terça-feira, 27 de janeiro de 2026

 



A Ética é um Calafrio: Quando o Corpo Reage Antes do Cérebro

 

Imagine a cena: você está andando na rua e vê uma pessoa idosa tropeçar e cair no chão. O que acontece primeiro? Um longo raciocínio filosófico sobre a solidariedade humana? Uma consulta a um manual de regras morais? Não. Primeiro, vem um susto. Um frio na barriga. Um impulso quase automático de correr e ajudar. As pernas se movem antes que a mente termine de pensar. Isso não é apenas bondade. Isso é ética no seu estado mais puro e cru.

Este texto vai falar sobre um jeito diferente de entender o que é “ser ético”. Uma visão que não fica presa em livros, debates complicados ou códigos de conduta. É uma visão que desce da cabeça e vai direto para a pele, para os ossos, para o estômago. É sobre entender que a verdadeira ética é um calafrio.

 

O Quebra-Cabeça da Mente: Quando a Empatia Vira um Problema de Lógica

Por muito tempo, filósofos tentaram entender a empatia como se fosse um quebra-cabeça da mente. Um dos mais famosos, Ludwig Wittgenstein, via a empatia como um "convencimento". Para ele, era como se você precisasse se convencer, dentro da sua cabeça, de que a outra pessoa estava sentindo dor. No senso comum empatia passou a significar “se colocar no lugar do outro”, um exercício intelectual: “Como posso imaginar uma dor que não é minha?”

Pense nisso: “Devo representar para mim mesmo, de acordo com o sofrimento que sinto, aquele que não sinto”. Soa complexo, não é? Soa frio. É como transformar o grito de dor de alguém em um problema de matemática a ser resolvido. Um código a ser decifrado.

Aqui mora um grande perigo. Quando reduzimos a dor alheia a um “exercício de imaginação”, nós criamos uma distância. Colocamos uma barreira de vidro entre nós e o sofrimento do outro. É uma forma quase invisível de nos blindarmos, de nos proteger do impacto bruto e desconfortável que a dor do outro causa. Ficamos seguros atrás das nossas teorias.

 

A Revolução do Corpo: O Calafrio que Atravessa a Pele

Contra essa ideia de uma ética só cerebral, surgiram vozes fortes que trouxeram a ética para onde ela sempre deveria ter estado: no corpo.

Pense no filósofo Max Scheler. Ele falava dos sentimentos como coisas que a gente sente fisicamente. E pense, principalmente, no teórico Theodor Adorno, um homem que viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial e entendeu que teorias bonitas não impedem atrocidades.

Adorno foi brutalmente direto. Ele disse que, no fim das contas, depois de tanta conversa bonita, a ética só sobrevive por dois motivos muito simples, muito materiais, muito físicos:

  1. Medo físico. O medo de que aquela dor, aquela tortura, possa um dia ser a nossa. O medo que faz o coração acelerar.
  2. Solidariedade com os corpos torturáveis. A conexão direta, de corpo para corpo, com qualquer ser que tenha pele que possa ser machucada, ossos que possam ser quebrados, um estômago que possa sentir fome.

Para Adorno e Scheler, o núcleo do sentimento ético não é uma ideia. É um impulso material. É algo que acontece na sua carne antes de acontecer na sua consciência.

 

O Calafrio Ético em Ação: Nosso Sistema de Alerta Primário

Vamos detalhar como esse “calafrio ético” se manifesta no dia a dia. Ele é o nosso sistema de alerta mais primitivo, herdado dos nossos ancestrais, que precisavam viver em grupo para sobreviver.

  • O Aperto no Estômago: Você está vendo uma discussão. Uma pessoa começa a gritar com a outra, humilhar, diminuir. Mesmo que você não seja o alvo, seu estômago embrulha. É uma sensação de mal-estar físico. Seu corpo está reagindo à agressão que testemunha, identificando-se com o corpo que está sob ataque verbal.
  • O Calafrio na Espinha: Você lê uma notícia sobre uma criança ferida, ou vê uma imagem de um animal abandonado sob a chuva. De repente, um arrepio corre sua coluna. Não é só tristeza. É um choque físico, uma corrente de identificação instantânea. É como se, por uma fração de segundo, você sentisse aquele frio, aquela vulnerabilidade.
  • A Vontade Imediata de Agir: Alguém derruba todos os papéis que carregava. Suas mãos se estendem para pegar os papéis antes mesmo de você “decider” ser prestativo. Seu corpo já entrou em movimento. Essa vontade de agir não é um pensamento (“devo ajudar”), é um reflexo quase motor (“vou ajudar”).

Essas reações são a identificação visceral, quase animal, com quem sofre. Elas pulam todas as barreiras da linguagem e da lógica. São um sinal de que, no fundo, reconhecemos que somos feitos da mesma matéria frágil. Que a pele do outro é tão penetrável quanto a nossa.

 

O Perigo das Teorias Vazias: Quando a Ética Perde o Chão

A crítica feroz de Adorno serve como um grito de alerta para os nossos tempos. Vivemos numa era de muitos debates, muitas opiniões nas redes sociais, muitas discussões teóricas sobre o que é certo e errado.

O perigo é enorme: o de deixarmos que a dor real, concreta e gritante se dissolva em um mar de teorias abstratas, discussões sem fim e jargões complicados. Podemos falar por horas sobre “justiça social” enquanto ignoramos o grito do nosso vizinho. Podemos debater “direitos animais” com palavras bonitas e continuar indiferentes ao cachorro amarrado sob sol na rua de baixo.

Quando a ética vira apenas um debate de ideias, nós perdemos o contato com o chão. Perdemos o contato com o cheiro, o grito, o tremor, a lágrima. A teoria, sozinha, pode nos deixar cegos e insensíveis.

 

A Empatia como Ato de Resistência: O Corpo que se Rebela

Por isso, a empatia genuína, a que começa com um calafrio, é muito mais do que um sentimento bom. Ela é um ato de resistência.

É a rebeldia do seu corpo inteiro contra a frieza do mundo. É o seu estômago se contraindo e dizendo “Não!” a uma injustiça, antes que a sua mente encontre uma desculpa para se calar. É a sua pele arrepiada se solidarizando com outra pele, criando um laço invisível e poderoso de proteção.

É sentir, na própria pele, o que as palavras nunca vão conseguir explicar totalmente. A linguagem é lenta e cheia de falhas. O corpo é imediato e verdadeiro.

 

A Verdadeira Ética

A verdadeira ética, portanto, não nasce em congressos ou em livros de regras. Não nasce de um cálculo de vantagens (“se eu ajudar, serei recompensado”).

A verdadeira ética nasce no susto compartilhado.
Nasce no frio na barriga que é espelho do frio na barriga do outro.
Nasce na vontade imediata e física de agir, de estender a mão, de se colocar entre o golpe e o alvo.

Ela é um calafrio. Um calafrio que nos lembra, de forma bruta e bela, que somos comunidade. Que a fronteira entre o “eu” e o “outro” é muito mais fina do que imaginamos. É na carne que a moral encontra sua força mais pura e sua verdade mais difícil de ignorar.

Da próxima vez que sentir aquele arrepio, aquele aperto, preste atenção. Não o ignore como um simples nervosismo. Pode ser a sua humanidade mais profunda, saindo do seu corpo e gritando. Pode ser a ética, viva e pulsante, batendo à sua porta.


domingo, 25 de janeiro de 2026

 



Do Choque ao Encontro: Como Transformar Desentendimentos em Conhecimento

 

A vida é cheia de desentendimentos. Aprender a navegar por eles, em vez de fugir, é o segredo para relacionamentos mais fortes, seja no amor, na família, nas amizades ou no trabalho. Eis uma possibilidade de um caminho: a escuta que reconstrói.

 

Você já saiu de uma discussão sentindo que perdeu parte de si? Que o ar ficou pesado, o coração apertado, e uma distância enorme foi criada onde antes havia proximidade? É uma sensação física, como se algo tivesse sido quebrado.

Agora, reflita: você já saiu de um desentendimento sentindo que entendeu algo profundo? Sobre a outra pessoa, sobre você mesmo, sobre como vocês funcionam juntas? Como se, apesar do desconforto, um novo nível de confiança e clareza tivesse nascido?

Se a primeira cena é mais familiar, você não está sozinha. Nossa reação cultural ao conflito é tratá-lo como uma bomba. Algo a ser desarmado com urgência, evitado a todo custo ou, pior, detonado na cara do outro para "vencer" a disputa. Nos preparamos para a guerra. Fechamos o rosto, cruzamos os braços, e nossa mente começa a formular as próximas acusações enquanto fingimos ouvir.

Mas e se eu te disser que estamos olhando para isso de forma completamente distorcida?

E se o conflito não for uma bomba, mas um sinal de alerta brilhante e barulhento? E se, mais do que um alerta, ele for uma fonte preciosa de saber sobre a outra pessoa e sobre nós mesmas?

A verdadeira habilidade não é evitar o conflito. É aprender a passar por ele de um jeito que construa, em vez de destruir. Essa habilidade se chama Escuta Ativa, e ela é menos um dom místico e mais um conjunto de gestos concretos, quase manuais, que qualquer pessoa pode desenvolver.

Vamos destrinchar isso, passo a passo.

 

Os Dois Tipos de Desentendimento: A Encruzilhada

Em qualquer discussão, chegamos a uma encruzilhada invisível. O caminho que escolhemos define tudo.

  • O Caminho do Confronto (que destrói): Aqui, o objetivo é único: ter razão. É uma batalha campal. A palavra do outro não é um ponto de vista, é uma ameaça. Interrompemos, invalidamos ("Isso é bobagem"), atacamos com julgamento ("Você sempre foi egoísta"), e usamos o passado como arma. No final, pode até parecer que "ganhamos", mas o saldo é de terra arrasada: mágoa, ressentimento e um muro mais alto entre as pessoas.
  • O Caminho do Conflito Construtor (que ensina): Aqui, o objetivo é compreender. É um encontro. Partimos do pressuposto de que duas verdades podem coexistir. Que o "erro" do outro, muitas vezes, é apenas a expressão de uma necessidade não atendida, de um medo não dito, de um jeito diferente de ver o mundo. Este caminho é trabalhoso, exige coragem para baixar a as defesas, mas seu fruto é a reconexão.

A grande virada acontece quando trocamos a pergunta "Quem está certo?" pela pergunta "O que está acontecendo aqui?".

 

A Anatomia da Escuta que Reconstrói: Um Guia de 5 Passos

A escuta ativa é a ferramenta prática para seguir o caminho do conflito construtor. Não é sobre ser passivo ou concordar com tudo. É sobre uma postura curiosa, em vez de defensiva. Trata-se de abrir seu coração para acolher a outra pessoa.

Cenário Comum: Seu parceiro(a) chega em casa estourado(a) e diz: "Você nunca me escuta! Está sempre no celular!"

Reação Automática (Caminho do Confronto): "Nunca? Sempre? Que exagero! Eu cheguei cansado do trabalho, você não vê? E você, então, que vive criticando?" (A bomba está armada. A batalha começou).

Reação com Escuta Ativa (Caminho do Encontro):

  1. Pausa e Presença: Antes de reagir, respire fundo. Coloque o celular de lado, vire-se completamente para a pessoa e olhe nos olhos. Esse simples gesto corporal manda a primeira mensagem: "Você tem toda a minha atenção agora."
  2. Repita com Suas Palavras (o Espelho): Não interprete, não julgue. Apenas devolva o que ouviu, como um espelho. "Então, pelo que estou entendendo, você está se sentindo ignorado(a) e acha que o celular é uma barreira entre a gente." Isso não significa que você concorda. Significa: "Estou me esforçando para captar sua mensagem." Mágica: isso obriga você a realmente ouvir e dá chance para a pessoa corrigir seu entendimento.
  3. Valide o Sentimento (a Ponte Emocional): Este é o passo mais poderoso e negligenciado. Validar NÃO é concordar com o fato, é reconhecer a legitimidade do SENTIMENTO"Faz total sentido você se sentir assim. Se eu visse a pessoa que amo distraída com uma tela, eu também me sentiria deixado de lado." Esta frase pode reduzir as hostilidades. Ela diz: "Seu mundo interno é real para mim."
  4. Fale do Seu Lugar (desarme suas defesas): Agora é a sua vez. Mas não para contra-atacar. Para compartilhar seu universo interno. Use frases que começam com "EU""Quando você diz isso, eu fico confuso, porque eu tinha a impressão de que estávamos bem. E eu posso não ter captado bem o que está acontecendo. Eu preciso entender melhor o que você está sentindo." Note: você deixou de ser um adversário para se tornar um aliado contra o mal-entendido.
  5. Busque a Necessidade (a Raiz do Problema): Por trás de toda crítica há um desejo ou uma necessidade não expressa. Faça a pergunta-chave: "O que você está precisando agora que não está tendo?" Ou, direto ao ponto: "Você está precisando de mais tempo de qualidade, de mais conversa olho no olho?" Frequentemente, a discussão superficial (o celular) desaba, revelando a verdadeira sede: por conexão, por importância, por presença.

 

O Conflito como Fonte de Saber: O Que Você Realmente Ganha

Quando você adota essa postura, algo extraordinário pode acontecer, ou, é mais provável que aconteça. O conflito para de ser um ruído e vira informação valiosa. Ele se torna um diagnóstico relacional.

  • Ele Atualiza seu Mapa do Outro: Você descobre que seu colega de trabalho não é "chato por querer tudo perfeito", mas teme o fracasso porque já foi humilhado no passado. Você entende que a irritação da sua mãe não é com você, mas com a solidão que ela sente. Você atualiza o arquivo interno que tem sobre aquela pessoa, trocando o rótulo pela história.
  • Ele Revela Seus Pontos Cegos: Você percebe, pelo feedback da outra pessoa, que tem o hábito de interromper quando está ansioso. Ou que usa um tom sarcástico que fere, sem nem notar. O conflito é o espelho mais honesto que existe, mostrando o impacto que você causa nas outras pessoas.
  • Ele Expõe as Falhas no "Sistema": Em um time, um conflito constante sobre prazos pode revelar um processo de comunicação falho, e não a "incompetência" de alguém. Num casamento, uma briga recorrente sobre dinheiro quase nunca é sobre o dinheiro em si, mas sobre valores, segurança ou liberdade. O conflito aponta, com uma seta brilhante, onde a estrutura precisa ser ajustada.

 

O Vento Forte que Fortalece as Raízes

Pense em uma árvore grande e frondosa. Anos de tranquilidade a fizeram crescer, mas é nos períodos de vento forte que algo importante acontece: seus galhos podem até quebrar, folhas podem voar, mas, sob a terra, as raízes são forçadas a se agarrar com mais força, a se aprofundar para buscar mais estabilidade.

O conflito bem resolvido é esse vento forte. É desconfortável, assustador, bagunça a copa das nossas certezas. Mas, no processo, força as raízes da relação a se entranharem mais fundo no solo da confiança, do respeito mútuo e da verdade.

Na próxima vez que a tensão subir, antes de engatilhar sua defesa, respire. Faça a si mesmo as duas perguntas sagradas:

  1. "O que ele(a) realmente está precisando agora que não conseguiu dizer de forma clara?"
  2. "O que EU realmente estou precisando e não estou conseguindo expressar sem atacar?"

Escute o silêncio entre as palavras. Fale a partir do seu coração, não do seu orgulho.

É difícil? Extremamente. Exige treino, paciência e desarmar uma vida de condicionamentos.

Vale a pena? Absolutamente sempre. Porque cada conflito transformado em encontro não é um problema resolvido. É o vínculo mais fortalecido. É uma intimidade conquistada. É a prova mais tangível de que, juntas, vocês são capazes de passar pelo fogo e sair do outro lado não com cicatrizes, mas com uma liga mais forte, mais flexível e infinitamente mais verdadeira.

O conflito, tratado com cuidado, não afasta. Ele pode aproximar. Ele não quebra, ele pode reconstruir.

Comece hoje. A próxima discussão não ser uma ameaça. É sua próxima grande oportunidade.

 

#EscutaQueCura #ConflitoConstrutor #ComunicaçãoLibertadora #RelacionamentosSaudáveis #PolíticaSolidária


domingo, 18 de janeiro de 2026


 

Como a Liberdade de Cada Pessoa Precisa do Grupo para Existir de Verdade: Uma Ideia Revolucionária Simples

Pense numa coisa que parece simples: o que é ser livre? No mundo de hoje, nos dizem que liberdade é cada uma fazer o que quer, sozinha, sem ninguém atrapalhar. Do outro lado, quando falamos em melhorar o mundo, parece que a solução é sempre pensar só no grupo, e a pessoa tem que ser anulada.

Um livro profundo sobre Karl Marx, de Zhi Li, mostra que essas duas ideias estão erradas. E o futuro de uma sociedade mais justa depende de integrá-las. O livro mergulha fundo no pensamento de Marx para mostrar uma ideia que pode mudar tudo.

 

A ideia central é essa: a nossa liberdade individual só fica forte quando estamos num coletivo solidário. E um coletivo só vale a pena se ele servir para libertar cada pessoa dentro dele.

Parece confuso, mas é simples.

1. A Liberdade Sozinha é Fraca e Falsa
Sozinha, uma pessoa é fraca. Por mais que ela queira, suas escolhas são limitadas. Zhi Li explica que Marx chamava isso de "liberdade abstrata". É a liberdade no papel, mas não na vida real, é uma ilusão, uma fantasia. Sozinha, você não pode, garantir uma boa educação para si, uma saúde de qualidade, um trabalho digno sem exploração. Você fica presa na luta diária pela sobrevivência. A sua "liberdade" vira apenas a liberdade de escolher entre opções ruins dadas por outras pessoas. É como ter liberdade para escolher qualquer prato num restaurante, mas só se você tiver dinheiro para pagar. Quem não tem, não escolhe nada.

 

2. O Grupo Constrói o Palco da Liberdade
Agora, pense num grupo unido, onde as pessoas se ajudam de verdade. Juntas, elas podem criar coisas que sozinhas nunca fariam: reivindicar e conseguir uma escola pública, um hospital que atenda a todas as pessoas, um sistema de transporte bom, uma cooperativa de trabalho onde todas decidem juntas. O livro mostra que Marx enxergava isso. Ele não via o coletivo como um chefe que manda. Ele via o coletivo como um construtor. É o grupo que cria o palco – as condições materiais da vida – onde a liberdade da pessoa pode acontecer de verdade.

Zhi Li explica que Marx via isso claramente. A verdadeira liberdade não é você começar livre. É você se tornar livre, e você só consegue isso com a ajuda das outras pessoas. É como querer ser uma ótima nadadora. Você até pode ter o talento, mas sem uma piscina pública, um treinador acessível e um tempo que não seja todo consumido por um trabalho cansativo, seu talento nunca se desenvolve. Quem constrói a piscina pública? O poder público que atua conectado com nossas lutas coletivas.

 

3. O Objetivo do Grupo é a Liberdade da Pessoa
Aqui está o ponto que o livro destaca: o objetivo do grupo NÃO é controlar a vida de ninguém. O objetivo do grupo é justamente o oposto: garantir que cada pessoa dentro dele tenha o apoio e os recursos para viver sua vida do jeito que quer, desenvolvendo seus talentos, sem passar necessidade.

Um coletivo que esmaga as pessoas, que faz todas pensarem e agirem igual, é um coletivo falido. O sucesso de uma sociedade, na visão que Zhi Li explora de Marx, se mede pela felicidade e realização das pessoas que vivem nela, não por números de produção.

 

Imagina uma orquestra.
Cada instrumentista domina seu instrumento. Ela estudou anos para isso (isso é a liberdade individual, o talento da pessoa). Mas a música mais linda só acontece quando todas tocam juntas, se escutando, entrando no ritmo certo uma da outra (isso é a solidariedade coletiva). A música que elas fazem juntas é muito maior do que cada uma tocando separadamente. Uma não atrapalha a outra. Uma melhora a outra. A liberdade da flautista de fazer um solo lindo só faz sentido porque o resto da orquestra está sustentando a melodia para ela.

 

Imagina um time de futebol.
Cada atleta tem sua habilidade única. Quem está no ataque é ágil, quem está defendendo o gol, tem reflexo apurado. Mas o gol só sai quando o time se organiza, passa a bola, se entende. A estrela brilha por causa do time, não apesar dele. O time existe para que o talento de cada pessoa possa resultar em vitórias e jogadas bonitas.

 

4. A Crítica ao Mundo de Hoje
O livro de Zhi Li usa essas ideias de Marx para criticar como a nossa sociedade está organizada. No capitalismo, o "grupo" muitas vezes é na verdade uma competição disfarçada. É cada uma por si. Isso não cria um palco para a liberdade; cria uma armadilha. A solidariedade vira caridade, não uma base da sociedade.

A proposta é outra: uma sociedade onde a cooperação seja a base de tudo. Onde o trabalho de todas as pessoas não sirva apenas para dar lucro a algumas, mas para construir, para todas, esse "palco" público e comum de liberdade: boas escolas, saúde, cultura, lazer, moradia e muito mais.

 

É isso que significa "eu" por meio do "nós".

O socialismo, então, não é sobre abrir mão de quem você é. É exatamente o contrário. É sobre construir um mundo onde, através da união e da ajuda mútua consciente, todas as pessoas tenham a chance real de se tornar quem são, de verdade, sem medo e sem falta do básico.

Não é "eu" contra "nós". É entender que o "nós" forte, unido e solidário é a única forma de fazer o "eu" de cada pessoa valer a pena, crescer e ser livre de fato. O caminho é construir juntas. O livro de Zhi Li nos lembra que essa não é uma utopia distante, mas uma necessidade prática para um futuro onde todas possam viver com dignidade.


terça-feira, 6 de janeiro de 2026


 O Gangsterismo Global: Como os EUA Trocaram o Terno pelo Coldre

Durante décadas, eles foram os gentlemen do caos. Agiam nos corredores tapetados de organismos internacionais, em golpes de Estado encobertos, em sanções econômicas letais mas silenciosas. A política externa dos Estados Unidos vestiu, por muito tempo, um terno bem cortado de legalidade internacional, mesmo quando suas mãos sujavam-se de petróleo, sangue e soberania alheia. Era um gangsterismo de alto nível, sofisticado, velado.

A era Trump rasgou o terno.

O que antes era sussurrado em gabinetes ou executado por proxies agora é gritado no Twitter, transformado em ameaça televisiva, declarado com a crueza de um ultimato no faroeste. A mudança não é de essência, mas de método. A máscara caiu. O império abandonou a retórica e adotou a linguagem direta da extorsão.

O caso recente é um retrato nítido desta nova (des)roupação. A vice-presidenta da Venezuela, Delcy Rodríguez, foi alvo de uma ameaça pública e grosseira do ex-presidente Donald Trump. A mensagem, em resumo, era um clássico da máfia: "Se não se alinhar com os nossos interesses, você vai pagar mais caro." Não há diplomacia aqui. Não há respeito ao direito internacional ou à soberania de uma nação. Há apenas a postura do pistoleiro que chega à cidade e diz como as coisas vão ser. Só que Trump não é o xerife. Nunca foi. Ele é o bandido que mente descaradamente, que desrespeita qualquer lei que o incomode, que faz da chantagem e da intimidação sua principal ferramenta de negócio. Ele é a face explícita de uma lógica que sempre existiu: a dos EUA como o fora-da-lei global que dita as regras que só ele ou seus vassalos podem quebrar.

Este momento de brutalidade franca, no entanto, é também uma oportunidade histórica. A máscara caída deixa visível, para todos os povos, o rosto do poder hegemônico. Já não é possível fingir que se trata de "promoção da democracia" ou "intervenção humanitária". É poder bruto, nua e cruamente.

Por isso, a resposta não pode ser mais a mesma. É necessária uma postura firme, corajosa e coordenada dos países verdadeiramente soberanos, daqueles cujos governos estão comprometidos com o desenvolvimento nacional e não com a submissão a uma potência estrangeira. São atitudes concretas, coletivas, que causem constrangimento real aos Estados Unidos. Chegou a hora de nomear os crimes, de isolar os criminosos no palco mundial.

Chegou a hora, por exemplo, de enfrentar com união inabalável o genocídio em Gaza – um projeto tornado possível pelo apoio incondicional estadunidense. Chegou a hora de trazer a julgamento, no tribunal da opinião pública mundial, todos os crimes cometidos pelos EUA contra a soberania de países do Vietnã ao Iraque, da Líbia à América Latina.

Esta batalha, porém, não se vence apenas no campo da força. Deve-se vencer no campo das ideias. Como lembra o ensaísta Domenico Losurdo, a sociedade mundial um dia aboliu o duelo como método de resolver conflitos entre indivíduos, entendendo-o como bárbaro e irracional. Por que, então, ainda aceitamos a guerra – o duelo entre nações – como algo inevitável?

A partir desta reflexão, urge organizar um movimento mundial, um pacto civilizatório. As nações dos BRICS, um bloco já construído na lógica da multipolaridade e do respeito soberano, têm a força e o dever ético de dar o primeiro passo. Devem liderar uma condenação formal, explícita e incessante para suprimir a guerra como meio de solução de conflitos. Devem erguer a busca pela paz negociada, pela mediação e pelo direito internacional como únicas vias legítimas.

O objetivo é claro: É preciso constranger e transformar os Estados Unidos – em estreita aliança com Israel, que já se consolidou como um pária internacional – em párias diplomáticos globais. Isolá-los não movido por ódio, mas por uma necessidade urgente de sobrevivência coletiva. É imperativo torná-los incapazes de, com um único gesto, incinerar uma região inteira ou desestabilizar governos soberanos.

Vivemos o fim de uma era. A de um gangsterismo discreto. E o início de outra: a do banditismo desavergonhado. A resposta a isso não pode ser o medo. Deve ser a coragem coletiva de declarar, em uníssono, que este faroeste global acabou. Que a humanidade, finalmente, cresceu. Que estamos prontos para enterrar as armas e construir, por fim, uma era onde os conflitos se resolvam com palavras, leis e justiça – não com ameaças, bombas e gangsteres.

O Gangsterismo Global: Como os EUA Trocaram o Terno pelo Coldre

Durante décadas, eles foram os gentlemen do caos. Agiam nos corredores tapetados de organismos internacionais, em golpes de Estado encobertos, em sanções econômicas letais mas silenciosas. A política externa dos Estados Unidos vestiu, por muito tempo, um terno bem cortado de legalidade internacional, mesmo quando suas mãos sujavam-se de petróleo, sangue e soberania alheia. Era um gangsterismo de alto nível, sofisticado, velado.

A era Trump rasgou o terno.

O que antes era sussurrado em gabinetes ou executado por proxies agora é gritado no Twitter, transformado em ameaça televisiva, declarado com a crueza de um ultimato no faroeste. A mudança não é de essência, mas de método. A máscara caiu. O império abandonou a retórica e adotou a linguagem direta da extorsão.

O caso recente é um retrato nítido desta nova (des)roupação. A vice-presidenta da Venezuela, Delcy Rodríguez, foi alvo de uma ameaça pública e grosseira do ex-presidente Donald Trump. A mensagem, em resumo, era um clássico da máfia: "Se não se alinhar com os nossos interesses, você vai pagar mais caro." Não há diplomacia aqui. Não há respeito ao direito internacional ou à soberania de uma nação. Há apenas a postura do pistoleiro que chega à cidade e diz como as coisas vão ser. Só que Trump não é o xerife. Nunca foi. Ele é o bandido que mente descaradamente, que desrespeita qualquer lei que o incomode, que faz da chantagem e da intimidação sua principal ferramenta de negócio. Ele é a face explícita de uma lógica que sempre existiu: a dos EUA como o fora-da-lei global que dita as regras que só ele ou seus vassalos podem quebrar.

Este momento de brutalidade franca, no entanto, é também uma oportunidade histórica. A máscara caída deixa visível, para todos os povos, o rosto do poder hegemônico. Já não é possível fingir que se trata de "promoção da democracia" ou "intervenção humanitária". É poder bruto, nua e cruamente.

Por isso, a resposta não pode ser mais a mesma. É necessária uma postura firme, corajosa e coordenada dos países verdadeiramente soberanos, daqueles cujos governos estão comprometidos com o desenvolvimento nacional e não com a submissão a uma potência estrangeira. São atitudes concretas, coletivas, que causem constrangimento real aos Estados Unidos. Chegou a hora de nomear os crimes, de isolar os criminosos no palco mundial.

Chegou a hora, por exemplo, de enfrentar com união inabalável o genocídio em Gaza – um projeto tornado possível pelo apoio incondicional estadunidense. Chegou a hora de trazer a julgamento, no tribunal da opinião pública mundial, todos os crimes cometidos pelos EUA contra a soberania de países do Vietnã ao Iraque, da Líbia à América Latina.

Esta batalha, porém, não se vence apenas no campo da força. Deve-se vencer no campo das ideias. Como lembra o ensaísta Domenico Losurdo, a sociedade mundial um dia aboliu o duelo como método de resolver conflitos entre indivíduos, entendendo-o como bárbaro e irracional. Por que, então, ainda aceitamos a guerra – o duelo entre nações – como algo inevitável?

A partir desta reflexão, urge organizar um movimento mundial, um pacto civilizatório. As nações dos BRICS, um bloco já construído na lógica da multipolaridade e do respeito soberano, têm a força e o dever ético de dar o primeiro passo. Devem liderar uma condenação formal, explícita e incessante para suprimir a guerra como meio de solução de conflitos. Devem erguer a busca pela paz negociada, pela mediação e pelo direito internacional como únicas vias legítimas.

O objetivo é claro: É preciso constranger e transformar os Estados Unidos – em estreita aliança com Israel, que já se consolidou como um pária internacional – em párias diplomáticos globais. Isolá-los não movido por ódio, mas por uma necessidade urgente de sobrevivência coletiva. É imperativo torná-los incapazes de, com um único gesto, incinerar uma região inteira ou desestabilizar governos soberanos.

Vivemos o fim de uma era. A de um gangsterismo discreto. E o início de outra: a do banditismo desavergonhado. A resposta a isso não pode ser o medo. Deve ser a coragem coletiva de declarar, em uníssono, que este faroeste global acabou. Que a humanidade, finalmente, cresceu. Que estamos prontos para enterrar as armas e construir, por fim, uma era onde os conflitos se resolvam com palavras, leis e justiça – não com ameaças, bombas e gangsteres.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

 A Inovação Esquecida: A Autoridade Ética como Alavanca da Transformação

Hoje, muito se fala em inovação. Em romper barreiras, em criar soluções inéditas, em transformar realidades. Na gestão pública e nas outras organizações, essa busca frequentemente se concentra em novas tecnologias, processos ou modelos. No entanto, pode estar faltando olhar para uma inovação mais profunda e fundamental: a inovação na própria forma de liderar.

A filosofia de Paulo Freire, embora nascida na pedagogia, oferece o insight fundamental para essa transformação. Seu conceito de "inédito viável" – a percepção de que a realidade não é estática, mas um campo de possibilidades a serem construídas, pode ser o combustível de qualquer organização que queira, de fato, inovar. Mas como acessar esse potencial coletivo? O caminho não passa por imposições verticais, mas por uma revolução relacional: a adoção da autoridade ética.

O Poder que Paralisa a Inovação

Na gestão tradicional, ainda se confunde autoridade com autoritarismo. O gestor que opera pelo medo, pela intimidação e pelo controle acredita estar demonstrando força. Na verdade, está desnudando uma fraqueza profunda e, pior, sufocando a inovação na fonte.

A necessidade de coagir revela a insegurança de quem não consegue inspirar. Esse poder coercitivo pode até gerar obediência momentânea, mas seu custo é altíssimo: ele destrói a criatividade, anula a motivação intrínseca e dissolve a confiança. Em um ambiente assim, o "inédito viável" não tem solo para germinar. As pessoas gastam energia se protegendo, não arriscando ou criando.

A Força Silenciosa que Liberta o Novo

A verdadeira inovação organizacional nasce de um poder atrativo, não coercitivo. É aí que a autoridade ética se revela como a alavanca esquecida. Ela não precisa ser anunciada de forma intimidadora; mas percebida na coerência, na competência e no cuidado.

Esta autoridade se constrói com vínculos de confiança, não ameaças; com influência, não intimidação; com respeito mútuo, não submissão.

O gestor ético entende que sua função principal não é comandar, mas criar as condições dialógicas para que a inteligência coletiva floresça. Ele facilita um processo onde a equipe:

  1. Reflete criticamente sobre os desafios atuais.
  2. Age de forma coletiva para transformá-los.
  3. Descobre, em conjunto, o "inédito viável" – a inovação que era possível, mas estava adormecida pela dinâmica do medo.

Práxis Organizacional: O Ciclo da Inovação Sustentada

Este é o coração da práxis aplicada à gestão: o ciclo contínuo de Ação → Reflexão Crítica → Ação Transformada. O gestor atua como um facilitador desse ciclo, valorizando o conhecimento tácito de cada membro e garantindo que todas as vozes sejam ouvidas.

Aqui, a "cultura do silêncio" – onde as pessoas não se sentem seguras para criticar ou sugerir – é o maior inimigo da inovação. O gestor autoritário a perpetua. O gestor ético a quebra sistematicamente através do diálogo, convertendo o medo em coragem para propor o novo.

Conclusão: A Inovação Começa na Liderança

Portanto, antes de buscar inovar em produtos ou serviços, talvez a pergunta essencial seja: nossa forma de liderar é inovadora?

O caminho para uma organização ágil e verdadeiramente inovadora não passa pelo reforço do controle, mas pela coragem de adotar uma autoridade que propõe, escuta e co-constrói. Esta é a inovação prévia, o pré-requisito humano que possibilita todas as outras.

A força do líder inovador não se mede pelo volume de sua voz, mas pela solidez dos vínculos que constrói e pela capacidade que ele cultiva em sua equipe de enxergar e realizar, coletivamente, o futuro que desejam criar.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019


Meios de produção e força de trabalho

Para entendermos o capitalismo atual, vamos analisar as condições de produção na Europa do século XVI e as transformações que ocorreram no trabalho humano, o qual levou as formas de produção a se transformarem profundamente.

Analisaremos as transformações em linhas gerais, naquilo que foi essencial. Mas, antes, vamos estabelecer alguns conceitos fundamentais. 

Em qualquer época histórica, desde os primórdios até os dias atuais, para que ocorra trabalho, ou seja, a ação consciente humana sobre a natureza, com um objetivo específico, há a necessidade sempre de se combinar meios de produção: matéria-prima, o objeto que se vai transformar; ferramentas, que auxiliam na ação adequada sobre o objeto, materiais acessórios, um local, por exemplo, para manusear os objetos, bem como protegê-los e, fundamentalmente, a capacidade de trabalho ou força de trabalho, que é o conhecimento humano aplicado na prática, de forma consciente. 

Essa capacidade de trabalho é física e mental (intelectual), estruturada na personalidade do indivíduo. Portanto, depende do indivíduo estar vivo, mas, principalmente, vivo culturalmente, ou seja, essa capacidade é aprendida em sociedade, assim como o filhote de chimpanzé aprende com sua mãe a quebrar nozes, depois de muita tentativa frustrada, copiando os movimentos dela.

Se nascer em um grupo que não "aprendeu" a usar as ferramentas adequadas, não terá essa habilidade, apesar de ter a capacidade de usá-las, intrínseca à sua estrutura física e mental. 

CARLOS BURKE

ENSAIO SOBRE O CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO

Uma abordagem marxiana

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Um recorte de 500 anos

O Homo sapiens percorreu um longo período de aprendizagem e domínio da natureza até se fixar em locais mais ou menos permanentes, em função da agricultura.

Os vestígios mais antigos dessa cultura datam de 14 mil anos. Mas não precisamos retomar a um tempo tão distante para entendermos um pouco de nossa realidade atual.

Precisamos "apenas" de 500 anos de história do trabalho para nos basearmos. Escolhi esse recorte por dois motivos: começa a acontecer uma mudança fundamental no processo de trabalho, que transformou tão profundamente a sociedade humana, tornando-a hoje tão complexa, com uma capacidade de trabalho infinitamente superior a qualquer outra época da História Humana. E 500 anos tem relação direta com a história do Brasil, pelo menos a história dos vencedores.

Não podemos nos esquecer de que por aqui já existia muita história anterior. Niede Guidon, na Serra da Capivara, no Piauí, defende que encontrou vestígios de povos primitivos datados de 60 mil anos, além dos indígenas que colonizaram nosso território há 10 mil anos.

Apesar da dizimação quase completa dos povos primitivos, ainda encontram-se grupos isolados, vivendo sua cultura como há milhares de anos. Os ianomâmis, apesar de muitos grupos já terem sido contatados, são caçadores e coletores, portanto, nômades, dependendo totalmente da floresta para sobreviver. Ficaremos, no entanto, com a história dos grupos vencedores, dessa espécie animal que também domina e mata os da mesma espécie.


ENSAIO SOBRE O CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO
CARLOS BURKE

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O uso de objetos no desenvolvimento do trabalho

Não precisaremos retornar aos primórdios, quando nossos ancestrais começaram a transformar a natureza usando objetos rudimentares como ferramenta.

Podemos enxergar essa utilização em nossos primos macacos, os chimpanzés, que aprendem a usar essas ferramentas rudimentares quando escolhem galhos de determinada espessura, tamanho e flexibilidade e os introduzem no formigueiro para produzir seus "espetinhos" de formiga ou quando também aprendem a quebrar nozes usando uma pedra côncava, procurada entre tantas disponíveis, na qual apoiam a noz e, com outra pedra adequada, a quebram.

Ficou provado que nem todos os grupos de chimpanzés usam dessas ferramentas, logo, isso é um aprendizado cultural, independente dos instintos.

Claro que aqueles que utilizam de tais expedientes, podem ter acesso a mais proteína, o que significa melhor fecundidade e domínio sobre outros grupos. Portanto, os que têm mais facilidade de aprendizagem, acabam por fazer prevalecer seus genes nas próximas gerações.

As ferramentas mais rudimentares do Homo sapiens encontradas, como pedras lascadas ou ossos de animais, datam, para arredondarmos, de 100 mil anos.

Muito pouco tempo, se considerarmos que o universo tem aproximadamente 15 bilhões de anos, nosso planeta 4,5 bilhões e as formas de vida mais elementares 3,5 bilhões, segundo o conhecimento da ciência atual.

ENSAIO SOBRE O CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO
CARLOS BURKE

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO


"Quando pergunto aos alunos o que nos diferencia dos animais, invariavelmente, respondem: o Raciocínio. O curioso é que depois reclamam quando os convido a raciocinar.
Sem dúvida, o raciocínio é uma característica peculiar de nossa espécie, principalmente o raciocínio complexo.
Mas, há outra característica peculiar que não encontramos desenvolvida em mais nenhuma espécie: o Trabalho.
Podemos afirmar que Raciocínio e Trabalho, ou seja, a capacidade de transformar a natureza com um plano antecipado, vislumbrando o objetivo que se quer atingir, caminham juntos.
O raciocínio se desenvolveu com o desenvolvimento do trabalho, influenciando-o ao mesmo tempo. Alguns afirmam mais radicalmente que o Homo sapiens é produto do desenvolvimento do trabalho.
Independente do ponto de partida é por meio do desenvolvimento do trabalho que buscaremos compreender alguns fenômenos contemporâneos."

ENSAIO SOBRE O CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO
Uma abordagem marxiana
CARLOS BURKE

















sexta-feira, 17 de abril de 2015

A Gens

Estou publicando trechos do Livro de Engels, a origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Fundamental para entendermos as instituições que dispomos hoje na nossa sociedade. É importante salientar que todas essas mudanças nas relações de poder ocorreram na humanidade num período muito curto de tempo, cerca de 3 mil anos. Curto, se considerarmos todo o período da aventura humana no nosso planeta. Boa leitura.

A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado

Friedrich Engels


IX - Barbárie e Civilização

capa
Pesquisaremos as condições econômicas gerais que na fase superior da barbárie minavam já a organização gentílica da sociedade, e acabaram por fazê-la desaparecer, com a entrada em cena da civilização. Para isso, O Capital de Marx vai nos ser tão necessário quanto o livro de Morgan.
Nascida a gens na fase média do estado selvagem, e desenvolvida na fase superior, ela alcançou seu apogeu, segundo nos permitem julgar os documentos de que dispomos, na fase inferior da barbárie. Por essa última, portanto, começaremos a nossa investigação.

Nela, onde os peles-vermelhas americanos vão-nos servir de exemplo, encontramos a constituição gentílica completamente desenvolvida. Uma tribo se divide em diversas gens, comumente em duas; com o aumento da população, cada uma das gens primitivas se subdivide em várias gens filhas, para as quais a gens-mãe persiste como fratria; a própria tribo se subdivide em várias tribos, em cada uma das quais, na maioria dos casos, vamos achar as antigas gens; uma confederação, pelo menos em certos casos, une as tribos aparentadas. Essa organização simples é inteiramente adequada às condições sociais que a engendraram.

Não é mais do que um agrupamento espontâneo, capaz de dirimir todos os conflitos que possam nascer no seio da sociedade a que corresponde. Os conflitos exteriores são resolvidos pela guerra, que pode resultar no aniquilamento da tribo, mas nunca em sua escravização. A grandeza do regime da gens — e também a sua limitação — é que nele não cabiam a dominação e a servidão.

Internamente, não existem diferenças, ainda, entre direitos e deveres; para o índio não existe o problema de saber se é um direito ou um dever tomar parte nos assuntos de interesse social, executar uma vingança de sangue ou aceitar uma compensação; tal problema lhe pareceria tão absurdo quanto a questão de saber se comer, dormir e casar é um dever ou um direito. Nem podia haver, na gens ou na tribo, divisão em diferentes classes sociais. E isso nos leva ao exame da base econômica dessa ordem de coisas.

Primeira Edição: Esta obra foi escrita por Engels, de março a junho de 1884. Foi publicada pela primeira vez em Zurique, no mesmo ano.
Tradução: A presente tradução, de autoria de Leandro Konder, foi feita da edição de 1953 em espanhol preparada pelo Instituto Marx-Engels-Lênin (atualmente Instituto da Marxismo-Leninismo, anexo ao CC do PCUS) e publicada por Ediciones en Lenguas Extranjeras, de Moscou. O texto do presente livro foi confrontado com o contido na edição alemã, Karl Marx und Friedrich Engels, Ausgewählte Schriften. Dietz Verlag, Berlim, 1961, em dois tomos, por Helga Hoffmann. As notas assinaladas com N. da R., são do então Instituto Marx-Engels-Lênin (hoje, Instituto de Marxismo-Leninismo). A capa desta edição brasileira foi realizada com o aproveitamento de O Casamento, de O Escudo de Aquiles, uma gravura anagliptográfica de Flaxman, publicada em Londres, em 1846, no Art Union Journal. É de Mauro Vinhas de Queiroz, assim como o diagrama do livro.
Fonte: Editorial Vitória Ltda., Rio de Janeiro, 1964.
Transcrição: Diego Grossi
Direitos de Reprodução: Licença Creative Commons licenciado sob uma Licença Creative Commons.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

As relações tensas entre o Brasil e os EUA desde os tempos do império (Parte 2)




O Reino do Brasil separou-se de Portugal dia 7/9/1822. A posição dos EUA, ao contrário do que se difundiu, não foi de pronto reconhecimento da independência.

Em 1824, o imperador Dom Pedro I nomeara José Silvestre Rebelo como Encargado de Negócios e Ministro Plenipotenciário em Washington. O Secretário de Estado, John Quincy Adams, recebeu-o, depois de muita relutância, mas não quis reconhecer o Brasil como Estado independente, argumentando que muita gente, sobretudo na província de Pernambuco, opunha-se ao governo monárquico. (8) E só depois de algum tempo, o presidente James Monroe concordou com recebê-lo em audiência - gesto que foi interpretado como o reconhecimento da independência do Brasil.

Mas Condy Raguet, o cônsul que representava os EUA no Rio de Janeiro, não aceitou essa interpretação. Cinco meses depois da audiência, não recebera ainda qualquer documento de Washington, o que indicava cautela e dúvidas no comportamento dos EUA e demostrava que a audiência concedida a Silvestre Rebelo significava apenas uma "tendência" para lançar as bases de um intercâmbio de opiniões. (9) A euforia dos primeiros momentos transformou-se em desconfiança.

Só depois que outra insurreição foi sufocada em Pernambuco, também alimentada por homens de negócios norte-americanos, é que, dia 9 de março de 1825, foi designado Condy Raguet, para o posto de Encarregado de Negócios. E mesmo assim ainda se passaram mais oito meses, até que Washington enviasse suas credenciais, o que só aconteceu depois que Portugal reconheceu a separação do Reino do Brasil.

Em 29/10/1825, cerca de três anos depois da proclamação da independência, Condy Raguet apresentou-se ao Imperador D. Pedro I, oficialmente, como encarregado de Negócios dos EUA.
 
(8) Ofício de Silvestre Rebelo a Luís José de Carvalho e Melo, Ministro dos Negócio Estrangeiros. Arquivo Diplomático da Independência, vol. V, p. 103.
(9) Despatch, Condy Raguet a John Quincy Adams, Rio de Janeiro, 5.10.1824, in MANNING, William R. - Diplomatic Correspondence of the United States concerning the Independence of Brazil of Latin-American Nations. Oxford University Press, 1925, p. 807.
 
Luiz Alberto Moniz Bandeira (redigido em esp.), s/d, La onda digital, n.702, Uruguai
http://www.laondadigital.uy/archivos/4262 (traduzido e publicado pelo Pravda - http://port.pravda.ru/cplp/brasil/28-12-2014/37805-eua_brasil-0/)
 
 
 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

As relações tensas entre o Brasil e os EUA desde os tempos do império (Parte 1)




Ao largo da história, os brasileiros, de modo geral, tiveram sempre uma percepção bastante negativa dos Estados Unidos. Em 1817, quando o Brasil ainda era Reino Unido a Portugal, houve uma insurreição, animada em grande medida por comerciantes americanos, visando a implantar uma república na província de Pernambuco, ou seja, para "introduzir no Brasil o plano de Washington" (1), e não foi só pretensão, sem fundamento e implausível. A sedição realmente tinha conexões com os EUA.
O comerciante norte-americano Joseph Bryan, comerciante em Recife, capital de Pernambuco, participou de fato da conspiração, juntamente com seu sócio, Joseph Ray, que vivia na Filadélfia, e pouco depois do levante, dia 28 de março de 1817, partiu a bordo do navio norte-americano "Gipsy", levando Antonio Gonçalves da Cruz, apelido "Cabugá", com a missão de fazer uma aliança com os Estados Unidos, mesmo sem o reconhecimento do governo revolucionário, e para comprar armas e munição de boca. (2) Em Washington, Cabugá teve encontros com Cæsar Rodney, "confidente de gabinete", com o presidente do Banco dos Estados Unidos, William Jones, e com o Secretário de Estado, Richard Rush, que não só reconheceu tacitamente a beligerância em Pernambuco como até admitiu a possibilidade de mandar uma força naval par a costa do Brasil, com a finalidade de proteger o seu comércio. (3)

Os rumores de que os Estados Unidos ajudariam a revolução em Pernambuco difundiram-se então de tal forma, que o Conde dos Arcos, governador da Bahia e encarregado da repressão, teve de emitir comunicado, para assegurar, sob "palavra de honra, que os Estados Unidos (...) com certeza absoluta não enviariam soldados seus para facilitar crimes horrorosos". (4) Com efeito, os Estados Unidos nada fizeram. O intento de estabelecer uma república em Pernambuco foi sufocado, e o padre Francisco Muniz Tavares, participante do movimento e seu historiador, comentou: "O espírito de esta nação é tão mercantil. E mercadores são avarentos". (5) Segundo, depois, observou, o governo dos Estados Unidos saudaria "os oprimidos que esmagarão os opressores, porque tem certeza de que mais ganhará no comércio". Mas, se os oprimidos não mostram coragem alguma, o governo dos EUA, sim, partiriam a caminho das outras nações.

"O temor do comprometimento logo os tornará surdos e nem alguma ajuda oferecerão" - acrescentou o padre Muniz Tavares. (6) O próprio Antonio Gonçalves da Cruz, que desde a insurreição de 1817 vivia nos EUA, escreveu, em 1823, a José Bonifácio de Andrada e Silva, Ministro do Interior e Estrangeiros no 1º gabinete organizado pelo imperador Dom Pedro I, que o comércio e a indústria eram os recursos do país, e não é de estranhar
"se esses americanos penetram em todas as partes, com a maior perseverança, para granjear o que atenda às necessidades deles e à sua cobiça; nem deve causar admiração se o governo deles, seguindo essa propensão nacional, vai continuadamente especulando nas suas reações estrangeiras, cuja delicadeza serve frequentemente, como subordinada, ao empenho para burlar". (7)
 
 
(1) MELO, Mario. A Maçonaria e a revolução republicana de 1817. Recife: Instituto Archeológico e Geographico, 1912, p. 9 e 10.
 
(2) Carta original, firmada por José Carlos Mairink da Silva Ferrão, Casa do Governo Provisório de Pernambuco, 27.3.1817. AHI - Lata 195, maço 4, pasta 4. III - Cols. Especiais. Documentação anterior a 1822 - Independência.
 
(3) As anotações feitas por Antonio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, das audiências que teve com Cæsar Rodney, o "confidente de gabinete", com o presidente do Banco dos Estados Unidos e, em seguida com o Secretário de Estado, Richard Rush: Documentos sobre as relações com os Estados Unidos, firmado por diversos e Antonio Gonçalves da Cruz, 38 páginas, originais e cópias. AHI - lata 195, maço 4, pasta 5 - III Cols. Especiais - Documentação anterior a 1822 - Independência - Capitania de Pernambuco (Revolução de Pernambuco).
 
(4) Comunicado do Conde dos Arcos, in Documentos Históricos /Revolução de 1817), vol. CI, p. 40 e 41.
 
(5) TAVARES, Francisco Muniz - História da Revolução em Pernambuco em 1817. Recife: Instituto Archeológico e Geográphico de Pernambuco, 3ª. edição, 1917, p. CLV.
 
(6) Id., ibid., p. CLV.
 
(7) Ofício de Antônio Gonçalves da Cruz a José Bonifácio de Andrada e Silva, Filadélfia, 31.7.1823. Arquivo Diplomático da Independência, vol. V, p. 71.
 
Luiz Alberto Moniz Bandeira (redigido em esp.), s/d, La onda digital, n.702, Uruguai
http://www.laondadigital.uy/archivos/4262 (traduzido e publicado pelo Pravda - http://port.pravda.ru/cplp/brasil/28-12-2014/37805-eua_brasil-0/)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Por um PT democrático, de massas e socialista, por que não?




Estou publicando estas reflexões porque entendo que vivemos um momento de muita riqueza ideológica

As condições objetivas são bastante favoráveis para o PT se fortalecer como instrumento de transformação da sociedade brasileira.

Não podemos perder essa oportunidade histórica.

As intenções dos dirigentes e governantes do nosso Partido precisam ser traduzidas em gestos mais ousados de participação e de avanços numa sociedade que tem pressa em reduzir as desigualdades, em melhorar a qualidade dos serviços públicos, em reduzir os privilégios das elites, sem comprometer a estabilidade política e econômica.

O equilíbrio de forças e recursos precisa estar afinado com o projeto de transformação que dá sentido à existência de nossa organização partidária.

O poder para a direita é um fim em si mesmo, pois apenas querem manter a sociedade do jeito que está, mas para nós, o poder precisa ser instrumento de transformação, ou então, não serve para muita coisa.

O que garante a condução do rumo do Projeto são as instituições fortes, atendendo aos anseios da sociedade.
Leia uma postagem interessante no link abaixo:
 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O veneno da globo (com minúsculo mesmo!)



"O veneno não estava em Venina. Ela está contando sua história, e cabe averiguar.

A maldade estava na maneira como Venina foi usada.
...
Dilma, no final, é citada – pela Globo. Numa tentativa de desmoralizá-la, a Globo diz que Dilma afirmou que não existe uma “crise de corrupção”.

No meio de uma entrevista que trata exatamente de corrupção, a frase de Dilma parece o triunfo do cinismo.

Mas o cinismo é da Globo. É mais uma tentativa, como Roberto Marinho fez tantas vezes primeiro contra Getúlio e depois contra Jango, de rotular como corruptos regimes que não garantem a manutenção de mamatas e privilégios a um pequeno grupo.

A Globo faz assim, tradicionalmente: cala quando a corrupção é amiga. Na ditadura, quando a empresa virou um gigante, corrupção não existia, numa troca macabra de favores.

Sob Sarney e FHC, amigos e aliados, também não. Para a Globo, sequer a compra de votos da reeleição de FHC foi notícia.

Agora, o amigo Aécio também goza de imunidade. Que cobertura a Globo deu ao aeroporto de Cláudio? E ao helicóptero com meia tonelada de pó dos Perrelas, amigos fraternais de Aécio? A Globo é assim: também os amigos dos amigos recebem tratamento especial.

A este tipo de comportamento delinquente jornalístico se junta o descaro com que a Globo sonega – uma forma de corrupção que, se não combatida, destrói a economia de qualquer país."

Diga não ao fechamento do CEART Mario Gusmão




O Centro Municipal de Arte-educação e Cultura Mário Gusmão não pode fechar. Se tal tragédia ocorrer muitas crianças pobres, que dependem exclusivamente da escola pública, vão ficar sem um importante espaço de democratização da educação, da arte e da cultura.

Uma instituição que proporciona às crianças e jovens das escolas municipais de Salvador, ambientes adequados à produção de bens e serviços culturais, com vistas a diversificar as estratégias de melhoria da qualidade da educação e garantia da permanência e do sucesso de todos na escola.
Esse é um governo que demonstra cada dia que não tem compromisso com as pessoas mais pobres desta cidade.

Apoie esta causa. Se nada fizer, nada mudará.

Diga não ao fechamento do CEART Mario Gusmão: Assine o abaixo-assinado no link abaixo:

http://www.peticaopublica.com.br/psign.aspx?pi=BR78201



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Telegramas da diplomacia dos EUA revelados pelo Wikleaks mostram que a Casa Branca tenta impedir o desenvolvimento tecnológico do Brasil

                                                                             


Os telegramas da diplomacia dos EUA revelados pelo Wikileaks revelaram que a Casa Branca toma ações concretas para impedir, dificultar e sabotar o desenvolvimento tecnológico brasileiro em duas áreas estratégicas: energia nuclear e tecnologia espacial.

Fernando Henrique Cardoso firmou em 2000 o Acordo de Salvaguardas Brasil-EUA (TSA) para o desenvolvimento de tecnologia espacial, mas o texto foi rejeitado pelo Senado Brasileiro após a chegada de Lula ao Planalto.

Na sua rejeição o parlamento brasileiro considerou que seus termos constituíam uma “afronta à Soberania Nacional”. Pelo documento, o Brasil cederia áreas de Alcântara para uso exclusivo dos EUA sem permitir nenhum acesso de brasileiros.

Além da ocupação da área e da proibição de qualquer engenheiro ou técnico brasileiro nas áreas de lançamento, o tratado previa inspeções americanas à base sem aviso prévio.

Leia a matéria completa do Jornalista Beto Almeida.

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2011/02/wikileaks-revela-sabotagem-contra.html

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

                                                                            



Veja esse e inúmeros outros casos de corrupção no Brasil na extensa matéria do Jornal do Brasil

"A compra de votos para eleição foi outro escândalo do governo Fernando Henrique Cardoso. Uma emenda constitucional que autorizava presidente, governadores e prefeitos a disputarem a reeleição foi aprovada pela Câmara em primeiro turno, no início de 1997.
Em maio, quando o texto aguardava aprovação do Senado, uma conversa entre os deputados Ronivon Santiago e João Maia veio a público, em que eles diziam ter recebido R$ 200 mil para votar a favor da emenda, e que outros também teriam vendido voto.

Falavam ainda que o deputado Pauderney Avelino e o então presidente da Câmara, Luís Eduardo Magalhães, eram os intermediários das negociações, e que tudo era tratado diretamente com o ministro das Comunicações, Sérgio Motta, amigo de FHC e principal articulador político do então presidente.

Uma comissão de sindicância na Câmara foi criada para investigar o caso, mas a cúpula do governo de FHC começou a conceder cargos públicos e verbas para evitar a instauração de uma CPI.
A comissão, então, apresentou um relatório que retirava a necessidade de CPI, recomendando que a Procuradoria-Geral da República investigasse o envolvimento do ministro Sérgio Motta, que as Assembleias do Acre e do Amazonas fizessem o mesmo com os governadores e que a Câmara tratasse dos deputados. Todos foram inocentados por suposta falta de provas, e a emenda da reeleição foi aprovada.

Ficou famosa a declaração do então deputado federal (PFL-AC), Ronivon Santiago, sobre os R$ 200 mil: "Uma mixaria dessas não compra ninguém". Também a comemoração dos deputados governistas, quando o projeto de reeleição foi aprovado na Câmara: "Uh, tererê!"."
Leia matéria completa no site: http://m.jb.com.br/pais/noticias/2014/12/14/corrupcao-no-brasil-das-colonias-a-todas-as-esferas-da-politica-e-do-mercado/

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Quem ganha e quem perde com a guerra às drogas


 
Um texto bastante lúcido de Maurício Moraes sobre a "guerra às drogas". Um assunto que deve ser dialogado com muita profundidade pela sociedade.
“A questão é que a droga existe, que todo dia alguém fuma uma pedra no centro de São Paulo ou cheira uma carreirinha em algum canto do Congresso Nacional. É um fato e precisamos lidar com isso. Por isso mesmo, qualquer política pública que não aceite a realidade estará, em algum momento, equivocada.
Felizmente, temos sopros de lucidez ao redor do mundo. Estados americanos como o Colorado e o vizinho Uruguai já legalizaram a maconha (parte importante do problema). O debate ganha fôlego na América Latina e até nos EUA, onde o presidente Barack Obama já admitiu que a Guerra às Drogas é um "fracasso total”.
Nessa guerra travada sobretudo nas periferias, o maior preço é pago por quem é tragado pelas prisões superlotadas. No Brasil, a coisa só piorou desde que o Sistema Nacional de Politicas sobre Drogas entrou em vigor em 2006. Acabamos de passar a Rússia e agora temos a terceira maior população carcerária do mundo (715 mil pessoas).
Nessa guerra, cor da pele, endereço e conta bancária contam. Uma coisa é um menino branco fumar na Avenida Paulista (vai provavelmente se safar como usuário). Outra é o menino preto fumando na periferia (grande chance de ir para a cadeia por tráfico). O enredo é corriqueiro — curso intensivo de marginalidade e estigma após sair da prisão. O saldo é sempre mais violência.
Além de tragar recursos públicos, a Guerra às Drogas funciona como um terrível mecanismo de controle social, de criminalização da pobreza. Para "proteger" nossas famílias dos vapores entorpecentes deste mundo, criamos um sistema sórdido de violência. O Estado faz de conta que vai acabar com as drogas. A sociedade finge que a cadeia é a solução para todos os males (enquanto uns poucos tantos enriquecem nesse ínterim).
Diante da mentira, a verdade é que precisamos falar sobre drogas e debater sua legalização e regulação. Até lá, seguiremos contando os mortos desse front.”
*Maurício Moraes é jornalista e foi candidato a Deputado Federal por São Paulo pelo PT.