, existe hoje no pensamento da esquerda, tanto no mundo como no Brasil: cair na armadilha de dizer que a correlação de forças atual não permite defender um programa socialista, e a partir daí tentar pensar o que é possível fazer nesta correlação de forças.

A conclusão é então: o que dá para fazer, quando chegamos ao governo, é tentar melhorar o que existe, isto é, o capitalismo. Depois, no futuro, algum dia, quem sabe, voltaremos a pensar o que é possível fazer pelo socialismo. Cair nessa armadilha é caminhar para descaracterizar uma identidade socialista.

Entrar na discussão na forma proposta por Paul Singer permite, acho, defender com mais força, e com mais coerência, as medidas de caráter socialista que já estão sendo levadas à prática, inclusive fora de governos, como faz o MST.  E não só o MST: também sindicatos têm começado a se interessar pelo movimento de cooperativas, e acho isso muito positivo.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

sábado, 7 de julho de 2012

Adotar uma visão de luta pelo socialismo. (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

Acho que a grande vantagem de adotarmos uma visão de luta pelo socialismo que incorpora a idéia da existência de “implantes socialistas” dentro do capitalismo, e a proposta de construir de baixo para cima um movimento pelo socialismo, é que isso torna possível, se chegamos a governos municipais, estaduais, ou ao governo nacional, defendermos e implementarmos desde o início medidas pensadas como já tendo um caráter socialista.

E, dessa maneira, dar coerência ao que parte das administrações do PT, e talvez até de outros partidos, já começou a fazer; é o caso, por exemplo, do Orçamento Participativo. Ou seja, já vêm sendo postas em prática medidas que vão contra a lógica do capitalismo; é útil compreendê-las, dizê-las e ampliá-las.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Três tipos de lutas que podem ser desenvolvidas hoje para colocar a luta pelo socialismo em um patamar superior. (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

Creio que podemos falar de três tipos de lutas que podem ser desenvolvidas hoje, ou seja, ainda dentro do capitalismo, e que podem reforçar “implantes socialistas” e colocar a luta pelo socialismo em um patamar superior. O primeiro é o que discuti um pouco, a luta pelo desenvolvimento de formas de economia solidária.

O segundo tipo foi mencionado também por Paul Singer na sua exposição, sem desenvolvê-lo muito. É a luta por mudanças na relação capital–trabalho nas próprias empresas capitalistas, no sentido de ampliar os direitos dos trabalhadores e de questionar o exagero de “direitos” que a propriedade capitalista confere aos capitalistas.

Hoje em dia, aliás, os capitalistas estão lutando para aumentar ainda mais esses “direitos” abusivos; é o que ocorre, por exemplo, quando tentam
reduzir a legislação trabalhista, facilitar as demissões, em suma, cortar todos os entraves para o capital poder fazer o que bem entende. Temos de defender medidas que vão exatamente na direção oposta.

O terceiro tipo são lutas para mudar o caráter do Estado, para democratizá-lo e criar cada vez mais formas de participação popular e de controle social sobre seu funcionamento. O Orçamento Participativo é até agora o melhor exemplo de um “implante socialista” desse tipo.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

O MST é cultural, ideológico, e ainda econômico. (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

Fico imaginando que pelo menos parte do êxito do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) tem a ver com o fato de ele estar criando um movimento com essas características.

O MST tem sido eficiente em conseguir tomar terras, e a partir daí começar a produzir. Mas vai além. Ele tenta organizar suas unidades produtivas na forma de cooperativas.

E o que talvez seja mais interessante e importante: o vínculo dos trabalhadores com o movimento não se extingue quando conseguem sua terra. Após terem o seu quinhão, continuam membros do movimento e, portanto, referenciados nele, em seus objetivos.

Acho que esta concepção vem permitindo que o MST crie uma coisa que não é só um movimento social de luta pela terra, ou só um movimento político. O MST é também cultural e ideológico, e ainda econômico.



[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

É preciso recuperar alguns conteúdos ideológicos clássicos do movimento socialista. (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

Acho difícil conseguirmos avançar em direção ao socialismo se não construirmos um movimento que recupere alguns conteúdos ideológicos clássicos do movimento socialista.

O reconhecimento de ser um socialista, que luta para o bem de todos, para a construção de uma sociedade solidária, tem de se tornar mais importante e mais desejado do que ter uma renda um pouco maior.

Enfatizando um pouco mais: acho que não basta que nós, os membros desse movimento por construir, sejamos gente que se incomoda com a pobreza dos outros, com a existência de miséria na sociedade.

Acho que é essencial também que sejamos gente que teria vergonha se tivesse uma renda muito acima da média da sociedade, ou se tivesse um padrão de vida muito maior do que o considerado socialmente aceitável.

Isso não significaria eliminarmos as diferenças sociais: isto só será possível, naturalmente, após um longo processo de construção socialista. Mas começaríamos a reduzir as diferenças sociais de modo significativo, e nos sentiríamos felizes precisamente por estarmos sendo consequentes com isso.

Sem a construção de um movimento político-cultural desse tipo, não vejo como os “implantes socialistas” existentes escapariam da tendência a se descaracterizar e a ser engolidos pelo mercado, isto é, pelo capitalismo, sob o peso da pressão dos critérios capitalistas de eficiência e das consequências da inevitável divisão social do trabalho.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Quais são os critérios de eficiência compatíveis com uma racionalidade mais ampla, voltada para os objetivos da sociedade como um todo? (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

A hipótese que levanto é que a coisa mais efetiva que pode acontecer, para dar mais força a experiências desse tipo, para que tenham mais chances de sobreviver como formas de organização com caráter socialista, com caráter solidário, para que contribuam para a superação do capitalismo, é a existência de um movimento político-cultural socialista amplo, que lhes sirva de referência, e no qual se integrem.

Tentando tornar um pouco mais clara a idéia: estou pensando em um tipo de movimento que não poderia ser apenas político. Não poderia ser simplesmente uma frente de esquerda, do PT com outros partidos. Teria de ser um movimento com um caráter muito mais ideológico e cultural, que travasse uma disputa nestes termos na sociedade.

Essa disputa teria de ser feita, por exemplo, em torno dos critérios de eficiência econômica. Quais são os critérios de eficiência compatíveis com uma racionalidade mais ampla, voltada para os objetivos da sociedade como um todo? Para que se possa questionar, na prática, o uso de critérios de eficiência de mercado, é preciso construir um movimento que seja uma referência tão forte que torne o fato de ser bem-sucedido do ponto de vista desse movimento mais compensador, para muita gente, do que, por exemplo, ter uma renda mais alta.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

Será possível fazer alguma coisa que permita tirar o máximo proveito da existência dos “implantes socialistas”? (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

Outra experiência cooperativa que passa por problemas desse tipo são os kibutzim de Israel. Recentemente, têm adotado diferenças de remuneração (no início funcionavam em bases estritamente igualitárias), vêm abrindo maior espaço para o consumo privado (enquanto na origem funcionavam de modo estritamente coletivo) etc.

A partir desses problemas, temos de pensar o que é possível fazer. E quando digo temos de pensar é porque creio que para muitos problemas é difícil encontrar uma solução.

Será possível fazer alguma coisa que permita tirar o máximo proveito da existência dos “implantes socialistas” que crescem hoje, inclusive no Brasil? Alguma coisa que potencialize sua contribuição à luta socialista, e reduza o risco de descaracterização?


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

O que significa construir formas de economia solidária mantendo a divisão do trabalho? (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

Há uma outra questão que considero muito importante e foi tocada por Paul Singer, embora ele não tenha tido tempo de desenvolvê-la. É o problema da divisão social do trabalho.

Naturalmente, é muito difícil avançar muito radicalmente na superação da divisão social do trabalho, principalmente se pensamos em prazos curtos. Nas nossas experiências de organização econômica hoje é sem dúvida necessário manter formas de divisão do trabalho.

Mas o que significa construir formas de economia solidária mantendo a divisão do trabalho? Significa construir organizações em que há contraposição entre administradores e operários, entre trabalhadores mais qualificados e menos qualificados.

Isso naturalmente conduz à necessidade de manter diferenças de remuneração, ainda que menores do que as que são normais no capitalismo.
Desenvolvem-se diferenças objetivas de interesses. No caso de Mondragón,
por exemplo, é perfeitamente razoável dizer que no seu interior há algum tipo de luta de classes.

Há muitos trabalhadores cooperados que não se sentem identificados com o complexo de cooperativas – que, no entanto, é administrado em bases autogestionárias.

Para muitos trabalhadores cooperados, a única grande diferença que sentem, a única grande vantagem evidente, em relação aos trabalhadores de empresas capitalistas semelhantes, é a maior garantia no emprego. Não é uma pequena questão, mormente nos dias de hoje, mas é pouco para caracterizar avanço em direção ao socialismo.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

Na economia solidária, se queremos que tenha uma orientação anticapitalista, a luta contra a lógica do mercado tem de ser permanente. (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

O risco de descaracterização dos “Implantes Socialistas” vem do próprio fato de tais organizações competirem no âmbito do mercado capitalista.

Isso significa que elas são forçadas, em alguma medida, a aceitar critérios de racionalidade e de eficiência capitalistas. Acontece que no terreno dos critérios de eficiência capitalistas, dos critérios vigentes no mercado capitalista, a luta é desigual, e está perdida.

Se avaliamos a performance econômica segundo a lógica do mercado, isto é, segundo a lógica do capitalismo, não há dúvida de que teremos de concluir que as formas de gestão do capitalismo são mais eficientes, embora tenham também seus problemas.

O exemplo das cooperativas de Mondragón com o aumento do uso de trabalho assalariado – e isso se faz para que seja possível reduzir o número de trabalhadores quando for o caso, ou seja, para manter as condições de demitir trabalhadores quando o mercado o recomendar – dá uma idéia muito clara de como o funcionamento no interior de uma lógica econômica que é adversa para os trabalhadores tem conseqüências negativas.

O que nos leva à necessidade de deduzir a regra de que, no desenvolvimento da economia solidária, se queremos que ele se dê de fato segundo uma orientação anticapitalista, a luta contra a lógica do mercado tem de ser permanente.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Os “Implantes Socialistas” estão permanentemente sujeitos à descaracterização. (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

Os “Implantes Socialistas” estão permanentemente sujeitos à descaracterização. É certo que o risco de descaracterização de formas socialistas ou socializantes de organização não existe apenas no interior do capitalismo, como aliás a experiência da União Soviética e do seu antigo bloco mostrou.

Mas creio que é correto pensar que a pressão para sua descaracterização será mais forte enquanto estiverem no interior do capitalismo, por várias razões.

O professor Singer citou exemplos de problemas enfrentados por experiências de construção de cooperativas. Talvez o caso recente mais expressivo seja justamente o da experiência do complexo de cooperativas de Mondragón, formado a partir do País Basco.

Com a entrada do Estado espanhol na Comunidade Européia, com a evolução para a União Européia e o processo de unificação monetária, as pressões para “aumentar a competitividade” se intensificaram.

A partir daí, algumas regras do movimento cooperativo começaram a ser modificadas. Talvez o mais significativo seja que a utilização do trabalho assalariado têm sido aumentada: não há dúvida de que isto vai na contramão das idéias de economia solidária.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

Os “Implantes Socialistas” têm uma fragilidade básica: seu caráter estará sempre em risco enquanto estiverem no interior do capitalismo. (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

Que várias instituições criadas nos últimos 200 anos têm um caráter contraditório com o capitalismo fica claro em vários exemplos apresentados no livro Uma utopia militante.

Um desses exemplos são as formas de seguridade social, que chegaram ao seu ponto mais alto nos anos do pós-Segunda Guerra Mundial: um dos centros da política dos governos capitalistas hoje é reduzir sua amplitude.

Infelizmente, esses anos de predomínio neoliberal têm criado condições para que essa política de regressão social tenha conseguido resultados significativos.

Neste comentário, vou discutir sobretudo os “implantes socialistas” econômicos. Antes de mais nada, acho que a expressão “implante socialista” é boa, e que é útil dar este nome a formas de organização e a instituições que se orientam para a satisfação de necessidades sociais e se contrapõem à lógica do mercado capitalista.

Por outro lado, ao mesmo tempo que acho correto falar em “implantes socialistas” e definir seu desenvolvimento como um dos eixos de nossa estratégia, acredito que estes “implantes” têm uma fragilidade básica: seu caráter estará sempre em risco enquanto estiverem no interior do capitalismo.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

Ao longo dos últimos 200 anos, têm sido desenvolvidos uma série de “implantes socialistas” no interior das formações sociais capitalistas.. (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

Qualquer que seja nossa concepção de socialismo, as condições de luta para atingi-lo serão tanto melhores quanto mais criarmos formas sociais que signifiquem progresso na organização dos trabalhadores.

E não creio que possa haver dúvidas de que começar a construir o socialismo de baixo para cima, no sentido proposto por Paul Singer, vai nessa direção.

Os “implantes socialistas” – Uma das ideias defendidas pelo professor Singer é de que, ao longo dos últimos 200 anos, têm sido desenvolvidos uma série de “implantes socialistas” no interior das formações sociais capitalistas.

Assim, seriam “implantes socialistas” algumas formas de organização econômica, como as cooperativas e outras formas da chamada economia solidária; e também formas de organização política.

Esses “implantes socialistas” teriam um caráter que os leva a se chocar com o capitalismo; seria isso que justificaria dar-lhes este nome.

Creio que podemos avaliar que essa concepção é correta, e que de fato podemos assumir que o reforço e o desenvolvimento dessas formas de organização econômica e política devem ser um aspecto central de uma estratégia de luta pelo socialismo hoje.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

Temos de desenvolver formas de construir o socialismo de baixo para cima. (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

Esta discussão se combina com outros temas clássicos da crítica ao mercado, que são o da alienação e o do fetichismo das formas mercantis.

Assim, o mercado vai muito além da idéia de que é preciso descentralizar as decisões. Como já disse, concordo plenamente com a preocupação em deixar a maior parte possível das decisões descentralizadas. Mas não diria que a melhor forma de fazer isso, principalmente quando pensamos a longo prazo, é mediante algum tipo de mercado.

O professor Singer conhece melhor do que eu os problemas que apontei na forma de tomar decisões do mercado. Mas acredita que é possível resolvê-los, de alguma maneira, no funcionamento de mercados integrados em uma economia socialista. Minha divergência é que não creio que seja possível mudar tanto a natureza dos mercados.

Mas, como o desaparecimento do mercado não é para já, o mais importante aqui é discutir as idéias que Paul Singer abordou de forma breve na última parte da exposição, que estão bem colocadas em vários livros, artigos e entrevistas suas nos últimos anos. Giram em torno da concepção de que temos de desenvolver formas de construir o socialismo de baixo para cima.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Tudo teria seu preço, nada seria de graça, tudo seria comprável (e, portanto, vendável): eis o ideal neoclássico. (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

A limitação do mercado aparece de muitas maneiras. Aparece, por exemplo, na própria economia neoclássica (a versão dominante da teoria econômica, cuja grande preocupação é mostrar que os mercados são racionais e eficientes), com toda a dificuldade que têm os economistas que adotam essa linha para tratar os “bens públicos” ou as chamadas “externalidades”.

Em decorrência dessa dificuldade, os economistas neoclássicos fazem algumas propostas engraçadas: por exemplo, para tratar o problema da poluição no espírito neoclássico, deve-se atribuir um preço ao direito de poluir. Assim, uma empresa poluidora poderia emporcalhar um rio pagando determinada quantia; para emporcalhar o mar o preço seria muito maior etc.

A idéia é trazer o que por sua natureza não pode ser objeto de transações mercantis para dentro do mercado, eliminar as “externalidades” “internalizando-as”. Idealmente, do ponto de vista neoclássico, algo semelhante deveria ser feito com os bens públicos — com o que, é claro, deixariam de ser públicos.

Tudo teria seu preço, nada seria de graça, tudo seria comprável (e, portanto, vendável): eis o ideal neoclássico, que expressa justamente a “racionalidade” do mercado.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

O problema central do mercado é que sua racionalidade que não é social nem humana. (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

Por que defender o mercado? Os problemas do mercado não estão só na sua anarquia — a anarquia da produção capitalista é uma das críticas clássicas de Marx.

Nem apenas em que o mercado favorece os mais ricos, a concentração de renda, as desigualdades, os desníveis econômicos. O problema central do mercado é que, por sua própria natureza, ele tem um tipo de racionalidade que não é racionalidade social ou humana.

O que é racional para o mercado pode muito bem não ser racional para a sociedade. O mercado usa sempre uma forma indireta de expressar as necessidades sociais e de decidir sobre elas.

Só pode avaliar e decidir alguma questão depois de transformá-la em uma questão impessoal, isto é, em que o interesse das pessoas não pode ser considerado de forma direta.

Para dar um exemplo claro: para o mercado, não importa que você seja boa pessoa, que tenha dez filhos, que passe fome. O que interessa é se você dará lucro se for contratado. Há claramente alguma racionalidade nisso, mas é uma péssima racionalidade, desumana e cruel.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

Um bom planejamento centralizado teria de centralizar o mínimo necessário. (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

É possível trabalhar a idéia de que um bom planejamento centralizado teria de centralizar o mínimo necessário; o máximo de questões deveriam ser descentralizadas.

Em um governo empenhado em caminhar para o socialismo, haverá muita margem para a experimentação inclusive nesta questão, sempre no espírito de descentralizar sempre que possível.

O segundo questionamento que quero fazer é importante, creio, porque se relaciona com a parte principal da nossa discussão, de como podemos lutar hoje pelo socialismo.

Paul Singer insistiu muito na afirmação de que o mercado deve ser uma instituição permanente no socialismo, e de uma forma muito corajosa: não defendeu apenas a manutenção do mercado em geral, mas também especificamente do mercado financeiro como instituição permanente.

Não posso concordar com isso. De fato, fico com a impressão de que quando ele fala do mercado na verdade está pensando em uma outra coisa, em algo que nãoé propriamente o mercado.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Como podemos dar atualidade à questão do socialismo hoje? (A visão clássica e sua real incidência no PT – João Machado) [1].

Como podemos dar atualidade à questão do socialismo hoje? Como pensar formas de caminhar na direção do socialismo que não estejam sujeitas aos problemas vividos pelos países onde ele foi implantado?

Mas, antes de entrar nessa parte principal do debate, quero ainda fazer um rápido comentário sobre a primeira parte da exposição. Embora esteja de acordo com boa parte dela, eu questionaria algumas coisas.

Em primeiro lugar, acho que é um erro identificar qualquer planejamento centralizado com o planejamento total de todas as decisões da economia, e, em consequência, com um planejamento totalitário.

Ao contrário, creio que é perfeitamente possível imaginar um planejamento centralizado não apenas do ponto de vista de um país, mas do mundo inteiro inclusive, no qual apenas algumas decisões seriam centralizadas. A grande maioria das decisões seriam amplamente descentralizadas.

Algumas questões seriam decididas em âmbito mundial, por exigências de racionalidade e pelo interesse coletivo da humanidade. Por exemplo, questões que envolvem o esgotamento de recursos naturais não renováveis.

Ou a destinação de recursos para a pesquisa científica: não faz nenhum sentido achar que a melhor maneira de fazer pesquisa científica é por meio da concorrência entre vários países.

O progresso da ciência exige mais colaboração internacional, e não a defesa do segredo comercial ou dos direitos de propriedade intelectual, como querem os “pensadores” da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O que estou dizendo é que, se é mais racional pensar em várias questões de um ponto de vista mundial, daí não se segue que deveríamos planejar todos osdetalhes da vida econômica em âmbito mundial. Isso seria um completo absurdo.


[1] Paul Singer e João Machado, Série Socialismo em discussão, ECONOMIA SOCIALISTA, EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1a edição: junho de 2000, São Paulo.