O Inimigo Perfeito: Como a Guerra às Drogas Alimenta um
Império e Destrói Nações
A Máquina de Guerra que Precisava de um Novo Alvo
Imagine uma enorme máquina de guerra. Ela foi montada, peça
por peça, ao longo de 21 anos. Engrenagens de aço: o treinamento de militares
em técnicas de tortura e interrogatório. Fios elétricos: a doutrina que
ensinava que qualquer um que pensasse diferente era uma ameaça à
"segurança nacional". Um motor potente: bilhões de dólares em armas,
veículos blindados e sistemas de espionagem. Essa máquina foi construída no
Brasil entre 1964 e 1985, com manual de instruções e chaves de fenda importados
dos Estados Unidos. Ela tinha uma função única e clara: caçar e destruir o
"inimigo interno". O comunista.
Mas aí, em 1985, o mundo mudou. A ditadura caiu, o Muro de
Berlim ruiu, e o grande inimigo global, a União Soviética, começou a
desmoronar. E a máquina de guerra brasileira ficou parada na garagem, com o
motor ainda quente, sem saber para onde ir.
O que fazer com um exército de policiais e militares
treinados para ver inimigos em toda esquina? Como justificar os enormes
orçamentos para a "segurança interna"? Como manter o controle sobre
uma população que agora podia votar, protestar e pensar livremente?
Do outro lado do continente, em Washington, uma resposta
conveniente e poderosa já estava sendo testada desde os anos 1970. Era uma
resposta que não só resolveria o problema da máquina brasileira ociosa, como
serviria perfeitamente aos interesses do poder imperialista norte-americano.
Essa resposta tinha um nome que parece de filme de ação, mas é uma tragédia
real: A Guerra às Drogas.
Este não é um texto sobre se drogas são boas ou ruins. É um
texto sobre poder. Sobre como um império cria um inimigo perfeito para manter
outros países sob seu controle. E sobre como o Brasil, ao trocar o
"fantasma vermelho" do comunismo pelo "monstro negro" do
tráfico, não desmontou sua máquina de repressão. Apenas trocou a placa de
identificação.
A Receita do Império – Como se Cria um Inimigo Perfeito
Para entender o jogo, precisamos olhar para o criador das
regras: os Estados Unidos.
No início dos anos 1970, o presidente Richard Nixon estava
em apuros. A guerra do Vietnã era um desastre, a juventude protestava nas ruas,
os movimentos pelos direitos civis dos negros ganhavam força. Ele precisava de
um jeito de criminalizar seus opositores, de criar um bode expiatório que
unisse parte da população com medo.
Foi então que ele declarou o "abuso de drogas"
como o "Inimigo Público Número Um" dos EUA. Anos
mais tarde, um de seus principais assessores, John Ehrlichman, confessou a
verdadeira motivação: "Tínhamos dois inimigos: a esquerda
antiguerra (os hippies) e os negros. (...) Conseguimos fazer com que o público
associasse os hippies à maconha e os negros à heroína. Então criminalizamos
ambas pesadamente. Prendíamos os líderes, invadíamos suas casas, interrompíamos
suas reuniões. Sabíamos que estávamos mentindo sobre as drogas? Claro que
sabíamos."
A "Guerra às Drogas" nasceu, portanto, como
uma ferramenta política de controle interno. Mas ela tinha um
potencial ainda maior: exportação.
Um "inimigo interno perfeito" precisa ter três
características:
- Ser
difuso e assustador: Não pode ser um país específico (isso
geraria uma guerra convencional). Tem que ser uma ameaça invisível, que
"pode estar em qualquer lugar" – na esquina, na favela, no filho
desviado.
- Justificar
qualquer violência: O combate a esse inimigo tem que ser tão
urgente e sujo que vale tudo: invasão de casas, escutas ilegais, prisões
sem provas, execuções sumárias. A "exceção" vira a regra.
- Não
ter fim: Se o inimigo for totalmente eliminado, a guerra acaba, e
a máquina para. O "inimigo perfeito" é aquele que é impossível
de vencer completamente, garantindo um estado de guerra permanente.
O "tráfico de drogas" se encaixa como uma luva.
Ele é o inimigo ideal para um império que quer manter sua influência.
A Herança Maldita – Da Ditadura Brasileira à Favela
"Inimiga"
Agora, voltemos ao Brasil de 1985. A democracia voltava, mas
as instituições da repressão continuavam as mesmas. A Polícia Militar, por
exemplo, havia sido moldada pela Doutrina de Segurança Nacional.
Seu treinamento, na famosa Escola das Américas (financiada
pelos EUA no Panamá), não era para ser "policial cidadão". Era para
ser soldado anticomunista.
Eles aprenderam a ver a população como um campo de batalha.
A separar as pessoas entre "nós" (os bons, os patriotas) e
"eles" (os subversivos, os inimigos). A tática era de ocupação
militar de território inimigo.
Com a democracia, eles não podiam mais invadir sindicatos e
universidades à caça de comunistas. Então, o que fazer com esse exército
treinado para ocupar e combater?
A resposta veio como um decreto divino. O novo "inimigo
interno" foi batizado: o traficante de drogas.
E o novo território inimigo foi
demarcado: as favelas e periferias das grandes cidades.
De repente, tudo fez sentido para a máquina de guerra. A
lógica era a mesma:
- Antes: O
inimigo (comunista) se infiltrava na sociedade para destruir os
"valores ocidentais".
- Agora: O
inimigo (traficante) se infiltra na sociedade para destruir a
"juventude e a moral".
- Antes: O
território (universidade, sindicato) precisava ser invadido, ocupado e
"limpo".
- Agora: O
território (favela) precisa ser invadido, ocupado e
"pacificado".
A violência que antes era justificada contra
"subversivos" agora era justificada contra "criminosos". A
população pobre, majoritariamente negra, que sempre foi marginalizada,
foi reclassificada. De "pobre potencialmente subversivo"
para "pobre potencialmente bandido". O alvo da repressão mudou de cor
política para cor de pele e endereço.
O Jogo das Marionetes – Imperialismo Disfarçado de Ajuda
Aqui é onde o poder imperialista mostra suas cartas. Os
Estados Unidos não são apenas os criadores do roteiro da "Guerra às
Drogas". Eles são os produtores, diretores e financiadores do
espetáculo em toda a América Latina.
Como isso funciona na prática? É o que chamamos de imperialismo
por procuração.
- O
Treinamento: Agentes de polícia e militares brasileiros continuam
indo para cursos nos EUA ou com instrutores norte-americanos. A doutrina
agora não é mais "combate ao comunismo", mas "combate
ao narcoterrorismo". A palavra "terrorista" é uma
mágica retórica que permite ainda mais violência e suspensão de direitos.
- O
Financiamento: Os EUA criam programas bilionários, como o
famoso Plano Colômbia (que injetou mais de US$ 10 bilhões
no país). Esse dinheiro não vai para hospitais ou escolas. Vai para helicópteros
Black Hawk, rifles de assalto M16, treinamento de tropas de elite e
sistemas de inteligência. Para receber essa ajuda, o país tem que
seguir o manual norte-americano: guerra total, militarizada, sem piedade.
- A
Condição: Essa "ajuda" vem com um preço político. Os
EUA ganham influência direta sobre os exércitos e polícias
latino-americanas. Têm acesso a informações sensíveis, controlam
estratégias e garantem que os governos locais não se desviem da política
que lhes interessa. É uma forma moderna de controle colonial.
O resultado? Países como Colômbia e México foram
completamente desestabilizados por essa guerra. Centenas de milhares de mortos,
desaparecidos, líderes sociais assassinados. O tráfico não diminuiu; ficou mais
violento e fragmentado. Mas o que cresceu foi a presença e o poder dos
EUA na região.
E o Brasil? Segue o mesmo caminho. A política de "tiro
primeiro, pergunta depois" nas favelas, as operações com caveirão, o
extermínio de jovens negros, tudo isso ecoa a lógica militarizada que os EUA
exportam. Nós fazemos a guerra no terreno. Eles vendem as armas, ditam a tática
e colhem os benefícios geopolíticos.
As Consequências – A Fábrica de Corpos e Cadeias
A Guerra às Drogas não reduz o tráfico. Ela é um fracasso
anunciado no seu objetivo declarado. Mas é um sucesso
estrondoso nos seus objetivos reais e sombrios. Vejamos o que ela
produz:
1. O
Encarceramento em Massa e a "Contaminação" Criminal
O Brasil tem a terceira maior
população carcerária do mundo, atrás apenas de EUA e China. A maioria
esmagadora desses presos são jovens, pobres e negros, detidos por pequenos
crimes relacionados às drogas, como porte ou venda de pequenas quantidades. Não
são os grandes chefões do tráfico. São a mão-de-obra descartável do
sistema.
Cada corpo preso é apresentado
como prova de que a "guerra" está "dando resultados". Mas o
que essa máquina produz de fato?
A política prisional brasileira
funciona de forma perversa, ao contrário do que vemos na saúde pública. No SUS,
por exemplo, há uma lógica de redução de danos e atendimento
por complexidade:
Casos simples → Atenção Básica.
Casos moderados → Rede de Média
Complexidade.
Casos graves → Rede de Alta
Complexidade.
Na segurança pública, essa lógica
se inverte brutalmente. Todas as pessoas presas — muitas por crimes de
baixa periculosidade — são jogadas diretamente no "regime de alta
complexidade" do sistema: as penitenciárias superlotadas. Lá,
convivem com facções e criminosos de longa trajetória, em um ambiente de
extrema violência e controle pelo crime organizado.
O resultado? A política de
encarceramento em massa não só alimenta um complexo industrial
prisional, como também funciona como uma usina de
"contaminação" criminal. O jovem que entra por um pequeno delito
muitas vezes sai formatado e vinculado a redes muito mais
perigosas. Não se trata apenas de prender; trata-se de nutrir a própria
rede de criminalidade que o Estado diz combater, garantindo que o
ciclo de violência e o "inimigo interno" nunca deixem de existir.
- A
Militarização da Vida: As ruas das periferias viraram campos de
batalha. Crianças se abaixam ao som de tiroteio. Helicópteros da polícia
sobrevoam casas. A Polícia age como um exército de ocupação em território
inimigo, não como um serviço público para proteger cidadãos. Isso gera
medo, raiva e um ciclo interminável de violência.
- A
Desestabilização Planejada: Quando um país está em guerra
constante contra um inimigo interno invencível, ele fica fraco. A
violência consome recursos que poderiam ir para saúde e educação. A
corrupção cresce (o dinheiro do tráfico é gigante). A sociedade fica
dividida e com medo. E um país fraco e desestabilizado é muito
mais fácil de ser controlado e influenciado por potências estrangeiras.
- A
Manutenção da Hierarquia Racial e Social: No fundo, essa guerra é
a antiga política de controle das elites, agora com um novo uniforme. Ela
justifica por que a polícia pode invadir uma favela, mas não um condomínio
de luxo. Justifica por que um jovem negro com uma ponta de maconha vai
preso, enquanto um jovem branco de classe média usa cocaína em uma festa
sem medo. Ela cristaliza o racismo e a desigualdade como
política de Estado.
Desligando a Máquina
A Guerra às Drogas não é uma política fracassada que
persiste por teimosia. É uma política de enorme sucesso. Sucesso em
encher cadeias. Sucesso em vender armas. Sucesso em manter países
latino-americanos sob a tutela norte-americana. Sucesso em criminalizar a
pobreza e controlar populações indesejadas.
O "inimigo interno perfeito" foi uma sacada genial
do poder imperialista. Ele permitiu que os EUA mantivessem sua influência após
o fim da Guerra Fria, reciclando toda uma estrutura de repressão que havia sido
construída para outro propósito.
No Brasil, a transição foi quase natural. A máquina de
guerra da ditadura não foi desmontada. Foi reciclada. O ódio ao
"comunista" foi substituído pelo ódio ao "traficante". A
lógica do "nós contra eles" continuou a mesma. Só mudou o retrato do
"eles".
Entender isso é o primeiro passo para parar a máquina. É
perceber que quando um policial invade uma casa numa favela com força de
guerra, ele não está apenas seguindo ordens. Está reencenando um manual escrito
décadas atrás, para uma guerra que não é nossa, cujos benefícios não são
nossos, mas cujos mortos e presos são sempre os mesmos: os mais pobres e os
mais negros deste país.
Desmontar essa máquina exige mais do que mudar a lei de
drogas. Exige descolonizar nossa mente de segurança. Exige imaginar uma polícia
que não seja um exército de ocupação. Exige perceber que o verdadeiro inimigo
não está na favela, mas em uma política que transforma seres humanos em alvos,
e países soberanos em teatros de guerra de um império que precisa, sempre, de
um inimigo perfeito para justificar seu poder.
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