O Que Nos Conecta com Nossa Humanidade?
Uma Jornada Pelas Três Necessidades que Curam a Alma e
Libertam o Coração
Por que você acordou hoje?
Pare um segundo. Antes de responder “porque o despertador
tocou” ou “porque tinha conta para pagar”, tente ir mais fundo.
Você acordou porque alguém te esperava? Por que tinha uma
ideia na cabeça que precisava sair? Por que sentia que sua opinião importava em
algum lugar?
Nós passamos a vida correndo atrás de coisas que acreditamos
ser “sucesso”: dinheiro, status, a casa própria, o carro do ano. E quando
chegamos lá, muitas vezes o que encontramos não é felicidade. É cansaço. É um
vazio estranho, daqueles que a gente tenta preencher com mais coisas, mais
trabalho, mais distração.
Manfred Max-Neef, um economista chileno que ousou pensar
fora da caixa, passou a vida tentando entender o que realmente importa. Ele
descobriu algo simples e ao mesmo tempo revolucionário: nós não precisamos
apenas de coisas. Nós precisamos que necessidades humanas fundamentais sejam
atendidas.
E três dessas necessidades, Afeto, Compreensão e
Participação, são a chave para uma vida que vale a pena ser vivida. Elas não
são “supérfluas”. Elas não são “frescura”. Elas são o que nos separa de
máquinas que apenas produzem e consomem.
Vamos mergulhar nelas. Devagar. Como quem bebe água depois
de um longo dia no deserto.
Afeto – A Necessidade de Existir no Coração do Outro
Vamos começar com uma pergunta delicada: quando foi a última
vez que você se sentiu verdadeiramente abraçada?
Não estou falando daquele abraço rápido, com as mãos nas
costas e o olhar já na porta. Estou falando do abraço que segura. Que diz, sem
palavras: “você pode desabar agora, eu estou aqui”.
Max-Neef chama isso de Afeto. E ele não está falando apenas
de romance, de namoro ou casamento. Afeto é muito mais que isso.
Afeto é a avó que faz a sua comida preferida sem você pedir.
É o amigo que manda mensagem “só para saber se você chegou bem”. É o cachorro
que se deita aos seus pés enquanto você trabalha. É a vizinha que rega suas
plantas quando você viaja. É o colega de trabalho que percebe que você está
estranha e pergunta: “tudo bem?”
Afeto é a certeza silenciosa de que, se o chão faltar,
existe uma rede, mesmo que pequena, para te segurar.
E quando essa necessidade não é atendida, o que acontece?
Solidão.
Não a solidão de estar sozinha. Essa, às vezes, é
necessária. É a solidão de estar acompanhada e ainda assim se sentir invisível.
É o silêncio que grita dentro de um apartamento lotado de coisas, mas vazio de
presença. É olhar para o lado na cama e sentir mais distância do que se
estivesse a mil quilômetros.
Max-Neef é duro aqui: a pobreza não é apenas não ter comida.
Pobreza é também não ter afeto. E essa é uma das pobrezas mais devastadoras,
porque ela não aparece em estatísticas. Não tem fila no posto de saúde. Não tem
medição no IBGE. Mas corrói por dentro como doença silenciosa.
Compreensão – A Necessidade de Fazer Sentido
Agora, outra pergunta: você já sentiu que está no escuro?
Não escuro físico. Escuro da alma. Aquela sensação de que
você está fazendo as coisas, cumprindo as tarefas, pagando as contas, mas não
entende para quê.
Max-Neef chama isso de privação de Compreensão.
Compreensão não é apenas “saber as coisas”. Não é acumular
diploma, fazer curso, decorar data de guerra ou nome de osso do corpo humano.
Isso é informação. Compreensão é outra história.
Compreensão é a capacidade de dar sentido. É olhar para sua
vida e conseguir enxergar um fio condutor. É entender por que você sente o que
sente, age como age, escolhe o que escolhe. É conectar os pontos.
Uma criança que pergunta “por que o céu é azul?” não quer
uma aula de física. Ela quer que alguém valide sua curiosidade. Ela quer que
alguém diga: “que pergunta linda, vamos descobrir juntas”.
Um jovem que questiona a profissão que escolheu não está
sendo ingrato. Ele está tentando entender se aquilo faz sentido para quem ele
é, ou se ele está apenas repetindo um roteiro que não escreveu.
Uma idosa que conta a mesma história várias vezes não está
sendo repetitiva. Ela está organizando sua existência, tentando extrair
significado do que viveu.
Quando a compreensão é violada, a gente adoece.
Adoece porque vive no automático. Adoece porque engole
dogmas sem mastigar. Adoece porque tem medo de perguntar. Adoece porque
acreditam que “pensar demais” é problema, quando na verdade não pensar é que é
a verdadeira doença.
O mundo contemporâneo é muito eficiente em nos dar
respostas. Mas é péssimo em nos deixar fazer perguntas.
Participação – A Necessidade de Fazer Parte
Última pergunta (prometo): quando foi a última vez que você
sentiu que sua opinião realmente importou?
Não importou para o chefe. Importou para o coletivo. Para o
grupo. Para a comunidade.
Max-Neef chama isso de Participação. E aqui está talvez a
necessidade mais subestimada do nosso tempo.
Nós confundimos participação com “estar presente”. Você está
na reunião? Está. Você está em casa? Está. Você está no grupo da família? Está.
Mas você participa? Você decide? Você é ouvida? O que você
fala é levado em consideração ou é apenas tolerado?
Participação é o oposto de exclusão. É o oposto de ser
tratada como número, como estatística, como massa de manobra. É poder dizer “eu
acho que deveria ser diferente” e ver essa fala gerar movimento.
Quando uma criança pode opinar sobre a decoração do próprio
quarto, isso é participação.
Quando um funcionário sugere uma mudança no processo e é ouvido, isso é
participação.
Quando uma comunidade decide onde será construída a praça, isso é participação.
Quando um país elege suas representantes com consciência e informação, isso é
participação.
Quando a participação é violada, a gente encolhe.
A gente aprende que falar não adianta. Que é melhor ficar
quieta. Que “as coisas são assim mesmo”. Que política é coisa de corrupto. Que
reunião é perda de tempo. Que voto não muda nada.
A gente vira espectadora da própria vida.
O Grande Encontro: Spinoza, Rosenberg e a Liberdade que
Só Existe no Nós
Agora vamos juntar as pontas. Porque esses três fios, Afeto,
Compreensão e Participação, não estão soltos. Eles formam um tecido.
E dois pensadores nos ajudam a entender por quê.
Spinoza, o filósofo holandês do século XVII, tinha uma ideia
revolucionária. Ele dizia: o bem não é uma lista de regras. O bem é aquilo que
nos afeta positivamente. O mal é aquilo que nos afeta negativamente.
Simples assim.
Se algo aumenta sua potência de agir, sua alegria, sua
vontade de viver, isso é bom. Se algo diminui a sua potência, isso é mau.
Mas Spinoza vai além. Ele diz que o sumo bem, a maior
felicidade possível, não é algo que se alcança sozinha. O sumo bem é viver com
outras pessoas. É formar um grupo, uma comunidade, uma sociedade onde todas
possam, juntas, evitar o que afeta negativamente e buscar o que afeta
positivamente.
Percebe a ponte?
Afeto é isso. Compreensão é isso. Participação é isso.
Nós não nos realizamos sozinhas. Nós nos realizamos entre.
E então entra Marshall Rosenberg, criador da Comunicação
Não-Violenta, mais de 300 anos depois.
Rosenberg percebeu que a maioria de nós vive o que ele
chamou de escravidão emocional.
O que é isso?
É quando você acredita que é responsável pelos sentimentos
dos outros.
“Se minha mãe está triste, a culpa
é minha.”
“Se minha mulher está irritada, eu fiz algo errado.”
“Se meu amigo não fala comigo, eu devo ter falhado.”
“Se eu estou irritada, alguém me desrespeitou”
Essa fase é um pesadelo. Você vive se dobrando, se anulando,
tentando controlar o incontrolável. Você pensa que é amor, mas é medo.
Depois, algumas pessoas descobrem que não são responsáveis
pelos sentimentos alheios, nem as outras pessoas são responsáveis pelos nossos.
E aí caem na segunda fase: a fase ranzinza.
“Ah, não sou responsável? Então que se dane. O problema é
seu. Lide com isso.”
É a fase do individualismo radical. É o “cada um por si”. É
a pessoa que confunde liberdade com indiferença.
Mas Rosenberg diz que há uma terceira fase. A fase da
verdadeira liberdade.
E essa fase não é “não me importar”. É cuidar sem carregar.
É entender que eu não sou responsável pelos seus
sentimentos, mas me importo com eles. E você não é responsável pelos meus, mas
se importa com eles.
E juntas, a gente constrói um jeito de viver onde minhas
necessidades e suas necessidades podem ser atendidas mutuamente.
Isso é liberdade.
O Momento em Que Tudo Se Encontra
Olhe de novo para as três necessidades.
Afeto é a base. É onde a gente aprende que o outro importa.
É onde a gente descobre que não dá para ser feliz sozinha. É a escola do
cuidado mútuo.
Compreensão é a ferramenta. É onde a gente aprende a
perguntar, a escutar, a interpretar. É onde a gente descobre que a outra pessoa
não é ameaça, é mistério. E que mistérios não se combatem, se acolhem.
Participação é o resultado. É onde tudo isso vira prática. É
onde a gente se senta junta, olha para o que afeta negativamente o grupo e diz:
“como vamos mudar isso?” E olha para o que afeta positivamente e diz: “como
vamos cultivar isso?”
Spinoza diria: isso é Ética.
Rosenberg diria: isso é Comunicação Não-Violenta.
Max-Neef diria: isso é Desenvolvimento à Escala Humana.
Eu, modestamente, chamo de vida que vale a pena.
E Agora?
Você pode estar lendo isso e pensando: “tudo muito bonito,
mas o mundo não funciona assim”.
E eu te pergunto: e se a gente fizer funcionar?
Não no mundo inteiro. Não de uma vez. Não em escala global.
Mas no nosso mundo.
No nosso círculo.
Na nossa casa.
No nosso trabalho.
No grupo de amigas.
Na nossa rua.
Que tal, hoje, você:
- Perguntar
a alguém como ela realmente está, e ficar em silêncio para ouvir a
resposta?
- Compartilhar
uma dúvida que você tem, em vez de fingir que sabe tudo?
- Convidar
alguém para opinar sobre uma decisão que normalmente você tomaria sozinha?
Isso é afeto. Isso é compreensão. Isso é participação.
Isso é colocar o humano de volta no centro.
O mundo está cheio de gente que acumula coisas. Está
faltando gente que constrói sentido.
Que tal a gente começar hoje?
Este texto foi escrito com a certeza de que você, que
chegou até aqui, sente falta de algo. E que esse algo não está na prateleira.
Está nas pessoas. Está nos vínculos. Está na coragem de perguntar, de se
importar e de incluir.
Vamos juntas?
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